Pesquisa sobre Reposição Hormonal de Estrogênio

Reposição do hormônio feminino em mulheres na menopausa beneficia a circulação sanguínea cerebral. Quando a produção do estrogênio pára, muitas mulheres sofrem perda de massa óssea e de qualidade na relação sexual, entre outros efeitos negativos. Os ‘calores’, por exemplo, são resultado de alterações vasculares
A reposição hormonal em mulheres tem sido alvo de várias críticas, mas ela tem pelo menos um efeito benéfico no caso do estrogênio: melhora a circulação sanguínea nas artérias cerebrais. Essa é a conclusão de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na qual mulheres na menopausa que receberam estrogênio apresentaram uma vasodilatação 24% maior da artéria central da retina. Esses resultados, que serão publicados na revista científica norte-americana Menopause, ajudam a esclarecer o papel do hormônio na fisiologia feminina, especialmente sua ação no cérebro.
O estrogênio é um hormônio produzido pelos folículos do ovário durante o ciclo menstrual. Ele é responsável por facilitar a reprodução, regulando vasos sanguíneos e levando a uma série de modificações no corpo feminino, como o umedecimento do canal vaginal. 
“Quando a produção do estrogênio para, na menopausa, muitas mulheres sofrem perda de massa óssea e de qualidade na relação sexual, entre outros efeitos negativos. Os ‘calores’, por exemplo, são resultado de alterações vasculares”, conta o ginecologista Selmo Geber, do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Medicina da UFMG. 
Segundo ele, ainda não se sabe muito sobre o efeito do estrogênio no cérebro, daí a necessidade de mais estudos. Geber já orientou quatro trabalhos nessa área, inclusive o da médica Alice Melgaço, também da UFMG, cuja tese de doutorado obteve os resultados com o estrogênio em mulheres na menopausa. “Trabalhamos também com mulheres com ciclo menstrual, usando o estrogênio; a tibolona, um hormônio artificial; e a progesterona”, revela o ginecologista.
O estudo foi realizado inicialmente com 55 mulheres, sendo que 27 receberam placebo e 28 estrogênio, por 30 dias, em forma de comprimido. Para não haver influência sobre o resultado, a pesquisa foi conduzida no modelo triplo cego – nem Geber, nem Melgaço, nem as mulheres sabiam quem estava recebendo placebo e quem estava tomando o hormônio. 
“Quatro mulheres se queixaram de efeitos colaterais e deixaram o estudo. O curioso é que depois descobrimos que eram todas do grupo do placebo”, comenta Geber. 
Antes e depois do tratamento, todas as mulheres foram submetidas a exames de dopplerfluxometria, técnica que usa uma sonda ultrassônica em contato com o olho para medir a resistência da artéria central da retina. Esta é uma das duas artérias existentes atrás do olho (a outra é a oftálmica). Sua localização facilita as medições e, como são funcionalmente iguais aos outros vasos arteriais do cérebro, os dados podem ser extrapolados. 
“O estrogênio diminui a resistência da artéria, permitindo que ela se dilate. Com isso há um maior fluxo de sangue e um aumento da permeabilidade, o que pode estar relacionado a efeitos benéficos, como uma melhora da memória”, explica Geber. Os resultados são similares a outro estudo do grupo, com mulheres que apresentavam ciclo menstrual – durante a ovulação, e a consequente produção de estrogênio, a vasodilatação é maior. 
Já no trabalho com a tibolona, que é um substituto do estrogênio, não houve efeito. “Acreditamos que o estrogênio atue por meio do óxido nítrico, uma molécula que induziria o relaxamento muscular do vaso”, relata o ginecologista. Para ele, futuras investigações da ação desse hormônio no cérebro podem levar a contribuições significativas para doenças como a de Alzheimer e acidentes vasculares cerebrais.

Texto originalmente publicado na CH 285 (setembro de 2011) sob o título de "Estrogênio na Cabeça"

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