Um Estudo Econômico que Leva em Conta as Pessoas



A “lógica da produção” não é a lógica da vida nem da sociedade. É uma pequena parte subalterna de ambas. As forças destruidoras desencadeadas por ela não podem ser controladas, salvo se a própria “lógica da produção” for controlada — de modo a que tais forças deixem de ser desencadeadas. Trecho do livro de E. F. Schumacher "O negócio é ser pequeno"


Escrito em 1972 pelo alemão Ernst Friedrich "Fritz" Schumacher (1911-1977) , “Small is beautiful”, que ganhou aqui o estranho e infeliz título “O negócio é ser pequeno”, chega a causar espanto nos leitores que fazem contato com ele pela primeira vez, tamanha a atualização da obra. Economista, morto em 1977 vítima de um ataque cardíaco, Schumacher teve seu livro traduzido em 20 idiomas e fez um sucesso estrondoso na época escrevendo sobre temas como consumo responsável, necessidade de se buscar energias alternativas e impacto ambiental causado pelas grandes cidades. 
 Schumacher, grande estudioso e promotor do que cunhou de "tecnologia apropriada", foi um visionário que desde cedo percebeu a importância de um "desenvolvimento sustentável" em todos os sentidos, para a humanidade. Sua obra em prol da adoção de "tecnologias adequadas" ao homem e ao meio foi de grande inspiração nos anos 70. Seu livro virou um clássico, com milhões de cópias vendidas e traduções em diversos idiomas.  A frase "Small Is Beautiful" veio de uma frase de seu professor Leopold Kohr que dizia "o homem é pequeno e ser pequeno é lindo (small is beautiful). 

Publicado pela primeira vez em 1973, ( ver capa original abaixo) "O negócio é ser pequeno" trouxe críticas de Schumacher à economia ocidental para um público maior durante a crise energética de 1973 e a emergência da globalização .  O livro é dividido em quatro partes: "Organização e Propriedade" "O Mundo Moderno", "Recursos", "O Terceiro Mundo". No primeiro capítulo, "O Problema da Produção", Schumacher afirma que a moderna economia é insustentável. 
O grande sucesso alcançado pelo  livro de Schumacher  mostrou que o autor não estava sozinho. Sua tese central girava em torno do “problema da produção”, cujo argumento era que a produção capitalista não tinha
SmallIsBeautiful1973.jpgresolvido seu problema de produção, não por falta de capacidade intelectual ou tecnológica, mas porque o sistema industrial moderno, de grande escala, devorava sua própria base de sustentação, os recursos naturais e humanos. Entre as várias alternativas oferecidas pelo autor, estava aquela de que “o negócio era ser pequeno”, sobretudo em escala, produzindo com tecnologias alternativas e apropriadas, menos agressivas ao meio ambiente.
Apesar do seu sucesso, Schumacher parece não ter conseguido convencer grandes massas de economistas, professores e pesquisadores, formuladores de políticas públicas e instituições a levar a sério as pequenas empresas, ou as produções de pequena escala. A razão desse baixo impacto parece estar no fato de que, para o autor, a necessidade de se recorrer à pequena escala estava muito mais associada ao um ataque contra o sucesso do capitalismo industrial do que propriamente à criação de um remédio contra o fracasso do mesmo. A pequena produção era colocada como parte de uma agenda “utópica”, e não como solução para algum problema ameaçador à grande produção industrial. Portanto não era um fato econômico de risco ao capitalismo da época. Utopia à parte, o fato é que o novo capítulo sobre pequenas empresas e pequenas produções estava apenas começando. 
Em função da sua originalidade, o resgate de suas idéias e sugestões continua extremamente válido e importante, na medida em que elas não perderam a atualidade e, ao mesmo tempo, permaneceram praticamente desconhecidas, principalmente dos economistas, tanto profissionais quanto acadêmicos, no Brasil. Schumacher foi um economista que procurou apontar os erros e as incoerências do pensamento econômico tradicional, comprovados com as crises do petróleo nos anos 70, quando, então, ficaram evidentes os problemas gerados por uma verdadeira compulsão pelo crescimento econômico. Ele destacava a necessidade de que os conceitos fossem revistos à luz de uma teoria econômica que centrasse sua atenção no desenvolvimento primordialmente direcionado às pessoas. Nesse sentido, suas soluções estavam relacionadas a alguns temas centrais, tais como descentralização, tratamento dos recursos naturais e adequação da tecnologia ao estágio de desenvolvimento do país e à cultura das nações. O objetivo do presente artigo não é só resgatar e mostrar a importância e a atualidade das idéias de Schumacher, mas também fazer uma reflexão acerca da necessidade de se transformar a economia numa ciência mais humana.
 É preciso lembrar que 1972 foi o ano em que o mundo apenas começava a entender as questões de meio ambiente como de responsabilidade de todos. Reunidos em Estocolmo, na primeira Conferência Mundial sobre o tema , líderes mundiais passaram a enxergar o paradoxo entre desenvolvimento e conservação do meio ambiente. Aqui no Brasil, “O negócio é ser pequeno" recebeu quatro edições da Zahar Editores. O livro é encontrado em sebos e vale a pena ser lido. É preciso, apenas, relevar as reflexões metafísicas que permeiam a obra, uma característica da época.

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