Nossa Fauna Atropelada
De acordo com um estudo publicado no periódico Diversity, 1,3 milhão de animais morrem todos os anos em colisões nas estradas brasileiras. Pequenos vertebrados (sapos, cobras) correspondem à maior parte das mortes, seguidos por médios (gambás, macacos) e grandes mamíferos (onças, capivaras). O estudo revela que 92% das espécies de carnívoros brasileiros já tiveram registros de atropelamento, sendo o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) a espécie campeã de registros. Para mudar esse cenário, os pesquisadores sugerem: monitoramento contínuo (para entender como a mortalidade afeta as populações a longo prazo), mitigação estratégica (como a instalação de cercas e túneis ou pontes para passagens de fauna em pontos críticos e programas específicos para espécies de ciclo de vida longo, como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira, que não conseguem repor suas populações na mesma velocidade em que morrem nas pistas. Crédito da imagem
Segundo dados do Conselho Nacional de Trânsito, a malha rodoviária no Brasil saltou de 8.675 km para 47.487 km entre 1960 e 1980. Apesar desse crescimento ter contribuído para consolidar o modelo rodoviarista brasileiro, ele também serviu para fragmentar habitats e transformar o asfalto em uma das principais causas de mortalidade da nossa fauna silvestre. Pequenos vertebrados (sapos, cobras) correspondem à maior parte das mortes, seguidos por médios (gambás, macacos) e grandes mamíferos (onças, capivaras). Um estudo intitulado "How many mammals are killed on Brazilian roads? Assessing impacts and conservation implications" (Quantos mamíferos são mortos nas estradas brasileiras? Avaliando os impactos e as implicações para a conservação), publicado na revista publicado em 2022 no periódico Diversity, focado em biodiversidade, estima que 1,3 milhão de animais morrem todos os anos em colisões nas estradas brasileiras.
Neste estudo, os pesquisadores utilizaram a literatura científica compilada para apresentar o estado atual do conhecimento sobre mamíferos de médio e grande porte mortos por atropelamento no Brasil, seu status de conservação e uma estimativa da magnitude desses atropelamentos.
Estima-se que até 9 milhões de mamíferos de médio e grande porte (aqueles com mais de 1 kg) possam morrer atropelados todos os anos na malha rodoviária pavimentada do Brasil. Isso equivale a uma perda de aproximadamente 11.000 toneladas de biomassa animal anualmente. O estudo revisou 62 artigos científicos e identificou que, das 102 espécies de mamíferos desse porte que vivem no Brasil, mais de 60% (62 espécies) já foram registradas como vítimas de atropelamento. O estudo revela que 92% das espécies de carnívoros brasileiros já tiveram registros de atropelamento, sendo o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) a espécie campeã de registros. Além dessa espécie, constam nos registros atropelamentos de outros mamíferos como o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), tatu-de-sete-galhas (Dasypus septemcinctus), o tamanduá-bandeira e o queixada. Entre as raras exceções estão a onça-pintada e a ariranha, possivelmente pela baixa densidade populacional ou hábitos aquáticos. O atropelamento atinge diretamente espécies já ameaçadas:14,5% das espécies registradas nos atropelamentos são classificadas como vulneráveis pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês) e 53% das espécies atingidas apresentam tendências populacionais em declínio.
Muitos desses animais possuem características que os tornam vulneráveis: baixa taxa reprodutiva, necessidade de grandes áreas de vida para se deslocar e hábitos generalistas que os levam a cruzar estradas em busca de recursos ou parceiros. Além disso, carniceiros oportunistas são atraídos pelas carcaças na pista, tornando-se as próximas vítimas.
Para mudar esse cenário, os pesquisadores sugerem: monitoramento contínuo (para entender como a mortalidade afeta as populações a longo prazo), mitigação estratégica (como a instalação de cercas e túneis ou pontes para passagens de fauna em pontos críticos e programas específicos para espécies de ciclo de vida longo, como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira, que não conseguem repor suas populações na mesma velocidade em que morrem nas pistas.
No estado do Paraná, um monitoramento conduzido pelo projeto de extensão Olha o Bicho, vinculado ao Laboratório de Biodiversidade, Conservação e Ecologia de Animais Silvestres (Labceas), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) mapeou pontos críticos de atropelamento, coletou 235 carcaças, e revelou que anfíbios são as principais vítimas no entorno do Parque Tingui. Entre março de 2023 e fevereiro de 2025, o Olha o Bicho monitorou um trecho de rodovia de 5,1 km no entorno do Parque Tingui, na região de Santa Felicidade, em 44 expedições de campo. Em cada saída, de dois a quatro observadores caminhavam pelos dois lados da via, examinando pista, calçadas e margens em busca de carcaças.
O projeto também previu a mortalidade aproximada na via por meio da análise de carcaças e áreas de risco de atropelamento. A estimativa é que, só no trecho monitorado, mais de 1,6 mil animais podem morrer por atropelamento a cada ano.
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