Agrotóxicos no Brasil

Segundo a Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), cerca de 95% da agricultura brasileira produz alimentos de modo convencional, ou seja, com a utilização de agrotóxicos (herbicidas, fungicidas e inseticidas), além de adubos químicos. O Brasil está no topo das lista de vendas de agrotóxicos no mundo, sendo uma das apostas das empresas produtoras desses insumos para manter o mercado em alta nos próximos anos. A agricultura do país está em franca expansão e é uma das apostas para alimentar a população mundial, que terá 7 bilhões de habitantes até o final do ano. Com base nestes prognósticos, as empresas produtoras de defensivos gasta cerca de 250 a 300 milhões de dólares para colocar um novo defensivo no mercado.
A necessidade de alimentar a população mundial é um argumento repetido exaustivamente pelo setor. Mas, para especialistas da área de saúde e para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), usados indiscriminadamente os agrotóxicos significam intoxicação e aumento de incidência de doenças, entre elas o câncer. Para eles, é preciso investir em formas de agricultura alternativa. A discussão fica expressa até na linguagem. Enquanto o nome oficial pela constituição brasileira é “agrotóxicos”, a indústria os chama de “defensivos agrícolas” ou “remédios para planta”
De acordo com o diretor-geral de Toxicologia da Anvisa, Luiz Claúdio Meirelles, ingeridos dentro das concentrações permitidas, não há risco à saúde. O problema é que o Brasil não tem estrutura suficiente de fiscalização, o que compromete a segurança alimentar, no caso dos alimentos não orgânicos.
A lentidão também ocorre após a fiscalização, na hora da punição. Desde 2008, a Anvisa apontou o nome de 14 substâncias presentes em agrotóxicos potencialmente nocivas à saúde para serem retiradas do mercado. Seis processos já foram concluídos, mas , desses, quatro ainda estão em definição na Justiça, devido a liminares conseguidas pelas produtoras de insumos. Esse é o tema do documentário “O veneno está na mesa”, lançado em agosto de 2011 pelo cineasta brasileiro Sílvio Tendler. Em uma hora, o diretor mostra como, no Brasil, o uso de agrotóxicos é facilitado, até com isenção fiscal. Ele mostra também como os movimentos sociais e alguns setores do governo tentam, de formas diferentes, alertar a população sobre os riscos à saúde do uso deste tipo de veneno. A produção, disponível na internet (clique no link com o nome do filme para assisti-lo na íntegra), lembra ainda a batalha em relação aos metamidofós, componente ativo de agrotóxicos usados em cultivos de batata e feijão. Em janeiro de 2011, a Anvisa baniu o uso de metamidofós no país, alegando que ele pode causar danos à saúde. Mas, por meio de liminares, o processo ainda está na Justiça. O componente já é proibido na União Européia, Estados Unidos e China.
Segundo o livro inédito “Agrotóxicos no Brasil”, de autoria da engenheira agrônoma Flávia Londres (em breve disponível no site aspta.org.br), a indústria dos agrotóxicos começou a crescer após as grandes guerras mundiais, quando os produtores rurais buscavam formas de aumentar a produtividade e a indústria química, até então fabricantes de venenos como armas químicas, encontrou um novo mercado. No cenário mundial, a FAO (órgão das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) e o Banco Mundial foram os maiores promotores da difusão do pacote tecnológico da chamada Revolução Verde.
Foi na década de 1960 que a produção de agrotóxicos sofreu um crescimento acelerado. Publicado em 1962, o livro “Primavera Silenciosa”, da bióloga Rachel Carson, foi a primeira obra a detalhar os efeitos adversos da utilização de pesticidas e inseticidas químicos sintéticos, iniciando o debate sobre as implicações da atividade humana ao ambiente e o custo ambiental dessa contaminação para a humanidade. “Permitimos que esses produtos químicos fossem utilizados com pouca pesquisa prévia sobre o seu efeito no solo, na água, animais selvagens e sobre o próprio homem”, escreveu Carson à época. Mas não houve mudanças após a denúncia. E, até hoje, o mercado só cresce, embora ao redor do mundo, a cada ano mais componentes ativos de agrotóxicos sejam proibidos por causar males à saúde e estudos os relacionem ao avanço do câncer.
As duas principais formas de fugir do problema da contaminação por agrotóxicos são: comprar produtos orgânicos ou tentar descobrir a origem do alimento, mesmo no supermercado. No caso dos orgânicos, eles passam por uma certificação federal do Ministério da Agricultura, SisOrg, obtido por meio de auditoria ou por um sistema participativo de garantia. Os produtores precisam provar que não usam agrotóxicos nem adubos químicos. Já no caso dos produtos convencionais, o jeito é tentar ao menos, saber se o supermercado conhece a origem do produto. O consumidor também pode verificar se a rede de supermercados de sua localidade faz parte do programa Qualidade Desde a Origem visitando o site qualidadedesdeaorigem.com.br e saber quem são os produtores do alimento que ele está consumindo.

Fonte: Caderno Razão Social do Jornal O Globo (em 06/09/2011)

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