Ciência Fajuta

Depois de gerar muita polêmica na comunidade científica internacional, a autora do estudo revolucionário das células STAP concorda com a anulação de dois trabalhos sobre o assunto publicados na conceituada revista Nature

A jovem pesquisadora japonesa Haruko Obokata, do Instituto Riken, autora de dois estudos publicados na revista Nature, nos quais descreveu o procedimento revolucionário das chamadas células STAP, concordou com a retratação dos trabalhos. Na prática, os trabalhos deixarão de ter validade científica e as células STAP deixarão de existir, a não ser que Obokata consiga produzi-las de novo e comprove que a técnica funciona e pode ser repetida por qualquer outro grupo de pesquisa. Desde a publicação dos artigos, no entanto, acumularam-se os insucessos de pesquisadores de todo o mundo que tentaram reproduzir os procedimentos descritos pela japonesa. 
A técnica de Obokata seria capaz de promover a criação de células-tronco reprogramadas humanas em laboratório de forma incrivelmente simples – a partir da exposição de células adultas a situações ambientais estressantes – e sem a necessidade de inserção de fragmentos de DNA nas células reprogramadas, medida necessária para a produção das chamadas células-tronco de pluripotência induzida (IPs), atualmente empregadas nos estudos do campo. 
Sob o título de Bom demais pra ser verdade?, a revista Ciência Hoje On-Line publicou um artigo em março de 2014 questionando  dos resultados extraordinários alcançados pelo centro de pesquisa japonês. Escreveu a CH: "No fim de janeiro, um grupo de pesquisadores liderados pela bióloga Haruko Obokata, do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, no Japão, publicou na revista Nature uma nova técnica para obtenção de células-tronco pluripotentes(capazes de se transformar em quase qualquer outra célula do organismo) a partir de células adultas. Em vez de complicadas manipulações genéticas, a metodologia de ‘aquisição de pluripotência desencadeada por estímulos’ (Stap, do inglês), desenvolvida em camundongos, se baseava na exposição das células adultas a situações ‘estressantes’, como sua imersão em soluções com pH baixo.
Dada a simplicidade da técnica, logo pesquisadores de todo o mundo começaram a tentar reproduzir os procedimentos de obtenção das chamadas células Stap – e aí começaram os problemas. 'Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”, avalia o biólogo especializado em células-tronco e colunista da CH On-line Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas o que vimos foi apenas insucesso, inclusive no nosso laboratório aqui no Brasil.'
A questão era preocupante, mas talvez pudesse ser explicada por algum detalhe errado no processo descrito nos artigos. 'O problema dos resultados poderia ser resolvido por um simples ajuste na metodologia”, cogita Rehen. “Mas a questão se complicou quando começaram a surgir outras acusações envolvendo plágio e alterações nas imagens publicadas, questões ‘menores’, mas que dilapidaram a credibilidade do estudo.”
Segundo a CH, " O episódio lembra bastante outro escândalo na área das pesquisas com células-tronco: a famosa fraude do sul-coreano Hwang Woo-Suk, que anunciou, em 2004, a criação de células-tronco a partir de um embrião humano clonado – trabalho publicado na revista Science que acabou se revelando um embuste. Somente no ano passado a tão aguardada metodologia de clonagem de embriões humanos se tornou uma realidade.
A própria metodologia de Obokata, de tão simples, chegou a ser rejeitada anteriormente por diversas revistas, inclusive a Nature, que negou sua publicação em 2012. “Especialmente por se tratar de uma revista como a Nature, que deveria ter um processo de avaliação dos artigos muito rigoroso, o episódio é uma surpresa bem desagradável”, avalia Rehen. “A questão é que essas revistas vivem de novidade, então por vezes arriscam, na tentativa de publicar grandes descobertas. Não é a primeira vez que isso ocorre e o campo das células-tronco não é o único a sofrer com isso, está apenas em grande evidência, pela expectativa da população e da comunidade científica.”
Talvez o mais interessante no episódio, no entanto, seja a resposta da comunidade científica na internet. No caso de Hwang, os cientistas também não conseguiram reproduzir a sua pretensa técnica, mas, como não havia ainda conexões muito articuladas na rede, demorou muitos meses até a fraude ser confirmada."
Fonte: Ciência Hoje On-Line (inclusive os créditos das imagens)

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