Sexo sem HPV

Monica Levy

Já existe uma vacina, importada, que imuniza os jovens que iniciam a vida sexual contra o HPV. Na foto:
vacinação contra o HPV no Cedipi, em São Paulo. No Chile e no Canadá as crianças são vacinadas a partir dos 9 anos de idade.

Existem mais de cem tipos de HPV, sigla em inglês para  o papilomavírus humano. Nem todos são genitais, mas estudos internacionais atestam que entre 50% e 80% das mulheres sexualmente ativas serão contaminadas por um ou mais tipos de HPV ao longo da vida. A maioria das infecções é transitória e, muitas vezes, os anticorpos desenvolvidos pelo organismo são suficientes para combatê-las. O problema é que alguns tipos de HPV estão relacionados à incidência de tumores malignos no colo do útero que, quando não tratados, podem levar ao câncer.
Embora o vírus já tivesse sido diagnosticado há tempo, a abordagem sobre o HPV mudou por volta dos anos 1980, com a descoberta de sua relação com o câncer de colo de útero, um tipo de tumor que é o segundo de maior incidência entre a população feminina, depois do câncer de mama. No Brasil, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer, ocorreram mais de 18 mil casos em 2010. Estatísticas mais antigas dessa instituição falam em 4.800 mortes por ano, números mais do que elevados para a infecção por HPV ser tratada como um caso de saúde pública.
Homens e mulheres transmitem e desenvolvem o HPV. Os homens, muitas vezes, são portadores silenciosos da doença, pois não manifestam nenhum sintoma aparente. “É muito comum a mulher apresentar lesões e o companheiro não. Isso pode trazer problemas no relacionamento do casal, pois o expõe ao questionamento da fidelidade”, diz a ginecologista Fátima Duarte, da Universidade de São Paulo. “É uma doença que fragiliza demais as pessoas por envolver questões muito íntimas e implicar um tratamento desagradável nos órgãos genitais.”
Defensora da vacina como uma conquista da ciência para as mulheres, Fátima lembra que países com melhores índices de saúde, como o Chile e o Canadá, vacinam as crianças a partir dos 9 anos de idade. “Eu acho melhor depois da menstruação, aos 11 ou 12 anos, para que o rito de passagem e educação sexual coincida com a percepção dos riscos da doença”, defende. “É importante não sexualizar as crianças antes da hora.”
Seja qual for a idade, a vacina deve ser aplicada, preferencialmente, antes do início da vida sexual. Mesmo que não possua 100% de eficácia, é a melhor forma disponível de lidar com a doença, e alguns países já começam a vacinar inclusive meninos. No Brasil está em estudo uma análise de custo-benefício para saber o que custa mais: a vacina ou os gastos com prevenção e tratamento. Fora da rede pública, além das escolas, algumas prefeituras e instituições privadas como o Banco Itaú, por exemplo, têm tomado iniciativas para difundi-la aos seus funcionários a custos acessíveis.
Desde 2006 a vacina está disponível nos principais hospitais, clínicas e laboratórios do país. Em São Paulo, a Clínica Especializada em Doenças Infecciosas e Parasitárias e em Imunizações (Cedipi) a aplica em meninos, quando orientados por médico, e em mulheres até 45 anos. “O que a gente vê hoje são os adolescentes pedirem aos pais para serem vacinados”, afirma Monica Levy, médica da clínica, que prega a imunização por volta dos 10 anos. “Embora o pico da incidência do HPV seja entre 20 e 25 anos, as meninas iniciam a vida sexual cada vez mais cedo.”
Questões religiosas, por vezes, atrapalham a divulgação da vacina. Mas a Associação Americana de Pediatria defende sua prescrição entre 11-12 anos. “O que se deve levar em conta”, lembra o médico Fernando Coelho, da Sociedade Brasileira de Urologia, “é que o uso da camisinha não deve ser negligenciado”. Segundo ele, parece que o susto da Aids passou. “Com os tratamentos da doença, a sobrevida e a redução de mortes, as pessoas baixaram a guarda. Tenho percebido que o alto índice de relações casuais tem levado a um novo aumento das doenças sexualmente transmissíveis simplesmente porque as pessoas não se cuidam.”
O urologista conta, também, que um dos questionamentos do HPV nos consultórios é a tentativa de saber quem passou para quem. Em geral, não se consegue uma resposta. Principalmente, porque muitos homens só procuram o médico quando a mulher é diagnosticada, o que não significa que não tenham sido eles a transmitir. “O homem sofre menos com a doença. Mas mesmo assim espero que em poucos anos a vacina seja liberada também para meninos, em larga escala.”
O que tem mudado, basicamente, é o aumento de informação sobre a doença, enfatiza uma fotógrafa paulistana, mãe de três meninas. As duas mais velhas não foram vacinadas e uma desenvolveu a doença. A mais nova, agora com 17 anos, já tomou as primeiras duas doses. “Eu tinha conhecimento da vacina, mas deixei passar. Depois que uma das meninas teve HPV, acordei. Acho que nos últimos dez anos as pessoas ficaram mais esclarecidas.”
Fonte: Revista Planeta
Leia também no Biorritmo:
Incidência de HPV em homens (02/03/2011)
Conhecendo o vírus HPV (08/05/2010)
Câncer de colo de útero (22/12/2009)

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