Um Dos Maiores Médicos do Brasil Era Estrangeiro

Noel Nutels (1913-1973). um dos maiores médicos que o Brasil já teve era ucraniano. Completamente esquecido em seu centenário, Nutels levou os serviços de saúde pública ao interior da selva amazônica onde tornou-se incansável amigo dos índios brasileiros

Não é questão de nacionalidade: um dos maiores médicos do Brasil foi um ucraniano, Noel Nutels, que levou a saúde pública às áreas indígenas da Amazônia. Noel Nutels nasceu na cidade russa de Ananiev (hoje na Ucrânia), em 24 de abril de 1913.O primeiro endereço de Noel no Brasil foi São José da Laje, no interior de Alagoas. Ainda menino, veio para o Brasil com os pais para morar em Recife, no estado de Pernambuco.
Em 1938, formou-se pela Faculdade de Medicina do Recife e, no mesmo ano, naturalizou-se brasileiro. Em 1941, mudou-se para Botucatu, São Paulo, para trabalhar no Instituto Experimental de Agricultura. Foi o médico da primeira expedição Roncador-Xingu, em 1943.
A partir desse primeiro contato com os índios, resolveu se dedicar à defesa das populações indígenas e à erradicação das doenças oriundas do contato com o homem branco. Em 1931, passou a ser médico do Serviço de Proteção ao Índio (precursor da atual Fundação Nacional do Índio- FUNAI) e, em 1952, do Serviço Nacional de Tuberculose.
Dizia Nutels: “Eu não clinico, não tenho consultório. Fazia Malária e agora faço Tuberculose. Minha mania: o índio”. Noel Nutels tornou-se incansável amigo dos índios brasileiros, dedicando-se à preservação do patrimônio físico e cultural das populações indígenas. Como conseqüência, em toda a produção acadêmico-científica do sanitarista, encontra-se uma constante preocupação com a saúde do índio, especialmente no campo da tisiologia.
Em 1952, Noel Nutels elaborou o “Plano para uma campanha de defesa do índio brasileiro contra a tuberculose” e, em 1961, publicou o “Cadastro tuberculínico na área indígena”. Como reconhecimento acadêmico, participou dos Congressos Brasileiros de Tuberculose e Doenças Respiratórias entre 1951 e 1972 e, em 1963, do Congresso Internacional de Tuberculose, em Roma.
Noel Nutels idealizou e dirigiu o Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas, SUSA, criado em 1957 pelo Ministério da Saúde, que levou os serviços de saúde pública ao interior da selva amazônica. De 1963 a 1964, Nutels dirigiu o Serviço de Proteção ao Índio. Além de 50 trabalhos científicos publicados no Brasil e no exterior, lecionou em cursos e seminários, no Serviço de Proteção aos Índios, na Universidade de Brasília e em diversas universidades nacionais e estrangeiras. Outra vitória de Noel e dos irmãos Villas-Bôas foi a criação do Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, aprovada pelo presidente Jânio Quadros, em 1961. Foi a primeira terra indígena homologada pelo governo federal.
Casado em 1940 com sua prima Elisa Trachtenberg, teve dois filhos, Salomão e Bertha. Faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1973. Para trabalhar com — e para — os índios, adoeceu constantemente, passou seis meses por ano longe da família e penhorou as joias da mulher para viajar.  "Meu pai sofreu muito nos seis meses em que esteve à frente do Serviço de Proteção  ao Índio — recorda sua filha Bertha. — Era um órgão sugado pela corrupção, onde fazendeiros subornavam funcionários para tomarem posse de terras indígenas onde haveria minérios. Havia até latifundiários que pediam proteção dos índios, justamente o povo que o órgão deveria defender".  "Meu pai fazia a comparação do índio brasileiro com o judeu. A comunidade judaica existe até hoje porque soube preservar sua cultura. O índio não conseguiu fazê-lo — lamenta Bertha. — Um povo sem cultura é marginalizado".

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