Ecologia Acústica


A natureza emite mensagens por meio de sons que muitos não conseguem interpretar, pois é possível ouvir e não escutar. Mas, para preservá-las e protegê-las há cada vez mais ecologistas acústicos.


A ecologia acústica nasceu no início dos anos 70, com a criação do Projeto das Paisagens Sonoras Mundiais, liderado por Raymond Murray Schafer, da Simon Fraser University, no Canadá. Em 1993, foi criado o Fórum Mundial para Ecologia Acústica, cujo objetivo é a conscientização sobre os efeitos sonoros por meio de gravações, bases de dados, pesquisas acadêmicas e trabalhos artísticos. Segundo Schafer, o mundo é uma composição musical que se desenrola a nossa volta; somos, simultaneamente, audiência, performers e compositores.
O brasileiro de 80 anos  Johan Dalgas Frisch é um ornitólogo ativo desde os anos 60, autor do livro Para Que as Primaveras Não Se Calem para Sempre, e um profundo conhecedor dos sons da natureza. Para Frisch, um de seus maiores desafios foi gravar o canto do uirapuru, em 1962. A espécie vive no coração da Floresta Amazônica e aparece na primavera. O uirapuru tem sete cantos, associados à sorte, ao amor e à felicidade. "Embrenhado nas matas do Seringal Bagaço, no Rio Acre, quando tinha 32 anos, consegui gravar todos os sete cantos. Dali para a frente, promessas alvissareiras passaram a sobrevoar minha vida. É algo mágico que faz com que sempre me aconteça o melhor!", afima. De fato, o sucesso do ornitólogo e do uirapuru contribuíram para a criação, no norte da Amazônia, do Parque Nacional Indígena do Tumucumaque (1968) e do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (2002), no Pará e no Amapá. 
"Escutar, ou seja, ouvir com atenção, é uma atividade que muita gente entende errado. É comum pensar que basta focar em algum som e ignorar os demais. Para mim, isso não é escuta, mas deficiência controlada", explica o norteamericano Gordon Hempton, que tem 30 anos de carreira como caçador de sons e 7 mil gravações de "músicas" da natureza, cada uma com duas horas de duração. Hempton, tal como Frisch e  o biólogo Kendall Wrightson, é um ecologista acústico, um ambientalista preocupado em preservar a natureza física dos ambientes e a paisagem sonora composta por todos os sons que permeiam o espaço, emitidos por todos os seres. "Para mim, um ecologista acústico é, acima de tudo, uma pessoa que sabe escutar. O que fazemos é tratar todos os sons com igual importância para saber interpretá-los", afirma.
Essa habilidade humana crucial para a sobrevivência vem se perdendo. Primeiro porque "depois da Revolução Industrial, um número crescente de paisagens sonoras desapareceu completamente ou se transformou em uma nuvem homogênea de sons urbanos contemporâneos, cheia de trânsito", afirma  Wrightson, num artigo publicado no Journal of Acoustic Ecology. Em segundo lugar, porque, em meio à poluição sonora, selecionamos os sons que julgamos importantes e descartamos o restante.
Para Hempton, o ambiente urbano é muito barulhento. A poluição sonora é tanta que somos educados, desde pequenos, a prestar mais atenção a certos sons do que a outros. Nas cidades, a acústica ambiental pode ser preservada em igrejas e catedrais, locais silenciosos onde as pessoas podem ser ouvidas e compreendidas. Neles é possível ouvir todo o ambiente, de modo que nos sentimos seguros. "Já nas ruas recebemos toneladas de informação, muitas das quais insignificantes. A dificuldade de ouvir o que se passa ao redor abre oportunidade para ladrões se aproximarem, e dificilmente alguém ouve gritos de socorro. Locais barulhentos apresentam maior criminalidade", diz Hempton. Níveis altos de poluição sonora geram insegurança e estresse.
Frisch e Hempton partem do mesmo princícipio, mas atuam com objetivos distintos. Munidos de aparelhos para gravar cantos dos pássaros e sons da natureza, os dois se arriscam para preservar sinfonias naturais. "O acesso a locais remotos é caro, desafiador do ponto de vista físico e, algumas vezes, da perspectiva emocional também", diz Hempton. O desafio do caçador de som é escapar da poluição sonora. "A parte mais difícil do meu trabalho é ficar longe da família. Já a melhor é voltar para casa e compartilhar o material que gravei e as histórias. Vivemos em um planeta maravilhoso!", conclui. 
Em sua tese de mestrado para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova Lisboa, em Portugal, a pesquisadora Raquel Lemos Castro ressalta que, para os povos primitivos, a audição era essencial à sobrevivência. Diferentemente da visão, que nos permite ver o que está à frente, por meio do som é possível se situar no mundo e detectar predadores.Hempton destaca a "ausência de pálpebras para ouvidos" nos animais. Até hoje, não se tem notícia de uma espécie que possa interromper a audição. "Se você fechar os olhos, para de ver. Mas note que não temos pálpebras nas orelhas. Nenhum animal tem. E por uma boa razão: no ambiente selvagem, é muito perigoso parar de escutar. É um processo essencial para a sobrevivência. Nascemos para escutar", explica.
Se o homem primitivo tivesse sido capaz de fixar o som, ele seria uma das mais populares mídias da história. No entanto, como o registro só pode ser feito de forma visual e escrita, ignorou-se a análise do mundo por meio dos elementos sonoros. A história sonora mundial é feita apenas de músicas antigas. "O que era ouvido, a forma como o era, e as construções perceptivas que resultavam do universo audível dos nossos antepassados são uma incógnita para o homem moderno", escreve Raquel.
A ausência da herança acústica induziu ao que Schafer considera como "a cultura do olhar", na qual a visão é o sentido mais importante. Por conta dessa crença, não se pratica ou se ensina a audição e a interpretação dos sons do ambiente.Tente fazer uma lista de cinco sons ambientais - não músicas - escutadas hoje. Depois, escreva mais cinco sons naturais que você aprecia e cinco que não gosta. Poucos podem realizar essa tarefa.
É provável que a audição tenha se desenvolvido para que escutássemos a voz humana com facilidade. "Mas a frequência da voz não é compatível com os picos de sensibilidade da nossa audição. O que, no mundo selvagem, confere com esse pico? A resposta é: o canto dos pássaros", diz Hempton. Além disso, o som dos pássaros está relacionado à comida, à água e a temperaturas favoráveis para a construção de ninhos e criação de filhotes. "O canto dos pássaros é o indicador número um de um habitat próspero para humanos", afirma o ecologista.
Para o especialista, a Amazônia deveria ser mais apreciada. "O planeta Terra é uma jukebox movida a energia solar", diz. "Quanto mais luz incide sobre a superfície, mais alta é a música tocada pela natureza, por conta da captação de energia pelos painéis solares - ou seja, as folhas. Na região equatorial existe a maior incidência de raios solares, portanto a Amazônia oferece a música mais alta e mais diversa do mundo! É preciso escutá-la para acreditar", admira-se.
Como proteger esse patrimônio? A resposta é tocar o coração das pessoas. Nos anos 60, quando lutava pelos parques do Tumucumaque, Frisch sensibilizou boa parte do mundo com o disco Canto de Aves do Brasil. Entre os que se encantaram com a beleza do canto do uirapuru, estavam o rei Leopoldo III, da Bélgica, o príncipe Bernhard Lippe-Biesterfeld, da Holanda, e o ex-presidente norte-americano Dwight Eisenhower. O ex-presidente George W. Bush mandou instalar na Casa Branca o relógio ornitológico criado por Frisch que indica as horas com o canto de um pássaro brasileiro.
Os moradores das cidades decidirão o destino das paisagens sonoras, uma vez que a população urbana será dominante. O melhor que se pode fazer pela ecologia acústica é visitar um local em que a natureza impera e se apaixonar pela Terra. "Não tenha medo do fim do mundo, ele não acabará. Grandes acontecimentos estão por vir se mantivermos nosso amor pelo planeta. Tudo o que você precisa é encontrar o lugar certo e escutar", recomenda Hempton.
Fonte: Revista Planeta (adaptado)

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