Genética Contra o Câncer

Tecnologias genéticas já indicam com razoável grau de certeza aos médicos se um tratamento é eficaz ou qual fármaco age melhor em cada caso, como em tumores de mama, pulmão e intestino. No mês passado, num estudo da revista "Nature", cientistas da Universidade Jonhs Hopkins, nos E.U.A, apresentaram um método para avaliar o efeito do tratamento anticâncer a partir da análise de fragmentos de DNA.
para o oncologista José Cláudio Casali, coordenador do Banco Nacional de Tumores do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o tratamento do câncer a apartir de agora será cada vez mais individualizado. O tumor de mama é um exemplo. Uma das drogas mais indicadas contra esta doença é o tamoxifeno (que bloqueia a ação dos estrógenos), metabolizado no fígado. Porém, mulheres com mutação no gene CYP2D6 ligado a uma enzima essencial para o efeito terapêutico não se beneficiam  desta droga. 
O controle de células cancerosas por meio de análises de pedaços de DNA mutante no sangue é muito promissor. Se eles pudessem ser identificados, seriam ótimos marcadores. O médico saberia se removeu todo o tumor e se a quimioterapia está funcionando. Mas isso exige o sequenciamneto de bilhões de unidades de DNA e sai caro ( pelo menos 5 mil dólares). Então a equoe da Jonhs Hopkins descobriu que mais de 80% dos tipos de câncer têm mutações em seu DNA mitocondrial, e essas são mais fáceis de identificar porque o genoma é menor, de apenas 16 mil unidades. 
A idéia de usar o DNA mitocondrial para investigar o câncer é só um exemplo de quanto a pesquisa avança. O problema é que o câncer é uma donça muito heterogênea, causada por muitos fatores, inclusive ambientais. O próprio processo de transformação de uma célula normal em tumoral envolve mutações em dezena de genes. "Algumas pessoas nascem com predisposição ao câncer e há indivíduos que apresentam melhor capacidade de se recuperar do que outros. Há casos de fumantes passivos, sem qualquer outra doença, que só de frequentar ambiente com cigarro desenvolvem a doença. Até a forma como o indivíduo reage a uma infecção, como a do vírus HPV, faz diferença." diz Casali.
Cada tumor possui uma impressão genética própria e os cientistas tentam ver melhor isso. No câncer de endométrio eles avançaram bastante , comenta o oncologista. "Pelo menos 20% das mulheres apresentam uma alteração genética neste tumor, um marcador de bom prognóstico. Nesses casos talvez não precisem ser tratadas de forma tão agressiva como outras sem mutação."
Segundo Carlos Gil Ferreira, especialista em oncologia molecular e da área de pesquisa do Inca, os resultados da genômica (estudo dos genes e de suas funções) e da proteômica (identifica, quantifica e estuda as modificações nas proteìnas) ajudam a decidir quais as melhores opções de tratamento. Mais uma vez o câncer de mama serve para ilustrar. Em até 25% dos casos o gene da proteína HER2 foi alterado, o que estimula a maior divisão ea proliferação de células. E só pacientes com biópsia positiva para a HER2 se beneficiam do quimioterápico trastuzumabe, um dos mais potentes. Além disso, há alguns anos se faz cirurgia profilática em mulheres com mutações dos genes BRCA.
Outra situação, lembra Carlos Gil, é a de pacientes que sofrem com tumor de cólon ( intestino). Os tumores que contém o gene KRAS normal apresentam melhor resposta a um determinado medicamento. No câncer de pulmão também vale o que está escrito nos genes. Os pacientes com maior número de células com mutações para a proteína EGRF têm pior resultado.  E indivíduos com alterações nos genes Em14 e Alk podem ter melhor efeito com certas drogas. Ao contrário da década de 90-quando o tratamento era quase empírico-hoje não basta avaliar o quadro clínico.
Para a pesquisadora Patrícia Ashton-Prolla, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Professora do Departamento de Genética da UFRGS, a pesquisa genética do cãncer pode mudar o prognóstico para a maioria dos tumores. Os casos hereditários (10%) podem ser identificados, pelo exame do DNA, antes do tumor se desenvolver, e essas pessoas são encaminhadas a um controle rigoroso

       * Postagem elaborada a partir de reportagem homônima publicada no jornal "O Globo" de 14/03/2010

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