A Fragilidade da Ciência Brasileira

Um estudo coordenado pelo Ipea evidencia a fragilidade da ciência brasileira, De acordo com o primeiro mapeamento da infraestrutura de pesquisa científica do país, os nossos laboratórios, além da predominância de uma infraestrutura de baixa escala,  apresentam uma concentração regional e baixa integração com os centros internacionais

Um levantamento inédito sobre a infraestrutura da pesquisa científica e tecnológica do Brasil, feito com 1.760 laboratórios concluiu que, embora tenhamos centros nacionais de excelência como Embrapa, Fiocruz e Ita (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), entre alguns outros, ainda existe um abismo interno que distancia a produção científica e tecnológica brasileira da de países mais desenvolvidos. 
O estudo, coordenado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), revela uma elevada concentração desses centros nas regiões Sudeste (57%) e Sul (23%), além de uma predominância de infraestruturas de baixa escala, em que 60% possuem equipamentos e instalações avaliados em até R$ 150 mil e somente 0,6% acima de R$ 5 milhões.
Os dados desse projeto, iniciado em 2013, estão em uma análise preliminar que, juntamente com o resultado de uma missão aos Estados Unidos e estudos complementares, será a base para um livro que deverá ser publicado no primeiro semestre de 2015. A obra vai detalhar os sistemas de inovação do país nos setores aeronáutico, de defesa, agropecuário, de tecnologia da informação e comunicações (TICs), saúde e petróleo.
Bem diferente do que acontece nos Estados Unidos e países da Europa, que possuem grandes laboratórios nacionais, onde centenas de pesquisadores de várias áreas do conhecimento trabalham sobre temas correlatos, aumentando de maneira significativa a produtividade da pesquisa acadêmica, os laboratórios brasileiros são pequenos, dispersos e longe de serem multidisciplinares. As áreas científicas predominantes nos laboratórios brasileiros são as engenharias, com 31,57% dos laboratórios, seguidas pelas ciências exatas e da terra e pelas ciências biológicas.
Na contramão da realidade de outros países, conhecidos pela vasta produção científica, outro dado chama a atenção. Os 1.760 laboratórios questionados possuem apenas 7.090 pesquisadores, uma média de menos de 4 pesquisadores por laboratório. Em contraste, somente o Brookhaven National Laboratory, nos Estados Unidos, tem 2.989 funcionários e 4.427 pesquisadores externos, conforme consta no boletim Radar 36 Tecnologia, Produção e Comércio Exterior da Diset, publicado em dezembro de 2014. O relatório é resultado da missão de trabalho aos EUA para estudar o modelo de ciência e tecnologia (C&T) americano. “A infraestrutura de pesquisa aqui precisaria ser maior, em média, para ter relevância ou competitividade no mundo. Laboratórios nacionais americanos, principalmente, possuem milhares de pesquisadores”, destaca o relatório.
Outro indicador que diz muito sobre o propósito da maioria dos laboratórios das universidades e outras instituições brasileiras retratados nesse panorama é o de usuários. Cerca de 60% das instalações são utilizadas por alunos de graduação e pós-graduação, o que demonstra que a maioria tem como função ensinar a fazer pesquisa e não desenvolver tecnologia de ponta.
Interligados todos os aspectos, ainda pesa outra questão: a manutenção. Embora não seja barato equipar os laboratórios, existem recursos disponíveis para comprar equipamentos no Brasil, especialmente nos últimos anos, quando se investiu muito em infraestrutura. Por outro lado, alguns tipos de equipamentos possuem, além de custos altos, uma manutenção elevada. Um supercomputador, por exemplo, é muito caro e o gasto anual de energia desse equipamento também é oneroso. 
Segundo uma das autoras do projeto, Fernanda De Negri, diretora de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset/ Ipea), "hoje, nós não conseguimos fazer bem nem uma coisa, nem outra: nem produzimos conhecimento e ciência de fronteira, nem o voltado para as necessidades concretas da nossa economia em desenvolvimento”.

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