"Chô, Chô! Passarinho!": Quando a Geopolítica Interferiu no Trabalho de um Cientista

Preso em 1942 pela política do Estado Novo de Vargas, o ornitólogo alemão Helmut Sick (1910-1991) passou o seu tempo no cárcere se dedicando aos estudos de ciências naturais. Na prisão, Sick descreveu 11 espécies novas de cupins e, da sua cela mesmo ou do pátio durante os banhos de sol, conseguiu reunir informações suficientes para depois publicar dois trabalhos científicos: um  sobre o andorinhão-estofador (Panyptila cayennensis) e outro sobre o chupim (Molothrus bonariensis). Atualmente, os trabalhos de Sick são as principais referências para os estudos da ornitologia brasileira.


Em 1939, aos 29 anos, dois após concluir seu doutorado sobre a “estrutura funcional da pena das aves”, o zoólogo alemão Heinrich Maximilian Friedrich Helmut Sick (1910-1991) desembarcou no Rio de Janeiro, como assistente do ornitólogo Adolf Schneider numa expedição do Museu de História Natural da Universidade de Berlim. As boas relações que o Brasil mantinha com a Alemanha antes do estopim da Segunda Guerra trouxeram Schneider e Sick ao Brasil. Munidos apenas de suas credenciais científicas e aparentemente sem nenhuma ligação com o partido nazista, os dois cientistas caíram na armadilhas do destino, o que mudou a história de ambos e, por conseguinte, da ciência brasileira.
Schneider, que tinha uma filha vivendo no Brasil, havia conseguido autorização para coletar aves no Estado do Espírito Santo, a fim de enriquecer o acervo da instituição em que ele e Sick trabalhavam. Lauro Travassos, entomólogo do Instituto Oswaldo Cruz, era o contato de Schneider aqui e foi quem ofereceu patrocínio à expedição de 1939. Porém, dois meses após a chegada dos alemães estourou a Segunda Guerra na Europa e os ornitólogos se viram impossibilitados de retornar à sua terra natal.
Uma matéria publicada no El País Brasil conta em detalhes a saga desses cientistas alemães no Brasil e como a geopolítica interferiu na vida deles. Vejam alguns trechos: "Em 1941, enquanto avançavam as negociações entre o presidente americano Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas pela entrada do Brasil na guerra, Schneider pediu autorização para uma nova expedição, acompanhado de sua esposa que fazia a taxidermia (conservação) dos animais coletados. No pedido ao Conselho de Fiscalização das Expedições Científicas e Artísticas no Brasil, Schneider se vê obrigado a informar o paradeiro de Sick, que ficara no Espírito Santo desde que a guerra se iniciara.
Embora Schneider tenha conseguido autorização e coletado várias aves depois incorporadas ao acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ele acabou chamando a atenção para o fato de seu ex-assistente estar circulando livremente na região de Santa Teresa (ES)"
Quando o Estado Novo foi decretado em 1937, o Governo de Getúlio Vargas passou a perseguir comunidades de imigrantes japoneses, italianos e alemães no Brasil, como parte do projeto nacionalista do presidente. Isso se refletia na vigilância e prisão de membros dessas colônias, o que se agravou bastante quando o país rompeu relações com o Eixo e entrou na Segunda Guerra ao lado dos Aliados.
"Assim, após ser notificado pelas autoridades de sua condição ilegal, Sick ainda pediu permissão para a coleta de aves, mas esta lhe foi negada. Em 1942, com a guerra declarada à Alemanha, o Conselho pediu sua prisão. Schneider também havia sido preso no Rio e o jornal O Radical destilou veneno aos “súditos do Eixo”. Depois de dizer “Chô! Chô! Passarinho” a Schneider, semanas depois estampava uma coluna com o título “Cantiga Velha de ‘Urubu Malandro’”. Nela, o jornal questionava os objetivos da expedição de Sick, e sugeria que já que a Ilha das Flores, onde ficava um presídio, “está cheia de ‘pássaros’ aos quais foram cortadas as asas”, quem sabe Sick “não se sentiria feliz em sendo também ‘engaiolado’?”
"Helmut Sick viu-se, então, aprisionado num país que ele pouco conhecia, com sua pesquisa sobre aves abortada. Mas, o alemão mostrou que não se renderia facilmente, e decidiu ele mesmo pregar uma peça em seu destino fatídico. Não seria o cárcere que o impediria de fazer o que mais gostava. Em vez de morrer de tédio e desesperar-se, resolveu improvisar. Foram necessárias algumas adaptações, é claro. Atrás das grades, o estudioso trocou a análise de penas de aves no microscópio pela observação a olho nu dos cupins que andavam pelo presídio. Substituiu as horas na mata pela observação dos passarinhos da sua cela mesmo ou do pátio, durante os banhos de sol. Assim, logrou reunir 26 espécies de cupim, 11 delas nunca antes descritas pela ciência. Sobre as aves que viu nos presídios da Ilha das Flores e da Ilha Grande, onde passou ao todo 21 meses, publicou um trabalho sobre o andorinhão-estofador (Panyptila cayennensis) e outro sobre o chupim (Molothrus bonariensis), pássaro que põe seus ovos em ninhos de outras aves para que elas cuidem deles."
Schneider, seu mentor no Brasil, foi libertado em 1943 e voltou no ano seguinte ao seu país. Morreu na então Alemanha Oriental em 1946, por inanição, seguido por sua mulher, que se suicidou. Sick teve bem mais sorte e só alçou grandes voos depois de sair da prisão, em 1944. Logo tornou-se naturalista da Fundação Brasil Central, explorando o interior do país ao lado dos irmãos Villas Boas. O relato dessas incursões está no livro Tukani: Entre os animais e os índios do Brasil Central, de sua autoria. Em 1960, tornou-se pesquisador do Museu Nacional. E em 1985 lançou a primeira edição de Ornitologia Brasileira, até hoje a obra mais importante nesse campo de estudos no país." 
"O feito de que Sick mais se orgulhava, no entanto, era de ter encontrado, no final de 1978, o hábitat da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari). Descrita ainda no século XIX com base em exemplares de cativeiro e de museus, a origem exata da espécie era um mistério da ciência. Só se sabia que vinha do Brasil. Ligeiramente menor que sua parente arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) e maior que a famosa ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), a arara-azul-de-lear foi descoberta no munícipio de Canudos, no sertão baiano, após anos de buscas feitas por Sick. A espécie estava à beira da extinção na época, ameaçada pelo tráfico de animais e pelo desmatamento que ainda hoje ameaça sua mais importante fonte de alimentação, os coquinhos da palmeira licuri."
Talvez a conservação dessa espécie não tivesse alcançado tanto sucesso sem a persistência de Sick, que morreu em 1991, no Rio de Janeiro. Além desse legado, Helmut Sick deixou animais em coleções de museus, inúmeras publicações científicas, discípulos na ornitologia e, principalmente, muitas histórias que vão sendo desvendadas aos poucos pelos pesquisadores.
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