O Pontapé Inicial da Ciência do Futuro


Sob a desconfiança da comunidade científica, chute inicial da copa será dado por paraplégico graças a um exosqueleto construído por neurocientista brasileiro


Durante a abertura da Copa do Mundo de 2014, no dia 12 de junho, aqui no Brasil, os olhos do mundo inteiro estarão voltados para o grande evento esportivo. Mas, os torcedores que estiverem no Estádio do Itaquerão, em São Paulo, irão presenciar também, além do espetáculo inicial da maior festa do futebol mundial, um dos mais recentes progressos tecnológicos feitos pela medicina. Na abertura do evento esportivo, o pontapé inicial na bola será dado por um brasileiro paraplégico, que estará de pé e andando.
O episódio só será possível graças ao trabalho do neurocientista paulistano Miguel Nicolelis, que desde 2003 estuda como fazer um exoesqueleto mecânico capaz de devolver os movimentos para pessoas com limitações físicas (ver foto abaixo). Nicolelis é professor da Universidade de Duke nos Estados Unidos e idealizador do Instituto Internacional de Neurociência de Natal (IINN ).
A ideia do pesquisador era criar uma estrutura que envolvesse o membro paralisado do usuário – no caso do paraplégico, as pernas – e se movimentasse a partir de comandos dados pelo próprio cérebro da pessoa. Mais de 10 anos depois, o projeto se concretizou, graças à iniciativa The Walk Again – uma parceria entre instituições de pesquisa dos EUA, Suíça, Alemanha e Brasil, que mobilizou mais de 100 cientistas, comandados por Nicolelis. O exoesqueleto será apresentado ao mundo durante a abertura da Copa do Mundo, mas depois do evento esportivo continuará rendendo bons frutos para o Brasil: três unidades do equipamento serão trazidas da Europa para São Paulo, para serem usadas na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). 
Fruto de uma parceria do IINN com a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), o projeto tem como base científica todo o conhecimento sobre a interface cérebro-máquina desenvolvido por Nicolelis nos últimos anos. No início da década de 2000, por exemplo, sua equipe da Universidade Duke conseguiu fazer um macaco mover um braço mecânico apenas com sinais nervosos. Em 2007, mostrou que esse tipo de controle poderia ser obtido remotamente e, em 2011, macacos controlando um braço virtual conseguiram reconhecer, na forma de impulsos nervosos, até a textura de objetos.
Nesse período, a capacidade de registrar a atividade neuronal aumentou muito – se antes era possível 'ler' 100 neurônios por vez, agora já são dois mil – e Nicolelis quer chegar aos 10 mil ainda este ano, o que dará mais precisão aos movimentos.
Além disso, as pesquisas também têm obtido sucesso em outro ponto central para a construção de exoesqueletos que se movimentem em tempo real: a resposta mecânica aos impulsos. No caso do estudo de 2011, por exemplo, o cérebro do macaco nos Estados Unidos conseguiu movimentar um robô no Japão 20 milissegundos antes do próprio animal realizar o movimento.
Com o evento internacional tão próximo, há muito ceticismo em relação à possibilidade de o feito se concretizar – até porque um grande salto tecnológico precisaria ser dado. Mas Nicolelis está confiante. “Se tudo der certo, vamos mostrar ao mundo uma nova neurociência e afirmar que o Brasil não tem apenas bom futebol, mas muito boa ciência também”, profetizou, com a emoção habitual, o neurocientista. “Será um chute da ciência brasileira por toda a humanidade”, completou, com a voz embargada ao proferir uma palestra em 2013 no Rio de Janeiro.
Ainda assim, existe muita polêmica envolvendo o neurocientista e seus desafetos aqui no Brasil e no mundo todo. Quem acompanha a carreira de Nicolelis sabe que as notícias sobre o cientista giram em torno de dois temas: relatos de sucesso de seus experimentos mirabolantes e as trocas de acusações com outros pesquisadores.
Para atiçar a curiosidade do público, Nicolelis divulgou um vídeo em seu Facebook, em que mostra o exoesqueleto andando pela primeira vez. São só seis passos, mas que têm muito valor para quem estava condenado a não andar nunca mais.

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