O Inseto de Nossa Senhora

O mundo inteiro considera a bem-amada joaninha (Coccinella septempunctata) a rainha dos insetos, portadora de boa sorte e até casamenteira. Na agricultura, é uma aliada do homem, altamente eficiente no combate às pragas de frutas e verduras. Há uma lenda que diz que, na Idade Média, fazendeiros europeus sofriam com insetos que estavam destruindo os seus cultivos. Rezaram, então, para a Virgem Maria, que lhes enviou inúmeras joaninhas para acabar com a praga. Desde então uma lista de nomes simpáticos confirma, em várias línguas, a boa imagem das joaninhas. Em inglês, a joaninha é ‘ladybug’, que vem de ‘Lady’s bug’, ou seja, o ‘inseto da Senhora’, que nesse caso é Nossa Senhora.


Esta é mais uma postagem inspirada nos conteúdos publicados por Rafael Rigolon em sua página Nomes Científicos no Facebook. Vale ressaltar que a postagem mais acessada aqui neste blogue, A Mariposa da Morte, também surgiu a partir de uma postagem publicada no Nomes Científicos. Portanto, tenho que tirar o meu chapéu mais uma vez para esse cara. 
Desta vez vamos falar sobre a joaninha (Coccinella septempunctata), um inseto muito simpático da família dos Coccinelídeos que tem muita história para contar. Toda a família Coccinellidae tem uns 5000 tipos distintos, e só dentro do género Coccinella há mais de 12 espécies (e bastantes mais subespécies) na Europa, uma diversidade que tem reflexo nos nomes vulgares . É habitual também que, devido à planificação agrícola, joaninhas de outras partes do mundo sejam importadas para outro continente, como aconteceu com a Harmonia axyridis, nativa da Ásia oriental, que foi introduzida na América do Norte e na Europa para controlar as pragas de afídios (pulgões) e cochinilhas, mas que ela mesma se revelou uma praga que atentou contra a diversidade, ao depredar as espécies autóctones. A Coccinella septempunctata é a espécie mais conhecida, pois é aquela que aparece nos desenhos infantis. Seu epíteto específico, cunhado por Lineu, significa ‘com sete pontos’.
Segundo Rafael Rigolon, "há uma lenda que diz que, na Idade Média, fazendeiros europeus sofriam com insetos que estavam destruindo os seus cultivos. Rezaram, então, para a Virgem Maria, que lhes enviou inúmeras joaninhas para acabar com a praga. Então surgiram as joaninhas, combateram as pragas, equilibraram a produção. E os camponeses passaram a chamar o inseto de the beetle of Our Lady ou 'o besouro de Nossa Senhora'. Os sete pontos presentes no nome da espécie seria mais uma ligação do inseto coleóptero com a mãe de Jesus, segundo a tradição cristã europeia, pois os setes sinais simbolizariam as sete dores de Maria.
Em 1888, nos Estados Unidos, a história se repetiu: as joaninhas foram a salvação das plantações de citros do Estado da Califórnia, infestados de pragas. Os pés de laranja e de limão estavam definhando e a saída foi importar joaninhas da Austrália. Em dois anos, restabeleceu-se o equilíbrio biológico e a produção se normalizou. Atualmente, em quase todo o mundo, a utilização das joaninhas no controle biológico é uma prática usual, intensificada desde a década de 70. No Brasil, o interesse dos produtores na aliança com as joaninhas é recente e só depois do ano 2000 começou-se a investir mais em pesquisas e na difusão dessa tecnologia.
"A bíblica Maria apareceu nos nomes desse inseto em várias línguas. Em inglês, é ‘ladybug’, que vem de ‘Lady’s bug’, ou seja, o ‘inseto da Senhora’, que nesse caso é Nossa Senhora. O mesmo vale para outros sinônimos ingleses como ‘ladybird’ e ‘ladycow’.
Em alemão, ela é ‘Marienkäfer’, que ao pé da letra significa ‘besouro de Maria’. Em espanhol, é ‘mariquita’, que seria traduzido como ‘mariazinha’; na França são chamadas de "bête a Dieu" (bichos de Deus). Em sueco, é a ‘Jungfru Marias nyckelpiga’, ou ‘serva da Virgem Maria’. 
Em português, a santidade mudou um bocadinho, explica Rigolon. O inseto já foi chamado em Portugal como bicho de Nossa Senhora. Em certas localidades portuguesas, no entanto, o santo de maior devoção era outro. Nas Ilhas Canárias, virou bicho de Santo Antônio e depois só Santo Antônio; na Ilha de Madeira, era o bicho de São João, de onde surgiu a nossa joaninha.
Lineu, em 1758, fez a joaninha escapar de qualquer referência santa em seu nome científico. O nome do gênero, ‘Coccinella’ é um diminutivo de ‘coccinea’, que significa ‘vermelho, escarlate’. A joaninha, no latim científico, é apenas a ‘vermelhinha’.
"Joaninha, voa, voa, que o teu pai está em Lisboa...". Esse versinho é parte de uma cantiga bastante popular entre os portugueses. E é só um entre dezenas: muitas outras cantigas, em muitos outros países, também homenageiam essa 'besourinha', considerada portadora de boa sorte. Não seria exagero dizer que nove entre dez pessoas no mundo têm uma certa simpatia pelas joaninhas. Elas contrariam um sentimento comum entre as pessoas - urbanas, sobretudo -, de aversão aos insetos.
Para saber mais, clique nos links acima.

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