A Máscara da Morte Escarlate

Conto literário de Edgar Allan Poe, escrito em 1842, nos leva a refletir sobre as frivolidades do carnaval, época em que as pessoas parecem ignorar a dura realidade da vida. Contextualizando a história, podemos constatar no período carnavalesco uma verdadeira supressão da nossa realidade cotidiana, marcada por guerras, desequilíbrios ambientais, epidemias e miséria.


Uma das possíveis maneiras de entender-se o Carnaval é vê-lo como um ritual de inversão e um rito de passagem. Nessa abordagem, o Carnaval teria origem nas festas pagãs da Antiguidade, onde havia a celebração dos deuses e da natureza. Os festejos “carnavalescos” seriam momentos de supressão da ordem social pré-estabelecida, em que tudo seria permitido, dentro de um período de espaço e tempo delimitados. Nesta “suspensão” do tempo cotidiano, predomina a ideia de mundo às avessas: troca-se o dia pela noite, troca-se de parceiros, ou de sexo. Come-se e bebe-se desmedidamente, procede-se enfim, a uma exacerbação dos sentidos. No entanto, tal desregramento tem dia, hora e local para começar e terminar. É uma válvula de escape, que na verdade, longe de questionar a ordem social, apenas contribui para mantê-la, promovendo o controle social dos instintos naturais dos seres humanos.
E é neste contexto que o escritor americano Edgar Allan Poe (1809-1849) cria seu conto "A Máscara da Morte Rubra" de 1842: um ambiente carnavalizado dentro de uma atmosfera medieval, como reflexo da fuga da morte através do isolamento, criando uma realidade que desafiava a morte e o destino. Assim como o Carnaval, época em que as pessoas parecem ignorar a dura realidade da vida, Próspero e seus convidados vivem em um tempo suspenso, tratando com desdém a praga que devora o país fora dos muros do castelo. A Morte Rubra, porém, encara a situação como um desafio ao inevitável, ao presenciar um baile onde celebravam a vida de forma tão incontida, enquanto ela, a Morte, dominava as terras de Próspero.
“A Máscara da Morte Rubra” foi publicada em maio de 1842, na Graham’s Magazine, e retrata uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. A história começa quando o Príncipe Próspero, ao ver seu país devastado pela peste da Morte Rubra, decide convidar mil amigos jovens e saudáveis para um período indefinido de reclusão em uma abadia, até que a peste do lado de fora do castelo estivesse terminada. Dentro dos domínios de Próspero reinava a riqueza, a diversão, a beleza e o luxo. Dono de um gosto excêntrico e amante de festas, ao fim de mais ou menos seis meses de “fuga da morte” e segurança de todos dentro da fortaleza, Próspero decide promover um magnífico baile de máscaras para seus convidados.
A festa, realizada em uma série imperial de sete salões decorados com uma cor específica para cada um deles, era de extrema voluptuosidade. As sete salas criavam um ambiente bastante diverso, com janelas de vitrais formando diferentes tons de iluminação de acordo com a cor do aposento e a intensidade da luz. As salas e suas respectivas cores, do oriente para o ocidente, eram as seguintes: azul, púrpura, verde, laranja, branco, roxo e preto. Este último tinha as vidraças escarlates e um enorme relógio de ébano encostado à parede, cujo som ao soar das horas invadia os corações dos presentes e forçava os músicos a pararem de tocar, até que os carrilhões do relógio estivessem silenciados novamente. A cada hora completa, o relógio e suas badaladas provocavam perturbação e angústia, que logo eram trocados por risos e pelo reinício da folia com a música.
Quando o relógio do salão negro soou meia-noite, surgiu uma figura entre os mascarados que ainda não havia sido notada. O mascarado era alto, vestia uma mortalha salpicada de sangue, e tinha como máscara a face de um cadáver repleta de terríveis placas escarlates, representando a Morte Rubra que devastava o país fora da fortaleza. Com os convidados aterrorizados por tal presença, Próspero decide investir contra o intruso que trazia pânico e mal-estar a seus amigos. O príncipe persegue a figura aterrorizante pelos sete salões com um punhal, e no último é agarrado pelo misterioso mascarado, tombando morto no chão. Os convidados reagem e desmascaram o “intruso”, e qual não foi a surpresa de todos ao verem que não havia nada sobre a máscara. Todos percebem, então, que é a presença da Morte Rubra que invadiu os domínios de Próspero, com a intenção de mostrar a todos que a morte é inevitável e implacável com quem tenta enganá-la. A Morte Rubra mata os convidados um a um, até que todos fossem extinguidos.
Para ler o conto na íntegra, clique aqui

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