Lucy e Luzia no Céu de Diamantes


Assim como o fóssil  de Lucy é considerado o fóssil mais popular já encontrado no mundo, o crânio de Luzia era de inestimável valor científico por se tratar do mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil e nas Américas. O fóssil de Luzia era um tesouro não só brasileiro, mas mundial, uma peça-chave da história da evolução humana. Ela faz parte da discussão dos povoamentos das Américas, fez com que os pesquisadores discutissem mais profundamente esse tema e foi uma das maiores fontes de produção científica do país. O crânio de Luzia e sua reconstituição facial (foto) são duas das perdas mais lamentadas por pesquisadores brasileiros no incêndio do dia 3 de setembro de 2018, que destruiu inúmeras peças arqueológicas abrigadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro.


Noite de 24 de novembro de 1974. As estrelas brilhavam na beira do rio Awash, no interior da Etiópia. O professor Donald Johanson, um antropólogo estadunidense e curador do Museu de Cleveland de História Natural e o estudante de pós-graduação Tom Gray faziam a segunda temporada de escavações em Hadar, no deserto de Afar. Durante a tarde, ambos passaram algumas horas explorando o terreno empoeirado, até que Johanson teve a intuição de fazer um pequeno desvio no caminho de volta, para reexaminar o fundo de um pequeno barranco que havia sido verificado pelo menos duas ocasiões anteriores por outros trabalhadores. À primeira vista, não havia praticamente nenhum osso ali, mas quando se voltaram para sair, um fragmento de osso do braço à mostra na encosta chamou a atenção de Johanson. Próximo a ele havia um fragmento da parte de trás de um crânio pequeno. Eles notaram uma parte do fêmur a cerca de um metro de distância. Procurando mais adiante, encontraram mais ossos espalhados na encosta, incluindo vértebras, uma parte da pélvis (indicando que o fóssil era do sexo feminino), costelas e pedaços de mandíbula. Marcaram o local e retornaram ao acampamento, satisfeitos por encontrar tantas peças aparentemente de um único hominídeo.
No final da tarde, todos os elementos da expedição estavam no local, dividindo-o em quadrículas e preparando-se para uma coleta que estimaram levar três semanas. Naquela primeira noite celebraram no acampamento, acordados a noite toda, e em algum momento durante essa noite a descoberta do fóssil "AL 288-1". Conta a lenda que esse fóssil foi apelidado carinhosamente de Lucy, por causa da canção dos Beatles "Lucy in the Sky with Diamonds", que fora tocada alto e repetidamente em um gravador K7 no acampamento. 
"Durante as semanas seguintes, várias centenas de fragmentos de ossos foram encontrados, sem duplicações, confirmando a especulação original de que eram de um único esqueleto. Conforme a equipe verificou, 40% do esqueleto de um hominídeo foram recuperados, um feito surpreendente no mundo da antropologia". 
Os ossos foram datados e constatou-se que Lucy morrera há 3,2 milhões de anos atrás. Ela viveu 2 milhões de anos antes do aparecimento do Homo habilis. Um intervalo enorme de 3 milhões de anos separa Lucy dos mais antigos esqueletos de nossa espécie, o Homo sapiens, que surgiu no planeta a cerca de 200 mil anos. Lucy, da espécie Australopithecus afarensis, é uma representante das muitas espécies que existiram na época em que a linhagem que deu origem aos homens modernos se separou da que deu origem aos macacos modernos. 
Assim como o fóssil  de Lucy é considerado o fóssil mais popular já encontrado no mundo, o crânio de Luzia era de inestimável valor científico por se tratar do mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil e nas Américas.
Em meados dos anos 1970, a missão arqueológica franco-brasileira chefiada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire (1917-1977) encontrou o crânio de Luzia. O crânio foi descoberto em escavações numa gruta no município de Pedro Leopoldo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. A gruta era famosa pelos trabalhos do cientista Peter Lund (1801-1880), que lá descobrira, entre 1835 e 1845, milhares de fósseis de animais extintos da época do Pleistoceno e 31 crânios humanos em estado fóssil do que passou a ser conhecido como o Homem de Lagoa Santa. 
Foi na tentativa de retomar e aprofundar as pesquisas de Peter Lund que a missão francesa achou Luzia, apelido dado pelo o biólogo, antropólogo e arqueólogo brasileiro Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Ele se inspirou em Lucy, o célebre fóssil de 3,5 milhões de anos achado na África no ano anterior à descoberta de Luzia.
Estudos de datação apontaram que o fóssil abrigado no Museu Nacional até a data do incêndio que o destruiu, era de uma mulher que estava na faixa dos 20 anos quando morreu, tinha 1,5m de altura e possuía traços negroides, com nariz largo e olhos arredondados. A reconstituição de seu rosto foi feita em 1999, por pesquisadores da Universidade de Manchester, na Inglaterra, que usaram como base o crânio.
O crânio de Luzia e sua reconstituição facial são duas das perdas mais lamentadas por pesquisadores brasileiros no incêndio do dia 3 de setembro de 2018, que destruiu inúmeras peças arqueológicas abrigadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro.
O fóssil de Luzia era um tesouro não só brasileiro, mas mundial, uma peça-chave da história da evolução humana. Ela faz parte da discussão dos povoamentos das Américas, fez com que os pesquisadores discutissem mais profundamente esse tema e foi uma das maiores fontes de produção científica do país. Certamente, Luzia merecia estar também num céu de diamantes. 
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