As Guerras Que os Microrganismos Venceram


A história da humanidade e suas guerras pode ser recontada do ponto de vista da infectologia, posto que em muitos combates os microrganismos foram os verdadeiros vencedores do conflito, sem distinção de bandeiras ou divisas.

A guerra da África do Sul (1899-1902) não foi ganha com os antiquados rifles dos fazendeiros bôeres, mas pelo bacilo da febre tifóide. Em cada grupo de mil soldados enviados para a Cidade do Cabo pelo Império Britânico, a febre tifóide matou 15, duas vezes mais do que conseguiu o inimigo. 
Em 430 a.C, o tifo em Atenas já havia complicado bastante a Guerra do Peloponeso. Em Antioquia, em 1098, o tifo e o a disenteria dizimaram os cruzados, homens e cavalos. O medo generalizado da infecção fez maravilhas quanto ao índice de conversão ao cristianismo, especialmente porque o único recurso da saúde pública era o exorcismo. Durante a Guerra dos 30 Anos, os dois lados posicionaram-se para a batalha de Nurembergue, em 1632, mas o tifo matou antes de a luta começar que tiveram de desistir.
O tifo atormentou os cavaleiros do rei Carlos, em Oxford, e em 1741 capturou Praga para Luís XV. Junto com o General Inverno, o tifo e a disenteria conseguiram a retirada dos franceses de Moscou. Lênin perdeu 3 milhões de novos camaradas com tifo, em 1918-1922. O tifo reforçou as selvagerias da II Guerra Mundial nos campos de concentração, nos acampamentos de refugiados e nos postos do exército, embora os aliados tenham derrotado o piolho antes dos nazistas, acabando com a epidemia em Nápoles, em 1944, usando o inseticida DDT.
O tifo exantemático, uma infecção provocado pelo microrganismo chamado Rickettsia prowazeki, no início do século 20 era uma doença súbita e devastadora com um índice de mortalidade de 20%. Transmitida por piolhos infectados, o tifo era uma consequência da guerra, da promiscuidade, da falta de água, de roupas limpas e material de limpeza.
Já a peste negra, transmitida pela pulga do rato, também dizimou grande parte da Europa. Causada pelo microrganismo batizado de Pasteurella pestis, esta terrível doença começou nas praias do montanhoso lago Issik-Kul, a leste do mar de Aral, além de Tashkent, no canto entre a Rússia e a China, ao norte do Himalaia. Enquanto estava matando indianos, armênios, tártaros e curdos, a peste não era uma problema de saúde pública, mas quanto chegou à Europa em 1348, assumiu caráter alarmante e nada mais podia contê-la. Em covas abertas eram enterrados apressadamente os corpos putrefatos, malcheirosos e ameaçadores das vítimas, totalizando 25 milhões de mortos na Europa, aproximadamente um quarto da população.
A doença foi chamada de peste negra porque os mortos ficavam pretos. Sangravam horrivelmente ao nível da pele. Havia dois tipos de peste: a bubônica e a pneumônica, transmitida pela respiração, como uma pneumonia hemorrágica, com morte certa e rápida.
A Guerra Civil Americana, não por acaso, matou mais gente de doença do que em batalha, diz a historiadora Keila Grinberg da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UniRio). E os mais afetados foram os afrodescendentes, que só então haviam deixado de ser escravos. Estima-se que, do fim da guerra, em 1865, a 1869, cerca de um milhão de libertos contraiu varíola, febre amarela ou disenteria.
No século 20, a pandemia de gripe de 1918 matou 0,5 % da Grã-Bretanha e dos EUA e 25 milhões de pessoas no mundo todo. A guerra, havia pouco terminado, matara aproximada 8,5 milhões de soldados. Portanto, o vírus da gripe matou três vezes mais em um quarto do tempo que durou a Primeira Guerra Mundial
Nada cura a gripe. Porém, hoje, os antibióticos podem evitar a pneumonia, assim como pode deter o tifo, a disenteria e a peste bubônica. Os microrganismos têm perdido algumas batalhas, quanto à guerra...
Fonte: Livro A Assustadora História da Medicina de Richard Gordon ( Agir Editora Ltda ).

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