Genética: Ascensão e Queda da Eugenia

Hoje em dia, eugenia é uma palavra malvista, associada a racistas e nazistas, e traz à mente uma fase da genética que talvez fosse melhor esquecer. Contudo, é importante reconhecer que, nos últimos anos do século XIX e no início do século XX, ela não era tida como infame; pelo contrário, muitos viam a eugenia como uma possibilidade genuína para melhorar não apenas a sociedade como um todo mas também a sorte dos indivíduos dentro da sociedade.
O termo eugenia, que significa literalmente, “de boa origem” foi introduzido em 1883 por Francis Galton, primo e amigo de Darwin. O termo surgiu para descrever a aplicação a seres humanos do princípio básico da propagação agrícola, mas com o tempo passou a denotar “evolução humana controlada”. Os eugenistas acreditavam que, tomando decisões conscientes sobre quem deve ou não ter filhos, eles seriam capazes de impedir a erupção da chamada “crise eugênica”, precipitada na imaginação vitoriana pela alta taxa de reprodução da ralé inferior associada às famílias caracteristicamente menores das classes médias superiores. Galton argumentava que seria possível “aprimorar” a estirpe humana mediante a procriação preferencial dos indivíduos dotados e impedindo os menos dotados de se reproduzir.
Se Galton pregava o que veio a ser conhecido como “eugenia positiva”, incentivando pessoas com genes superiores a ter filhos, o movimento eugênico americano preferiu voltar-se para a “eugenia negativa”, ou seja, impedir as pessoas geneticamente inferiores de procriar. O objetivo de ambos os programas era basicamente o mesmo -melhorar a linhagem genética humana -, mas a s duas abordagens não poderiam ser mais diferentes. O enfoque americano de eliminar os genes ruins, em oposição a aumentar os genes bons, decorreu de alguns estudos influentes de “degeneração” e “mente fraca”- dois termos característicos da obsessão do país com a deterioração genética.
Na tentativa de impedir que pessoas “erradas” tivessem filhos, o movimento eugênico nos Estados Unidos fez promulgar em 1907, no estado de Indiana, a primeira lei de esterilização compulsória, autorizando o procedimento em “criminosos, idiotas, estupradores e imbecis” comprovados. Com o tempo, 30 estados americanos chegaram a aprovar legislação similar. Em 1941, cerca de 60 mil pessoas haviam sido esterilizadas nos E.U.A. , metade delas na Califórnia. A esterilização também foi adotada com convicção fora dos estados Unidos – e não apenas na Alemanha nazista: a Suíça e os países escandinavos promulgaram leis semelhantes.
Racismo não é algo implícito em eugenia - genes bons, aqueles que os eugenistas buscam promover, podem em princípio, pertencer a pessoas de qualquer raça. Porém, a começar por Galton, cujo relato de sua expedição à África confirmara preconceitos sobre “raças inferiores”, os praticantes mais proeminentes da eugenia tendiam a ser racistas que usavam a teoria eugênica para justificar “cientificamente” seus pontos de vista racista.
Mein kampf, o livro de Hitler, é saturado de cantilenas racistas pseudocientíficas derivadas de antigas pretensões alemãs de superioridade racial e de alguns aspectos do movimento eugênico americano. Pouco depois de assumirem o poder em 1933, os nazistas aprovaram uma abrangente lei de esterilização, explicitamente baseada no modelo americano. Em 3 anos, 225 mil pessoas foram esterilizadas. A eugenia positiva, o incentivo para que as pessoas “certas” tenham filhos, também prosperou na Alemanha nazista, onde “certo” significava ariano. Os anúncios feitos no comício de Nuremberg em 1935 incluía uma “ lei para proteger o sangue alemão e a honra alemã”, que proibia o casamento entre alemães e judeus , e até mesmo “relações sexuais extraconjugais entre judeus e cidadãos de sangue alemão ou aparentado”.
A eugenia acabou se revelando uma tragédia para a humanidade. Também mostrou ser um desastre para a incipiente ciência da genética, que não conseguiu escapar da contaminação. A eugenia perdera a credibilidade na comunidade científica muito antes dos nazistas se apropriarem dela para seus fins repulsivos. A ciência que a escorava era fictícia e os programas sociais desenvolvidos a partir dela foram absolutamente repreensíveis. Percebendo que as metas da eugenia não eram cientificamente exeqüíveis, os geneticistas tinham abandonado havia muito tempo a grandiosa busca dos padrões hereditários das características comportamentais humanas e agora se concentravam no gene e na sua atuação nas células.

Extraído do primeiro capítulo do livro DNA: O segredo da vida de James D. Watson, intitulado “Os primórdios da genética: de Mendel a Hitler”

Comentários

  1. muito bom mesmo, era oq eu tava precisando para entender o capitulo: Os primórdios da genética: de Mendel a Hitler”

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Mariposa da Morte

Tecnologia Indígena

Sensibilidade e Especificidade