Os Malefícios do Fumo Passivo

Cigarro
O tabagismo passivo é a 3ª maior causa de morte evitável no mundo, subsequente ao tabagismo ativo e ao consumo excessivo de álcool. O avanço no conhecimento sobre seus efeitos na saúde já tiveram impacto na legislação brasileira

Muito se sabe sobre os efeitos maléficos do cigarro em fumantes ativos. Em relação ao fumo passivo, estudos já mostraram suas consequências danosas em adultos, crianças, bebês e fetos durante a gestação. Mas e a exposição indireta paterna? Será que pode trazer problemas para seus descendentes?
A questão motivou o trabalho de pesquisadores do Canadá e dos Estados Unidos, que acaba de ser publicado no periódico PNAS. Ao testar os efeitos do fumo ativo e passivo em camundongos machos, eles observaram modificações genéticas em seus espermatozoides decorrentes de ambos os processos. Segundo os autores, essas alterações são transmitidas à geração seguinte, podendo causar problemas de saúde na prole.
Os camundongos foram expostos, durante duas semanas, a dois tipos de fumaça: a exalada pelo fumante (chamada corrente primária) e a que sai da ponta do cigarro (chamada corrente secundária). Embora a composição de ambas seja semelhante, na fumaça que sai diretamente do cigarro – a qual o fumante passivo está mais exposto – algumas substâncias tóxicas e cancerígenas estão presentes em concentrações mais elevadas.
Duas doses diferentes de cada tipo de fumaça foram inaladas pelos animais, uma equivalente a três cigarros por dia e a outra a 16 cigarros diários. Esse padrão de exposição mimetiza os efeitos de doses baixa e alta de tabagismo ativo e passivo.
Seis semanas depois, os pesquisadores coletaram esperma dos camundongos para análise. Eles verificaram que ambas as doses da corrente primária de fumaça resultaram numa frequência maior de mutações genéticas significativas nas células reprodutivas dos camundongos (4% com a dose menor e 4,7% com a maior), em comparação com um grupo independente de animais que não foi exposto a qualquer tipo de fumaça (1,3%-1,5%).
No entanto, um dado inusitado chamou a atenção dos pesquisadores: a dose mais elevada da corrente secundária de fumaça resultou numa frequência menor de mutações genéticas no esperma dos camundongos (2,6%) do que a dose mais baixa (4,6%). Os pesquisadores suspeitam que a grande concentração de substâncias tóxicas possa ter levado a taxas altas de morte celular, impedindo a recuperação das células mutantes. Mais importante foi verificar que a exposição à corrente de fumaça secundária também produziu uma ocorrência significativamente maior de alterações genéticas no esperma dos camundongos, sugerindo que fumantes passivos são tão vulneráveis quanto os ativos aos efeitos do fumo nos espermatozoides.

Só em gametas, e só de camundongos
Para saber se a exposição aos dois tipos de fumaça de cigarro afetaria da mesma forma células não envolvidas diretamente na reprodução, os pesquisadores submeteram outro grupo de camundongos ao mesmo padrão de exposição.
Duas semanas depois, examinaram células da medula óssea e do sangue dos animais e constataram que apenas a dose alta da corrente primária de fumaça produziu aumento na frequência de mutações genéticas nessas células, ainda assim muito pequeno. O efeito mutagênico da fumaça do cigarro restringiu-se, portanto, às células reprodutivas.
No artigo, os autores chamam atenção para o impacto na saúde pública desses resultados, que corroboram uma conclusão recente da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês) de que há ligação entre exposição paterna ao cigarro e câncer nos descendentes.
No entanto, os pesquisadores advertem que apesar de os embriões originados dos espermatozoides alterados sempre carregarem a mutação, nem sempre ela irá causar problemas de saúde. “Isso depende do gene afetado”, afirma o biólogo Francesco Marchetti, da Universidade da Califórnia e autor principal do estudo.
De qualquer forma, ainda é cedo para extrapolar os efeitos do fumo passivo induzido em camundongos para seus reais impactos em seres humanos.
Outra alternativa apontada pelo pesquisador: “Também é possível que células reprodutivas com mutações sejam eliminadas mais eficientemente em humanos do que em animais”.A ponderação vem do próprio Marchetti: “Há muitos casos de produtos químicos que demonstraram induzir mutações em células reprodutivas e afetar a saúde da prole de animais de laboratório. Mas tem sido mais difícil demonstrar isso em humanos porque humanos são geralmente expostos a doses bem menores desses produtos”.

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