Álcool e Jornalismo Científico: Uma Mistura Perigosa

Uma  declaração mal interpretada de um pesquisador contribuiu para difundir a ideia equivocada que a cerveja teria efeitos analgésicos muito superiores ao do paracetamol. Diversos meios de comunicação deram a notícia distorcendo o conteúdo presente no artigo científico que originou a matéria e as redes sociais se encarregaram de propagar o erro. Na verdade, os autores estavam mostrando no estudo que o álcool é um analgésico eficaz que induz uma redução clinicamente relevante em testes de dor, o que  poderia explicar seu uso indevido por pessoas com dor crônica, apesar das possíveis consequências sobre a saúde a longo prazo

Na semana passada, compartilhei na minha página pessoal no Facebook um link para uma matéria de um site espanhol chamado Xataka Ciência, a qual destacava os efeitos analgésicos da cerveja. Ao ver o título sensacionalista " Te duele algo? Tómate una copa, uno dos los mejores analgésicos" ("Algum coisa te dói? Toma um copo de um dos melhores analgésicos", em tradução livre), resolvi abrir a matéria para me informar melhor sobre o estudo. Dizia a matéria: Segundo um novo estudo publicado na revista científica The Journal of Pain  por Trevor Thompson, da Universidade de Greenwich, uma quantidade de álcool superior a 0,8% (aproximadamente três cervejas) eleva significativamente a tolerância a dor superando em eficácia a analgésicos tão populares como o paracetamol (acetaminofen).
Como eu ia repercutir a notícia em ambiente de uma rede social onde a circulação de estudos sem embasamento científicos e pseudociência em geral não é novidade, acabei embarcando inocentemente na comunicação jornalística ( logo eu, biólogo e divulgador científico). Para a minha redenção, localizei casualmente no Twitter uma outra matéria que contestava o caráter sensacionalista desse comunicado e como ele foi repercutido de maneira equivocada por vários tablóides ingleses  ("Você nunca deve usar cerveja em vez de paracetamol para aliviar a dor").
O interessante é que o artigo original do estudo em nenhum momento faz alusão a cerveja ou a qualquer outro tipo de bebida alcoólica. Textualmente, o artigo diz: " Estes resultados sugerem que o álcool é um analgésico eficaz que induz uma redução clinicamente relevante em testes de dor, isso poderia explicar seu uso indevido por pessoas com dor crônica, apesar das possíveis consequências sobre a saúde a longo prazo ." Em outro ponto do artigo, os autores esclarecem que os efeitos analgésicos mais fortes do álcool se dão em níveis que superam as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para um consumo de baixo risco: " Estas observações apoiam a ideia de que a busca da analgesia através do álcool poderia promover a dependência química em pessoas com dor persistente, e ajudam a explicar a relação que tem sido observado entre aqueles que padecem de dor crônica e com o seu consumo de álcool ".
Deste erro brutal do jornalismo científico, podemos tirar algumas lições para a nossa vida profissional. Vamos a elas:
1- ouviu cantar o galo, mas não sabe onde : geralmente procuramos dar credibilidade aos jornais internacionais como eles fossem uma fonte fidedigna de informação de todo o tipo, inclusive à de cunho científico. Tablóides como o The Sun, Independent e Huffington Post repercutiram o absurdo e, a partir daí, a notícia foi repassada por vários meios da imprensa européia e internacional.
2- Só citar o artigo não basta: o curioso neste caso é que algumas matérias davam o link para o artigo científico que originou a matéria. Nada mais nobre. Porém, quando você clicava no link, era direcionada apenas para o resumo (abstract) do artigo, o qual ainda era pouco esclarecedor. Mesmo assim trazia informações suficientes para não incorrer no erro propagado. 
3- Leia o artigo na íntegra: de posse do artigo completo, podemos verificar que em nenhum momento os autores mencionam as palavras cerveja e paracetamol. Então, da onde os jornalistas tiraram estas palavras? Vejamos.
 No dia 29 de abril de 2017 ( portanto, muito antes dos outros jornais compatriotas), o Independent publicou uma declaração do principal autor do artigo original ao The Sun e foi daí que saiu todo o equívoco. Na tentativa de ser compreendido pelo público leigo, Thompson na entrevista (e não no artigo) comentou que " os efeitos analgésicos de álcool são maiores do que aqueles de paracetamol e pode ser equiparado a de opióides tais como a codeína".
Mais adiante, o autor menciona que os efeitos analgésicos do álcool se iniciam quando a alcoolemia (taxa de álcool no sangue) atinge o valor de 0,08%. Assim, a cerveja aparece no texto dos jornalistas britânicos como uma extrapolação absurda, uma interpretação errônea, talvez pelo fato de que esta taxa de alcoolemia é alcançada com dois goles de cerveja.  E assim que você começa a obter todos os ingredientes e temperos, jornalisticamente falando, para preparar uma receita milagrosa: um título sensacionalista e descontextualizado. Portanto, caros amigos, não caiam nessa armadilha como eu caí.
Para saber mais, clique nos links acima

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