Resgates da Divulgação Científica no Brasil

O livro 'Um gesto ameno para acordar o país' e a página da internet Brasiliana resgatam a história da divulgação científica no Brasil.

Dois novos projetos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) resgatam a memória da divulgação científica no Brasil. O livro Um gesto ameno para acordar o país traz a história do pouco conhecido suplemento dominical ‘Ciência’, publicado entre 1958 e 1962 no carioca Jornal do Commercio. Já a página de internet Brasiliana reúne extenso material sobre a divulgação científica no país desde o século 18.
A ideia de escrever o livro sobre o ‘Ciência’ surgiu de uma lembrança do médico e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Leopoldo de Meis. O cientista, hoje com 73 anos, lembrou que havia cumprido o papel de jornalista na publicação, a pedido do pesquisador Walter Oswaldo Cruz, quando ainda era estudante de iniciação científica.
A memória, até então esquecida, se tornou livro sob a coordenação da jornalista Luisa Massarani, do Museu da Vida da Fiocruz. A obra, lançada em 22 de novembro de 2011 , apresenta o contexto histórico do período de vigência do suplemento, uma análise detalhada do conteúdo da publicação, entrevistas com Leopoldo de Meis e ainda acompanha um DVD com todos os exemplares do ‘Ciência’ digitalizados.
“Antes do surgimento das revistas especializadas, na década de 1980, suplementos como o do Jornal do Commercio eram os mais importantes meios de divulgação da ciência”, destaca Ildeu de Castro Moreira, físico da UFRJ e autor de um dos capítulos do livro.
O suplemento ‘Ciência’ surgiu em um contexto histórico propício para a divulgação da ciência no país. Na década de 1950, findada a Segunda Guerra, o governo de Juscelino Kubitscheck promovia o desenvolvimentismo e o investimento na ciência passava a ser visto como modo de independência econômica para o país.
“O ‘Ciência’ nasce em um período em que Cesar Lattes fez a detecção pioneira do méson pi, um feito que foi manchete de muitos jornais, inclusive do Jornal do Commercio”, contextualiza o jornalista Bernardo Esteves, também coautor do livro. “Foi um momento único, ainda hoje é raro ver notícias de ciência na capa do jornal.”
A página de ciência do Jornal do Commercio trazia notas e matérias sobre os progressos da área, cartas de cientistas, uma seção de opinião e sugestões de experimentos didáticos para se fazer em casa.
Entre os temas mais recorrentes estavam alguns que são de grande interesse ainda hoje, como a burocracia na pesquisa, o ensino de ciências, energia nuclear e descobertas na área de medicina e saúde.
Leopoldo de Meis ressalta o papel pioneiro da publicação. “Naquela época, havia poucos trabalhando na divulgação científica”, conta. “Eram alguns cientistas muito ativos que buscavam o apoio da opinião pública; éramos gotas perdidas no oceano.”
Outra iniciativa pioneira é o site Brasiliana, criado pelo Museu da Vida, da Fiocruz, em parceria com a UFRJ e a Universidade Federal de Minas Gerais. Nele o internauta pode navegar por uma linha do tempo que apresenta os fatos importantes na divulgação científica em cada período da história ou ler textos sobre temas definidos, como cinema, música, literatura, imprensa.
O site ainda reúne mais de 200 referências de livros, artigos, teses e dissertações ligados à divulgação científica. Também há uma seção com perfis e depoimentos de grandes personalidades da ciência e da sua divulgação, como o pioneiro da radiodifusão educativa no Brasil, Edgard Roquette-Pinto, o jornalista Marcelo Leite, da Folha de São Paulo, e o físico Ennio Candotti, um dos criadores da Ciência Hoje.
A ideia é que o site seja continuamente alimentado com informações sobre a divulgação científica no Brasil. Segundo Massarani, que também é coordenadora desse projeto, material de novas pesquisas será bem-vindo na página.
“Temos encontrado muitas pérolas preciosas como o acervo da Rádio Sociedade e o próprio suplemento de ciência do Jornal do Commercio e a nossa ideia é reunir cada vez mais tesouros como esses no site.”
A jornalista promete que o livro Um gesto ameno para acordar o país logo fará parte do acervo de Brasiliana. A publicação, que não está à venda, também pode ser adquirida por bibliotecas e instituições de divulgação da ciência pelo e-mail nestudos@fiocruz.br.

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