As Razões do Trânsito Selvagem

O antropólogo e professor da PUC-Rio Roberto da Matta
aponta as relações entre a construção e o processo de modernização da
sociedade brasileira e a violência diária em ruas e avenidas do Brasil e diz que o trânsito reflete o atraso da sociedade brasileira

Dados do Ministério da Saúde apontam que, nos últimos doze meses, 75 mil pessoas perderam a vida no trânsito. Outras 246 mil foram hospitalizadas. O custo da violência em ruas e avenidas do país chega a R$ 66,3 milhões; a quantia é suficiente para a construção de 454 quilômetros de metrô em São Paulo. É com esse quadro que o antropólogo Roberto da Matta, em entrevista especial ao Jornal Metro Rio, faz uma relação entre a sociedade brasileira e o comportamento dos motoristas. Da Matta já estudou o jogo do bicho e o futebol e agora analisa o trânsito brasileiro. Segundo ele, o trânsito é um problema concreto, necessita de uma ordem. No Brasil, ele reproduz valores de uma sociedade em que alguns podem mais do que outros. É um raio-x das nossas relações sociais diárias.
Nosso comportamento terrível no trânsito é resultado de nossa incapacidade de ser uma sociedade igualitária. O trânsito reproduz nossa tentativa de construir uma sociedade republicana e moderna, mas que ainda está atrelada a um passado aristocrático. É uma disputa de forças. Uma lei do mais forte. O indivíduo se sente superior ao pedestre, porque tem um carro. Um motorista se sente superior ao outro, porque tem um carro mais caro e mais moderno que o do outro. E são essas pessoas que são obrigadas pela lei a dividir um espaço de forma igualitária. É nessa hora que explodem as disputas e a violência, que mata mais de 40 mil pessoas, diz o antropólogo.
E acrescenta: O erro está em casa. O brasileiro aprende que é único e que suas vontades sempre serão atendidas. Quando essa pessoa chega às ruas, ela não entende porque tem que dividir o espaço com outros. Para ela, a rua e a avenida são uma terra de ninguém. O trânsito é o lado mais negativo da nossa sociedade. No trânsito, quem dirige rápido é quem dirige bem. Aquele que respeita os limites de velocidade é tachado de otário, de incompetente. Isso é visto na falta de capacidade do brasileiro de premiar o mérito. O trânsito reflete o conceito do mais esperto. Aquele que sempre leva vantagem sobre os demais utilizando ações fora da lei.
Quando perguntado se é possível mudar essa situação, Roberto da Matta responde:  É preciso, primeiro, mudar essa ideia dos incomodados que se mudem. Não basta só reprimir e multar, é preciso ensinar a igualdade, falar mais dela e discuti-la em casa e nas escolas. É preciso educar os brasileiros ou nada mudará e as mortes continuarão.
Na Semana Nacional de Trânsito, a ONG Rio ComoVamos divulgou um levantamento alarmante sobre a quantidade de carros no município do Rio de Janeiro. Com base em dados de licenciamento de veículos do Detran, a pesquisa mostra que o número de veículos da cidade chega a 2.438.287. Levando em conta que a população do município é de 6,5 milhões de habitantes, pode-se concluir que há um carro circulando
nas ruas para cada 2,7 moradores da cidade.
Fonte: Jornal Metro Rio

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