O Brasil de Jeca Tatu a Chico Bento

Os personagens Jeca tatu, de Monteiro Lobato, e Chico Bento, de Maurício de Souza, são representações  da figura do caipira em dois momentos distintos da história de nosso país

No Brasil, o termo  "caipira" tem dois sentidos. Um ligado à idealização da natureza; outro à ignorância e ao atraso. Este último eternizado na figura do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, influenciou na caracterização do personagem de quadrinhos Chico Bento e serviu de base para a compreensão do bom e velho homem do campo, conforme atesta Geisa Fernandes, pesquisadora do Observatório de Histórias em Quadrinhos (ECA/USP) e autora do artigo "Brasil caipira" que saiu na edição  de dezembro de 2011 da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Monteiro Lobato (1882-1948) foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX. Ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo de sua obra de livros infantis, que constitui aproximadamente a metade da sua produção literária. A outra metade, consistindo de contos (geralmente sobre temas brasileiros), artigos, críticas, crônicas, prefácios, cartas, um livro sobre a importância do petróleo e do ferro, e um único romance, O Presidente Negro, o qual não alcançou a mesma popularidade que suas obras para crianças, que entre as mais famosas destaca-se Reinações de Narizinho (1931), Caçadas de Pedrinho (1933) e O Picapau Amarelo (1939).
Criado em novembro de 1914, num artigo endereçado à seção de cartas do jornal O Estado de São Paulo, o Jeca Tatu de Lobato representa o trabalhador rural itinerante do Vale do Paraíba. Indolente, ignaro, incapaz de prosperar, encarna o povo rural do país chamado pelo médico sanitarista Miguel Pereira, em 1916, de "imenso hospital". Jeca era um caipira de aparência desleixada, com a barba pouco densa, calcanhares sempre desnudos, portanto rachados, pois ele detestava calçar sapatos. Miserável, detinha somente algumas plantações de pouca monta, apenas para sua sobrevivência. Perto de sua habitação havia um pequeno riacho, no qual ele podia pescar. Sem cultura, ele não cultivava de forma alguma os necessários hábitos de higiene. Jeca tatu tornou-se, segundo um discurso de Rui Barbosa, "símbolo de preguiça e fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e tristeza, de subserviência e embotamento".
Este modelo do caipira não idealizado está presente no livro Urupês, da saga criada por Lobato para os adultos. Ele revela, em um painel composto por 14 narrativas, a real situação do trabalhador campestre de São Paulo, visão nada agradável para as autoridades políticas da época e também para a classe dos intelectuais. Isto porque Jeca é a imagem do ser legado ao abandono pelo Estado, à mercê de enfermidades típicas dos países atrasados, da miséria e do atraso econômico. Condição nada romântica e utópica, como muitos escritores pretendiam moldar o caboclo brasileiro, nesta mesma época.
Indignado com a situação do país, Monteiro Lobato iniciou uma vigorosa campanha jornalística em favor do saneamento. Expôs sem pudores a realidade nacional, apresentando as estatísticas: 17 milhões com ancilostomose, três milhões com doença de Chagas, dez  milhões com malária. Censurou também o descaso das elites: " Legiões de criancinhas morrem como bichos de fome e verminose. Nós abrimos subscrições para restaurar bibliotecas belgas."
A campanha de Lobato acabou forçando o governo a dar atenção ao problema sanitário. Criou-se uma campanha de saneamento em São Paulo, sob o comando de Arthur Neiva. O código sanitário foi remodelado, transformado em lei. Monteiro Lobato achava necessário não mobilizar apenas as elites, mas alertar e educar o povo, principal vítima da falta de saneamento. escreveu então Jeca Tatu - a ressurreição. O conto, mais conhecido como Jeca Tatuzinho, serviu de inspiração para uma história em quadrinhos bastante popular, que foi divulgada em todo o país  através do Almanaque do Biotônico Fontoura. Jeca, considerado preguiçoso, bêbado e idiota por todos, descobre que sofre de amarelão (ancilostomose). Trata-se. E transforma-se em fazendeiro rico.
Quase meio século depois, em 1963, o quadrinista Maurício de Souza busca inspiração em Jeca Tatu ao lançar  seu Chico Bento. No início, o personagem guardava semelhanças com o descrito por Lobato, especialmente na indumentária e no comportamento preguiçoso. semelhanças que duraram pouco, porque rapidamente  chico passa a mesclar  as características tradicionais  do caipira com valores  ligados às aspirações da"moderna"  sociedade brasileira. Os pés descalços  e a roupa esfarrapada passam de sinais de miséria a indícios de simplicidade momentânea , passaportes para um futuro promissor.
Chico Bento se alinha com o ideal de brasilidade definido por uma uma postura de otimismo, hospitalidade e capacidade de adaptação, diz Geisa Fernandes em seu artigo sobre o personagem. E acrescenta: "Some-se a esta lista o desejo de ser considerado um país sério, seja por medidas político-econômicas ou pela inserção do Brasil em discussões de interesse mundial.
A autora finaliza assim o artigo : " O personagem serve de metáfora para a idéia de um povo que precisa provar seu valor, mas que se orgulha de características inatas ligadas ao bem-viver e de não desistir nunca de seus objetivos. Nesse sentido, é possível falar do personagem como um exemplo de reconstrução do significado do caipira."

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