A Farsa da Boa Ciência

Biólogo divulga estudo falso em 157 publicações especializadas numa tentativa de desmascarar os periódicos científicos de acesso aberto. Segundo ele, muitas publicações não cobram pelo acesso ao conteúdo - mas cobram do pesquisador para que o texto seja divulgado em suas páginas.

O cientista e jornalista John Bohannon contou na revista especializada Science como conseguiu emplacar uma pesquisa falsa em diversas publicações científicas de acesso grátis. O biólogo afirma que o artigo, que seria rejeitado por qualquer um "com mais conhecimento de química do que um aluno do ensino médio e a habilidade de entender gráficos básicos", foi aceito por 157 dos 304 jornais aos quais ele foi submetido, alguns de grandes editores ou ligados a universidades internacionalmente reconhecidas. "Os dados dessa operação revelam os contornos de um Velho Oeste emergente na publicação acadêmica", diz o biólogo.
Bohannon, que é doutor em biologia molecular pela Universidade de Oxford (Reino Unido) e escreve para a revista Wired, criou um artigo sobre um suposto componente anticancerígeno de um tipo de líquen. Ele assinou como Ocorrafoo Cobange, do Instituto de Medicina Wassee, em Asmara. Nem Cobange, nem o Wassee existem. 
Uma das publicações que aceitou o falso estudo é o Journal of Natural Pharmaceuticals, da editora Medknow, com sede na Índia e dona de mais de 270 jornais científicos de acesso aberto. Além dessa, títulos de editoras "titânicas" (como chama o biólogo) como Elsevier e Sage, e ligadas a instituições prestigiadas, como a Universidade de Kobe (Japão) também aceitaram o embuste. Ele foi divulgado até mesmo em publicações que nada tinham a ver com o tema do "estudo" - como um jornal de reprodução assistida.
"Aceitar é a norma, não a exceção", diz o cientista. Segundo ele, em um dos casos, o Plos One - que já foi criticado por supostamente ter pouca qualidade na revisão por pares -, da Biblioteca Pública de Ciência dos Estados Unidos, foi o único a chamar atenção para possíveis problemas éticos com o texto, como a falta de documentação sobre o tratamento dos animais usados. O jornal rejeitou o artigo duas semanas depois de recebê-lo devido à falta de qualidade científica.
Segundo o biólogo, muitas publicações não cobram pelo acesso ao conteúdo - mas cobram do pesquisador para que o texto seja divulgado em suas páginas. Ele diz que a ideia de submeter um estudo falso surgiu em julho de 2012. Os editores da Science receberam um e-mail do biólogo David Ross, da Universidade da Pensilvânia, no qual detalha o processo de publicação de um artigo de Aline Noutcha, da Universidade de Port Harcourt, na Nigéria.
Aline havia pesquisado, junto com Ross, o mosquito transmissor do vírus da febre do Nilo. Ela submeteu o artigo a um jornal de acesso aberto. O estudo foi aceito, mas a pesquisadora foi pega de surpresa ao ser cobrada em US$ 150. No e-mail, Ross reclama que ocorre uma tendência em crescimento de enganosos jornais de acesso grátis "que parasitam a comunidade de pesquisa científica".
Bohannon então começou a planejar uma lista de jornais para tentar emplacar o embuste. Ele diz que um deles, da editora Sage, não pediu nenhuma modificação - apenas uma taxa de US$ 3,1 mil.

"Eu tomo total responsabilidade pelo fato deste embuste ter passado pelo processo editorial", diz Malcolm Lader, editor-chefe do Journal of International Medical Research (que cobrou os US$ 3,1 mil). Lader, que é professor do King’s College London, diz que o valor é cobrado porque a segunda fase após o artigo ser aceito, de edição técnica, é detalhada e cara - e os estudos ainda podem ser rejeitados.
Segundo a Elsevier, o jornal que aceitou o falso estudo não pertence à empresa. "Nós publicamos para outra pessoa", diz Tom Reller, vice-presidente para relações corporativas globais da editora. Raghavendra Kulkarni, do Colégio de Farmácia BLDEA, em Bijapur, Índia, e creditado como editor-chefe da publicação, diz não ter acesso ao processo editorial da Elsevier desde abril, quando o dono do jornal começou a trabalhar nesse processo.
Shun-ichi Nakamura, editor-chefe do Kobe Journal of Medical Sciences e professor de medicina da universidade de mesmo nome, não respondeu aos contatos da Science. Seu assistente, Reiko Kharbas, diz que o jornal recebeu a informação de que o estudo era falso antes da publicação, e que a carta de aceitação do artigo não teve efeito.
"Jornais sem controle de qualidade são destrutivos, especialmente em países em desenvolvimento, nos quais os governos e universidades estão se enchendo com pessoas com credenciais científicas falsas", diz Paul Ginsparg, físico da Universidade Cornell e fundador do arXiv, plataforma de divulgação de estudos. "Todos concordam que o acesso livre é uma boa coisa. A questão é como realizá-lo", diz Ross.

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