Eurico Santos, O David Attenborough Brasileiro

Eurico Santos, o maior divulgador da fauna e da flora brasileira, dedicou a vida a levar ao público leigo, de forma interessante e educativa, informação sobre a nossa história natural. Porém, não conseguiu a notoriedade do ilustre apresentador da BBC, Sir David Attenborough, que ganhou projeção internacional a partir dos anos 70 graças aos documentários sobre a vida selvagem que apresentava na TV.

A comparação não é minha. É de Silvio Marchini, doutor em Conservação da Vida Silvestre, na matéria que produziu para o site "O Eco" intitulada "Eurico Santos, divulgador da natureza brasílica", publicada em 22 de fevereiro de 2013, por ocasião do 45º aniversário da morte do naturalista.
Diz Silvio Marchini; "Eurico Santos foi – guardadas as proporções – um David Attenborough tupiniquim dos meados do século 20. A exemplo do ilustre apresentador da BBC, Eurico Santos dedicou a vida a levar ao público leigo, de forma interessante e educativa, informação sobre história natural. Enquanto Sir Attenborough ganhou projeção a partir dos anos 70 graças aos documentários que apresentava na TV, Eurico Santos foi um heroico pioneiro da divulgação científica no Brasil muito antes da popularização da televisão. Foi entre as décadas de 30 e 50 que ele produziu a maior parte de sua obra, publicada na forma de livros, muitos livros!"
Eurico Santos dividiu sua época com outros autores igualmente prolíficos ou influentes dedicados à história natural de nosso país. Fritz Müller, Adolfo Lutz, Hermann von Ihering e Emílio Goeldi são só alguns exemplos. Enquanto esses autores, todos cientistas, escreviam para outros cientistas, Eurico era jornalista e escrevia para o cidadão comum, diz Marchini. Cientistas sempre tiveram dificuldade – ou pouco interesse – em comunicar suas descobertas ao público leigo. Eurico Santos cumpria, então, o papel de traduzir para o povo o que os cientistas falavam. Eurico foi um homem a frente do seu tempo na clareza que tinha da importância da comunicação científica e da popularização da ciência. Décadas antes de Carl Sagan defender a racionalidade humana e atacar o analfabetismo científico em seu livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios – a Ciência Vista Como uma Vela no Escuro”, Eurico já escrevia, em notável consonância com o inesquecível autor da série Cosmos: “... não é sem mágoa e com uma pontinha de desconfiança que o povo olha para as explicações científicas destes curiosos mistérios e nem se lembra que é desta noite escura que saem os mais terríveis fantasmas que o atormentam. Tudo que vive na Natureza é filho da própria Natureza e está à altura da compreensão humana. O que ignoramos hoje, saberemos amanhã. A tarefa mais agradável ao espírito humano é, sem dúvida, a eterna pesquisa, a busca incessante da verdade.”
Eurico Santos faleceu com 75 anos incompletos, no Rio de Janeiro. Viveu o suficiente para ver seu trabalho reconhecido: recebeu o título de Publicitário do Ano e ganhou a medalha do Mérito Agrícola das mãos do presidente Juscelino Kubitschek. Depois de morto, foi homenageado pela Sociedade Brasileira de Zoologia", conforme assinala Marchini em seu texto. "Já David Attenborough, o Eurico Santos britânico da atualidade, recebeu muito mais medalhas do que poderia suportar penduradas no pescoço, foi condecorado com o glamouroso título de Sir e teve seu nome incluído na lista dos 100 Maiores Britânicos e dos 10 Heróis do Nosso Tempo. Zoólogos, botânicos e paleontólogos que foram inspirados pelos documentários de Attenborough quando estudantes retribuíram a honra batizando com seu nome as novas espécies de animais e plantas, extantes ou extintas, que descobriram: existe, por exemplo, uma árvore chamada Blakea attenboroughi, uma aranha Prethopalpus attenboroughi, e certamente o grande divulgador não se sente ofendido por saber, aos 86 anos de idade, que o Museu de História Natural de Londres já guarda o fóssil de um tal Attenborosaurus" acrescenta Silvio Marchini.
E finaliza da seguinte forma: "Não sei dizer quantas espécies descobertas por pesquisadores brasileiros foram batizadas em homenagem a Eurico Santos. Desconfio que nenhuma. Nesse aniversário da morte de Eurico, pesquisadores, educadores e comunicadores ambientais talvez pudessem começar a considerar a possibilidade de prestar homenagem ao maior divulgador que a natureza brasileira já teve. Se é tarde demais para medalhas e condecorações, na era da comunicação e da divulgação científica via Internet o simples registro do verbete “Eurico Santos” na Wikipédia talvez fosse um singelo porém significativo começo."
Fonte: O Eco

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