Lamarck Não Jogava Conversa Fora

Jean-Baptiste Lamarck
Um ensaio publicado na revista Ciência Hoje Nº 285, sob o título de "Lamarck: fatos e boatos",  revisita o legado de naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829), ou simplesmente Lamarck, para a história da ciência e tenta desfazer a imagem de coadjuvante da Teoria da Evolução atribuída a este personagem. Segundo a revista, Lamarck também contribuiu para o desenvolvimento do que conhecemos hoje como teoria da evolução , mas alguns autores, ao tentar resumir as ideias desse naturalista, omitem algumas informações e distorcem outras, criando assim ‘boatos’ sobre seu verdadeiro papel.
De acordo com o artigo da Ch 285, os dois maiores boatos criados a respeito de Lamarck são: "1. suas ideias evolutivas se resumiam a duas leis, e 2. o inglês Charles Darwin (1809-1882), um dos autores da moderna teoria da evolução, se opôs a essas leis". "Assim, diante da pergunta Quem foi Lamarck?', um aluno de ensino médio pode responder 'Foi o cara do pescoço da girafa', ou até 'Foi o cara que dizia o contrário de Darwin'. Essas respostas, e outras com conteúdo semelhante, permanecem vivas não apenas na boca dos alunos, mas também na de certos professores e no texto de alguns livros didáticos, diz o texto do artigo. Na verdade,  contradição entre Lamarck e Darwin, tão propalada em textos didáticos, é um boato, tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto
de vista teórico, conforme esclarece os autores ao longo do artigo.
 No livro Philosophie zoologique (Filosofia zoológica, de 1809), Lamarck fundamentou sua teoria em duas leis, conhecidas como ‘uso e desuso’ e ‘herança dos caracteres adquiridos’. Já em Histoire naturelle des animaux sans vertèbres (História natural dos animais invertebrados, lançado em partes de 1815 a 1822), as leis passaram a ser quatro. Para melhor compreender a teoria lamarckiana, os autores do ensaio é preciso analisar essa última versão. Acompanhem o relato dos autores a seguir.
"A primeira das quatro leis (‘tendência para o aumento da complexidade’) surgiu apenas no segundo livro e foi enunciada como uma tendência, de todos os corpos, para aumentar de volume, estendendo as dimensões de suas partes até um limite que seria próprio de cada organismo.
Lamarck, tentando fornecer evidências empíricas para essa lei, fez uma analogia entre organismos mais simples e mais complexos e as fases de desenvolvimento de um organismo (do ovo ao adulto), visando demonstrar que, assim como um ovo se modifica e se torna um embrião, evidenciando um aumento da complexidade, os organismos mais complexos também teriam surgido a partir dos mais simples. Portanto, segundo o naturalista, a vida tinha o poder de aumentar o volume e as estruturas do corpo".
Sobre a segunda lei (‘surgimento de órgãos em função de necessidades que se fazem sentir e que se mantêm’), Lamarck disse, em Filosofia zoológica, que os hábitos e as circunstâncias da vida de um animal eram capazes de moldar a forma de seu corpo.
Em História natural, afirmou que as antenas dos gastrópodes (como os caracóis) teriam surgido por ação dessa lei. Gastrópodes mais simples, explicou, diante da necessidade de sentir os objetos à sua frente, teriam concentrado ‘fluidos nervosos’ na região anterior do corpo, e estes, juntamente com outros fluidos corporais, estimularam a formação de novas estruturas, tecidos e órgãos.
Essa segunda lei gerou uma discussão sobre o sentido em que Lamarck usou a palavra francesa volonté. Esta é muitas vezes traduzida como ‘desejo’, mas uma melhor tradução seria algo como ‘ação gerada por uma necessidade’, e não ‘ação gerada por um desejo’.
Parece claro que Lamarck não se referia a um ‘desejo’, porque ele mesmo afirmava que “nem todos os animais têm a faculdade de sentir” (referindo-se a esponjas e águas-vivas, que não têm sistema nervoso) – se não sentem, não podem ter desejo. Se, para Lamarck, a diferenciação dos animais mais simples não ocorria por desejo, mas por uma necessidade fisiológica, essa última tradução para volonté seria mais apropriada.
A terceira lei da teoria lamarckista (‘desenvolvimento e atrofia de órgãos em função de seu emprego’, ou ‘uso e desuso’) tinha sido apresentada como primeira na Filosofia. Lamarck disse que essa lei seria inútil, assim como a segunda, se os animais estivessem sempre nas mesmas condições.
No entanto, se em determinado local ocorressem mudanças e estas criassem, para os indivíduos que viviam ali, a necessidade de modificar seu comportamento, então esses indivíduos teriam que usar mais ou menos certas estruturas e isso levaria a alterações físicas.
Evidências da operação dessa lei foram apontadas por Lamarck. A ausência de dentes nos tamanduás, por exemplo, seria explicada pela falta de uso e consequente atrofia e desaparecimento, assim como os vestígios de dentes em fetos de baleias (exemplos de ‘desuso’).Nesse caso, indivíduos da mesma espécie que habitassem ambientes diferentes, nos quais as mudanças fossem desiguais, não teriam as mesmas necessidades, o que levaria à formação de grupos também diferentes, gerando as raças. Portanto, essa lei explicaria como as mudanças no ambiente produziriam a diversidade observada nos seres vivos.
Já as girafas, que passam longos períodos se alimentando de folhas das copas de árvores altas, esticariam as pernas e o pescoço para alcançar seu alimento, o que teria levado ao crescimento dessas estruturas, e os quadrúpedes que pastam por longos períodos de tempo adquiririam cascos para sustentar um corpo muito pesado (exemplos de ‘uso’).
Quanto à quarta lei (‘herança do adquirido’), Lamarck não se empenhou em sua demonstração ou defesa, já que essa ideia, muito comum no meio filosófico-científico desde Hipócrates (460-377 a.C.), era aceita entre os naturalistas do século 19. Ele não se preocupou em propor um mecanismo alternativo para a herança, apenas aceitando o que era o senso comum sobre hereditariedade em seu tempo."
Para finalizar, acrescento uma passagem importante do artigo que diz: "Lamarck foi o primeiro pesquisador a elaborar um sistema teórico completo para defender e tentar explicar a evolução biológica. Fez isso com base apenas em fenômenos naturais (leis físicas), sem lançar mão de forças imateriais (como ‘alma’, ‘princípio ativo’ e outras) ou entidades transcedentais como um deus (criacionismo).
A contradição entre Lamarck e Darwin encontra-se, de fato, nas duas primeiras leis da teoria lamarckista – ‘tendência para o aumento da complexidade’ e ‘surgimento de órgãos em função de necessidades’. A grande revolução da teoria darwiniana foi entender a especiação como processo de conversão da variação entre indivíduos, dentro de uma população, em variação entre po-
pulações diferentes, no tempo e no espaço. 
Adaptado de Lamarck: Fatos e Boatos , artigo publicado na seção 'Ensaio' da CH 285 (setembro/2011).
Para saber mais:
RODRIGUES, Rodolfo Fernandes da Cunha; SILVA, Edson Pereira da. Lamarck: Fatos e boatos. Ciência Hoje, São Paulo, n. 285, p.68-70, 26 set. 2011. Disponível em: . Acesso em: 16 jan. 2012.

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