Parecia Sujeira, Mas Era a Solução

O pesquisador Walter Colli revela em entrevista algumas peculiaridades da pesquisa científica no Brasil. Fala também dos percalços de seu trabalho.  Por exemplo: as vesículas em volta do T. cruzi: que se pensava que eram sujeira, são partes do protozoário que anunciam à célula hospedeira sua chegada em breve.

O professor Walter Colli do Instituto de Química da USP foi laureado no final de fevereiro deste ano com o prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia de 2014. A distinção é concedida pelo CNPq, em parceria com a Fundação Conrado Wessel e a Marinha do Brasil, com base em avaliação rigorosa dos nomes indicados pela própria comunidade científica, representada por suas associações e sociedades, e por instituições do sistema nacional de ciência e tecnologia. Leva-se em conta a contribuição dada pelo pesquisador ao longo da carreira para o progresso de sua área de conhecimento – neste ano, a grande área escolhida foi ciências da vida.

As muitas contribuições de Colli ao avanço do conhecimento sobre a interação do protozoário causador da doença de Chagas, o Trypanosoma cruzi, com sua célula hospedeira no organismo humano, justificam a premiação. Em uma entrevista que concedeu à Pesquisa Fapesp, Walter Colli torna visíveis, entre outas coisas, dois traços marcantes de seu jeito de ser cientista: de um lado, a sem-cerimônia engraçada, verdadeira intimidade, com que ele trata seu grande objeto de pesquisa, o T. cruzi. De outro, o desassombro com que enfrenta questões delicadas ou polêmicas, como a influência que teria a pobreza do ambiente científico do  país sobre a trajetória individual de cientistas – dito em outros termos, sobre a impossibilidade de pesquisadores brasileiros sustentarem e desdobrarem, até o reconhecimento internacional, determinadas descobertas que fizeram pioneiramente. 
Nesta entrevista, Colli relata um fato que é muito peculiar na ciência: desprezar a solução de um problema por achá-la simples ou óbvia demais. Veja o que ele diz em um determinado trecho da entrevista: "Quando entrei em contato com o Trypanosoma, raciocinei que se ele entra numa célula, é porque a enxerga, e a célula também o enxerga. Portanto, o que se deve estudar é a membrana, a estrutura que vê o exterior. Claro que iniciei pelo Trypanosoma não infeccioso, na fase em que está no inseto. Primeiro, porque é fácil de cultivar em laboratório e, segundo, porque eu tinha muito medo de ter problemas com a forma infecciosa. Perguntei-me o que ele teria na superfície: açúcar, glicoproteínas? Já haviam demonstrado então que algumas lectinas de plantas eram capazes de reconhecer açúcar. A lectina mais comum é a concanavalina, tirada de feijão. Em 1971 fui aos Estados Unidos fazer um curso de genética de leveduras e passei por Nova York, onde encontrei um amigo a quem falei sobre a dificuldade para comprar concanavalina. Ele tinha e me deu um vidro. Propus a Julia fazermos uma solução e jogar em cima do Trypanosoma. Não deu outra, todos aglutinaram instantaneamente, prova de que na superfície tinha uma grande quantidade de açúcares."
Mais adiante, o professor Colli relata: "Em 1991 demonstramos que ele solta vesículas no meio de cultura. Passado muito tempo, fomos analisar as vesículas e vimos que, em cultura de células de mamífero, entre três e 24 horas elas começam a entrar no citoplasma da célula hospedeira, e em 24 horas todas as vesículas ficam em volta do núcleo da célula. Elas são pedaços de Trypanosoma, mas chegam na célula e entram, têm a mesma capacidade dos Trypanosomas. Então, nossa hipótese na literatura é de que as vesículas são uma mensagem enviada pelo Trypanosoma para dizer que está chegando. E alguma coisa acontece que abre as portas das células."
"Estamos desde então, com Julia e alunos, tentando demonstrar que há pedaços dessa glicoproteína – não de açúcar, mas da proteína – que reconhece a célula hospedeira. Publicamos muitos trabalhos. Mas outros grupos também mostram que outras moléculas são igualmente importantes para o Trypanosoma penetrar. Então, atualmente, o Trypanosoma cruzi entra de várias maneiras. E talvez seja verdade. ", diz o pesquisador.
Ainda sobre a capacidade do Trypanosoma em penetrar nas células, Walter Colli acrescenta que " Embora seja altamente primitivo, ele evoluiu de forma a entrar em qualquer lugar, em qualquer célula. Esse é um outro mistério brutal. Se você usar qualquer tipo de célula em laboratório, ele entra. Se você produzir uma superinfecção no animal, ele entra no baço, no fígado, não vai ao cérebro, porque existe uma barreira. No fim mesmo, ele sobra no coração e nos músculos do trato gastrointestinal, no resto, desaparece. Isso é o mistério. Ele se esconde."

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