Como Estimar o Número de Pessoas em uma Manifestação?

Mais do que um simples dado estatístico, estimar a quantidade de pessoas presentes em uma manifestação pode ter uma conotação política e/ou ideológica, dependendo do interesse das partes envolvidas. Os métodos usuais de estimativas são bem precisos, desde que não sejam aplicados por observadores tendenciosos.

Embora a tarefa de contar quantas pessoas estão presentes em eventos tão grande quanto uma manifestação pareça intimidadora e quase impossível de se fazer com exatidão, basta que se tenha algumas informações básicas para que a a coisa toda deixe de parecer tão difícil e possa até oferecer resultados razoavelmente próximos do número verdadeiro.

Segundo os especialistas, a contagem de indivíduos em uma manifestação é uma tarefa relativamente fácil. Mas quando comparecimento implica em alguma forma de influência, então, os políticos e os organizadores do evento têm motivos de sobra para exagerar na contagem de pessoas. Através de uma pesquisa cuidadosa, porém, é possível fazer estimativas melhores que aquelas cujo resultado tem alguma conotação política
Em 4 de junho, uma grande multidão se reuniu em Hong Kong para uma vigília em comemoração do 22º aniversário do massacre da Praça Tiananmen, em Pequim. Mas, quantas pessoas compareceram? Em algumas estimativas, 77.000 pessoas estiveram presentes na manifestação. Outra, porém, listou quase o dobro de manifestantes: 150.000.
Há uma razão para a disparidade. A primeira estimativa-77.000- foi uma estimativa da polícia. A segunda era a de coordenadores do evento, que provavelmente teve alguma motivação para exagerar nos seus números. Para saber qual o tamanho exato da multidão, dois professores-Paul Yip, da Universidade de Hong Kong e Ray Watson da Universidade de Melbourne -analisaram os números. Para caber 150.000 pessoas naquele espaço, eles teriam que colocar empilhadas cerca de uma pessoa por 2,7 metros quadrados (quatro por metro quadrado), visto que a estimativa não era realista. 
Diante da grande divergência de números de manifestantes nas imediações da Avenida Paulista nos protestos do dia 15 de março de 2015,em São Paulo, (a Polícia Militar avaliou como 1 milhão de pessoas e o Instituto Datafolha estimou em 210 mil indivíduos), o blogue de ciência Gene Repórter fez uma postagem bem humorada, brincando sobre as possíveis metodologias que poderiam ser aplicadas para estimar com exatidão o número de pessoas presentes nesta manifestação. 
"Quase todo mundo que tenta fazer uma estimativa de uma multidão tem todo o interesse em que o resultado da estimativa quer dizer", diz Charles Seife, professor de jornalismo na Universidade de Nova York, que escreve sobre matemática e física. Seu mais recente livro Proofiness aborda as maneiras que as pessoas tentam enganar os outros (e às vezes enganam a si mesmos) com números. "Sempre que você vê uma estimativa de multidão", diz ele, "você tem que saber de onde ela está partindo." 
O método mais conhecido para estimar o tamanho de uma multidão é chamado de Método de Jacobs, em homenagem ao seu criador, o professor de jornalismo Herbert Jacobs. Ele desenvolveu o método de estimativa do tamanho de multidão depois de observar inúmeros protestos contra a Guerra do Vietnã da janela do escritório onde trabalhava.
Jacobs notou que a área na qual os estudantes estavam mostrava um padrão de setores -- uma espécie de quadrado divisor imaginário -- que permitia contar quantos estudantes ocupavam um determinado espaço ao contabilizar quantos estudantes em média conseguiam ficar dentro da grade imaginária. Fazendo isso, ele rapidamente notou alguns padrões.
Jacobs descobriu que nas multidões mais densas, cada pessoa ocupava cerca de 20 centímetros quadrados. Vale lembrar que este é o limite de quão cheio um lugar pode estar e ainda oferecer segurança às pessoas que estão lá, no sentido de que não seria possível colocar mais gente ali sem que alguém tropeçasse e fosse pisoteado, por exemplo. Talvez por isso alguns artigos que lemos sobre o assunto apenas se refiram a estas multidões como "densidade de mosh pit". Em uma multidão densa, mas ainda administrável, Jacobs observou que os participantes tinham 40 centímetros quadrados de espaço para se locomover, e em multidões leves, os participantes chegam a ter até 1 metro quadrado de espaço para locomoção.
Em qualquer evento, assim que ele determinava o número aproximado de estudantes em uma grade, ele poderia facilmente calcular o número de setores em uma área de qualquer densidade, e rapidamente chegar a uma boa estimativa de quantas pessoas estavam presentes em qualquer multidão. Desta forma, o novo e simples padrão do Método de Jacobs nascia.
O Método de Jacobs pode parecer uma solução simples demais, mas a verdade é que ele é surpreendentemente exato quando é feito por observadores não tendenciosos, e a tecnologia moderna tornou tudo muito mais fácil. Pegue ferramentas como o Google Earth, por exemplo, que tornou fácil e trivial para qualquer um descobrir o tamanho exato da área de determinado local, além de dividir a área em setores. E graças à cobertura constante da mídia, qualquer multidão de larga escala terá registro de vídeos ou fotos (e caso a mídia não o faça, alguém no Twitter provavelmente o fará). Então, determinar o número de pessoas com estes dados e ferramentas se torna relativamente simples. Claro, alguém poderia criar um software de reconhecimento para identificar com precisão quantas pessoas estão presentes em determinada multidão, mas este nível extra de certeza se torna desnecessário já que os resultados seriam muitos próximos aos obtidos pelo Método de Jacobs.
Mas um simples cálculo de área vezes a densidade tem seus limites. Multidões não são uniformes, eles se aglomeram em alguns lugares e se espalhar em outros. Por conta disso, os métodos de estimação estão cada vez mais sofisticados. Empresas especializadas no ramo e pesquisadores como Yip e Watson estão aplicando novas estratégias para descobrir se é realmente possível obter uma contagem bem mais precisa de uma massa fervilhante da humanidade.
Fonte: MSN

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Mariposa da Morte

Tecnologia Indígena

A Importância Ecológica das Baratas