Impressões Bacterianas

Com ajuda da microbiologia, peritos forenses podem em breve ganhar uma nova ferramenta para ajudar a identificar suspeitos de crimes. Um estudo publicado esta semana mostrou que as bactérias que vivem na pele humana (como a Staphylococcus aureus da foto) são 'personalizadas', ou seja, cada indivíduo possui uma composição única de comunidades desses microrganismos. Como essas bactérias podem persistir inalteradas nos objetos manuseados ao longo de dias, é possível identificar indivíduos a partir da ’impressão microbiana’ exclusiva deixada por ele nesses objetos.
Estudos anteriores já haviam mostrado que apenas 13% das bactérias geralmente encontradas na palma das mãos são compartilhadas por duas pessoas. A partir desse dado, pesquisadores da Universidade de Colorado em Boulder (EUA) decidiram investigar se a composição de comunidades bacterianas podia funcionar como uma espécie de ‘impressão digital’ para cada indivíduo.
A análise de teclados e mouses de computadores mostrou que resíduos bacterianos deixados na superfície dos equipamentos eram compatíveis com os microrganismos encontrados na ponta dos dedos de diferentes usuários. O grau de compatibilidade era consideravelmente maior do que em relação a amostras recolhidas da pele de pessoas que não haviam tocado os objetos.
“Mesmo gêmeos idênticos têm comunidades microbianas diferentes, o que sugere que nosso conjunto de bactérias pode ser mais pessoalmente identificável que o genoma humano”, concluiu a equipe de Noah Fierer, pesquisador da Universidade de Colorado em Boulder (EUA). Os resultados do estudo foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Material genético similar

Na primeira parte da pesquisa, foram comparadas amostras de bactérias recolhidas em três teclados de computador e nos dedos dos respectivos donos. Após analisar o DNA bacteriano, o grupo concluiu que o material genético dos dois tipos de amostras era similar. Quando a comparação foi feita com outros 15 teclados nunca tocados pelos três voluntários, não houve o mesmo grau de correspondência.
“Juntos, esses resultados demonstram que o DNA bacteriano pode ser recuperado de superfícies relativamente pequenas, que a composição das comunidades de bactérias associadas aos teclados é distinta nos três equipamentos e que os indivíduos deixam ‘impressões digitais’ bacterianas únicas em seus teclados”, afirmam os pesquisadores no artigo publicado pela PNAS.
Em um segundo experimento, os cientistas coletaram bactérias da pele de dois voluntários. Metade das amostras foi armazenada a -20°C, e o restante, deixado em um recipiente aberto a 20°C. Mesmo após duas semanas, o material conservado sob temperatura ambiente não sofreu alterações genéticas, provando que condições típicas de ambientes interiores têm pouca ou nenhuma influência na composição de comunidades bacterianas. Em outras palavras, as bactérias deixadas sobre objetos mantêm a estrutura e a composição inalteradas mesmo dias depois de eles terem sido manuseados pela última vez.
Na última parte da pesquisa, os cientistas testaram a eficácia da técnica para a identificação de pessoas. A equipe coletou amostras de nove mouses de computadores pessoais que não haviam sido tocados por mais de 12 horas. Também foi coletado material bacteriano das palmas das mãos dos donos dos computadores.
A técnica poderá usada quando não for possível recolher impressões digitais clarasA compatibilidade entre os dois tipos de amostras foi então comparada a 270 amostras de bactérias coletadas das mãos de pessoas que nunca haviam utilizado os mouses. Nos nove casos, as comunidades bacterianas encontradas em cada objeto foram muito mais similares àquelas da pele dos usuários.
A expectativa é de esses métodos de comparação possam ser usados como alternativa à análise de DNA e às impressões digitais em investigações forenses. “A menos que haja sangue, tecido, sêmen ou saliva sobre um objeto, é difícil obter material genético humano suficiente para identificações forenses”, lembram os pesquisadores. Eles acreditam que a técnica poderá usada quando não for possível recolher impressões digitais claras, como em superfícies altamente texturizadas.



Camilla Muniz

  * Artigo publicado originalmente em Ciência Hoje On-line

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