É Proibido Ser Gordo ?


Nunca houve tanta gente acima do peso - nem tanto preconceito contra gordos. De um lado, o que há por trás é uma positiva discussão sobre saúde. Por outro, algo de podre: o nascimento de uma nova eugenia


Segundo o especialista em obesidade Robert Lustig, da Universidade da Califórnia, o açúcar que adoça refrigerantes deveria estar na mesma categoria que o álcool, nicotina, cocaína e heroína: "Ele também é uma substância tóxica com alto potencial de abuso. Por essa lógica, também deveria ser controlado". Exagero? O efeito das taxas de obesidade na economia dos EUA indica que não: US$ 190 bilhões anuais em gastos diretos e US$ 4,3 bilhões de prejuízo anual por danos à produtividade. Um quinto desse prejuízo é causado apenas pelo açúcar presente em bebidas. Ao levar em conta o estrago que os refrigerantes fazem na saúde americana, o cenário é ainda mais sombrio. Mais de 130 mil casos de diabetes, 14 mil casos de doenças coronárias, 6 mil mortes diretas e 50 mil anos de trabalho perdidos por invalidez. Tudo isso só na década de 1990.

Praticamente toda a indústria alimentícia explora o poder viciante do açúcar. "Quanto mais açúcar tem um produto, mais ele vende", diz Lustig. O cientista ainda aponta o uso do açúcar para disfarçar sabores desagradáveis. Sobram argumentos sólidos para defender o controle da obesidade. Mas também é preciso analisar o quanto medidas que tentam restringir nossa alimentação se fundamentam em associações equivocadas entre obesidade e doença. Ou mesmo em puro preconceito: boa parte dos gordos não apresenta nenhum problema de saúde relacionado à obesidade. Mesmo assim, ela muitas vezes é vista como fraqueza moral. O empresário Roberto Justus, por exemplo, já afirmou que não contrataria pessoas obesas pela falta de empenho que teriam em emagrecer. E Justus não está sozinho: num estudo da Faculdade Notre Dame, na Califórnia, pesquisadores distribuíram currículos falsos entre alunos "para que eles escolhessem um novo professor". Os currículos não tinham foto, mas traziam o peso de cada "candidato". Resultado: os de 200 quilos eram preteridos em favor de concorrentes com qualificação idêntica, mas 120 quilos a menos.
Outro exemplo de preconceito são medidas extremas contra minorias, como a proibição de fumar em áreas abertas e sem aglomeração humana. Não é improvável que, num futuro próximo, o mesmo tipo de exagero cometido em leis antitabagistas radicais se estenda ao controle da obesidade. Aí, o "novo fumante" será o obeso. Para algumas companhias aéreas, aliás, eles já são: só entram no avião se comprarem dois bilhetes (reservar assentos maiores para eles está fora de cogitação, claro). A intolerância com os obesos, no fim das contas, é um grande estímulo para o abuso de medicamentos para emagrecer - o oposto do que podemos chamar de saúde.
Nos EUA existe um movimento chamado HAES – Health at Every Size (Saúde em Qualquer Tamanho), que prega que dá pra ser gordo e saudável, dá pra ser gordo e ser fisicamente ativo. Não é fácil ― pergunte pra gorda que frequenta academia como ela é tratada. Pergunte quantas vezes uma gorda que sai pra caminhar ou correr na rua ouve referências ao seu peso. Pergunte à gorda que quer fazer hidroginástica como é comprar um maiô. Pergunte as cinco professoras obesas aprovadas no concurso da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo em 2011 e que foram reprovadas na perícia médica se dá pra ser saudável com um sistema de saúde que automaticamente decide que você é doente por causa do peso. Pergunte a elas se conseguem ser saudáveis sem emprego.
Adaptado de "O gordo é o novo fumante" de Rodrigo Rezende (Revista Superinteressante)

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