Leonardo da Vinci, Anatomista



Mostra em Londres exibe estudos anatômicos inéditos e de surpreendente valor científico do artista. Imagens como a deste crânio seccionado (1489) lembram, tanto no nível de detalhes quanto no modo de visualização, técnicas atuais de ressonância magnética. 


A exposição ‘Leonardo da Vinci, Anatomista’, em cartaz em Londres (junho de 2012), mostra pela primeira vez estudos anatômicos feitos pelo artista entre 1485 e 1513. Parte de um tratado sobre anatomia que nunca chegou a ser publicado, o material é cientificamente superior à ciência que estava sendo praticada na época.
Os cadernos expostos na Royal Collection, no Palácio de Buckingham, mostram ilustrações e anotações, feitas em sua característica escrita espelhada, representando e descrevendo órgãos humanos e animais. Da Vinci utilizou técnicas de visualização inovadoras para a época, como secções transversais, representação em planos e a ‘vista explodida’, em que cada elemento da imagem é representado separadamente.“Os desenhos de Leonardo estão entre as melhores representações do corpo humano já criadas. Se tivesse publicado seu trabalho, ele seria conhecido como um dos grandes cientistas da história”, comenta Martin Clayton, curador da exibição.
O artista também teve a ideia de usar práticas comuns em escultura para seus estudos anatômicos, como injetar cera derretida dentro dos ventrículos do cérebro para, depois de seca, poder dissecá-lo observando as estruturas e cavidades em seu formato original.
No começo dos estudos anatômicos de Da Vinci, por volta de 1480, grande parte dos desenhos era baseada em dissecações de animais ou mesmo nas crenças da época, como mostra uma representação de cabeça humana em que os olhos estão diretamente ligados às três câmaras no cérebro, nas quais, acreditava-se, eram processadas as informações e armazenada a memória.

Posteriormente, Da Vinci passou a ter acesso a corpos humanos para estudo. Ao contrário do que se acredita, a dissecação humana não era crime na época, e Leonardo da Vinci abertamente relata ter dissecado mais de 30 corpos. Só no inverno de 1510-1511, trabalhando com o professor de anatomia Marcantonio Della Torre, da Universidade de Pádua, o artista teve acesso a 20 corpos.
Entre as ilustrações do aparelho reprodutor, fonador, do sistema nervoso e várias outras partes do corpo humano, também é possível ver estudos feitos para obras específicas, como o 'Judas na Última Ceia’ ou os cavalos e guerreiros da Batalha de Anghiari.
Porém, segundo Peter Abrahams, professor de anatomia clínica na Warwick Medical School, no Reino Unido, o trabalho de Da Vinci é “muito superior” à grande parte do trabalho de Vesalius, considerado o pai da anatomia moderna. “Se esses estudos tivessem sido publicados na época em que foram feitos, eles teriam tirado o livro de Vesalius do mercado”, observa Abrahams. Após a morte de Da Vinci em 1519, seus cadernos foram guardados e esquecidos. Em 1543, o anatomista belga Andreas Vesalius publicou o que seria o mais importante tratado anatômico da história, De humani corporis fabrica, considerado até hoje um divisor de águas na história da medicina.
“Comparados às ilustrações de 'Gray’s Anatomy' (livro clássico do estudo da anatomia), feitas no início do século 19, as ilustrações de Da Vinci transmitem mais vida e uma compreensão melhor do assunto”, diz Gus McGrouther, professor de cirurgia plástica e reconstrutiva na Universidade de Manchester.
No século 17, os cadernos com os estudos anatômicos de Da Vinci foram adquiridos pela família real inglesa e passaram a fazer parte da Royal Collection. Mas apenas muito tempo depois, em 1900, eles seriam “redescobertos” e seu devido valor finalmente compreendido.
Simultaneamente à exposição, a Royal Collection lançou um aplicativo para iPad com todos os 268 desenhos expostos na galeria, que podem ser ampliados, manipulados e analisados em todos os seus – muitos – detalhes, juntamente com a tradução para o inglês dos textos dos cadernos. Para quem não tem acesso ao aplicativo, a Royal Collection também disponibiliza imagens de todos os desenhos em seu website.
Fonte: Ciência Hoje On-Line (adaptado)

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