Discutindo a Oncologia da América Latina

Especialista colombiano afirma que carência de pesquisa clínica na região gera desconhecimento da eficácia de medicamentos oncológicos baseados na genética tumoral. "Tratamos o câncer com drogas que não foram feitas para a genética dos latinos"

De acordo com o oncologista colombiano Andrés Felipe Cardona, diretor científico da RedLano (Rede Latino Americana de neuro-oncologia), se sabe muito pouco sobre o real cenário do câncer na América Latina. Além de existirem mais estimativas do que dados sobre a incidência da doença, a região corresponde a apenas 1% de todas as pesquisas clínicas feitas em oncologia no mundo. Por aqui, pesquisas, tratamentos e medicamentos são “importados” principalmente dos Estados Unidos e Europa.

Além disso, o especialista afirma que que nossa genética é completamente diferente da população europeia e norte americana, onde os testes clínicos são realizados. Devido a carência de pesquisas, ainda não se sabe exatamente como se comportam os tumores na população latino-americana nem se os medicamentos usados na região são tão eficientes quanto são para as populações norte americanas ou europeias. De acordo com o pesquisador, no que se refere à oncologia, a heterogênea e diversa população latino-americana teria, curiosamente, maior semelhança com a asiática.
Numa entrevista realizada durante um congresso realizado na cidade de Guadalajara, no México, Cardona falou sobre os desafios da pesquisa oncológica na América Latina e ressaltou que cada vez mais os novos medicamentos contra o câncer são baseados na genética tumoral.
Selecionei alguns trechos da entrevista: "Digamos que de 100% de toda a pesquisa feita sobre câncer no mundo atualmente, apenas 1% seja feito na América Latina. Deste 1% , 60% é feito no Brasil. Os outros 40% correspondem principalmente a pesquisas clínicas feitas no México e na Argentina. Os outros países fazem muito pouco. Então não sabemos ainda como se comportam os nossos tumores, os nossos cânceres.", disse o especialista.
"Nossa genética é completamente diferente da dos americanos e dos europeus. Antes, nos guiávamos por estudos norte-americanos e acreditávamos que os comportamentos sobre as doenças seriam iguais aos deles. Agora sabemos que, curiosamente, a genética dos nossos tumores se parece mais com a dos asiáticos. Então o câncer de pulmão na América Latina, por exemplo, é muito mais parecido ao câncer de pulmão na Ásia, principalmente a genética", esclarece Cardona.
"Acreditamos que isto pode ter relação com genes muito antigos, que provavelmente têm a ver com as migrações feitas a 14 ou 18 milhões de anos da Ásia. Estes genes estavam nos aborígenes da América Latina e quando nós nos mesclamos com os europeus estes genes ficaram exacerbados, digamos assim, e são eles que por acaso têm relação com as doenças."
" Um exemplo importante entre os latino-americanos é a infecção pelo HPV, que cria não só canceres de colo uterino, como também de cabeça e pescoço e que poderia estar gerando cânceres de pulmão e outros tantos. A infecção por HPV entre as mulheres latino-americanas é muito alta. Em Bogotá, mais ou menos 25% das mulheres com menos de 40 anos estão ou estiveram infectadas. No Brasil, o porcentual é de 15%. Se olharmos o total da população sexualmente ativa na América Latina, estaríamos falando provavelmente de 35%. Por isso o câncer de colo uterino é tão alto aqui. A infecção por HPV está relacionada com o subdesenvolvimento, mas ele pode gerar também tumores. São muitas transformações que fazem com que os nossos tumores sejam completamente diferentes daqueles que surgem nos norte-americanos e europeus. O maior problema é que os 40% dos casos de câncer em 2020 ou 2030 estarão relacionados ao subdesenvolvimento, à pobreza."
"No Brasil, a população de pessoas negras é maior e os tumores de mama são muito mais agressivos na população negra. Esses genes também estão na população miscigenada. Logo, o câncer de mama na população brasileira e na colombiana (onde a população negra também é maior) tem uma dominância maior para um tipo de câncer chamado triplonegativo, mais agressivo. É isso que temos aprendido pouco a pouco, mas infelizmente a pesquisa em câncer é muito limitada.", comenta o especialista.
Fonte: Portal iG

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