A Educação Pela Pedra

Considerando os percalços que existem para a solução do problema educacional brasileiro, a falta de investimentos reais na educação, a falta de  valorização dos profissionais de ensino, o resgate da figura do professor-educador, a demagogia dos discursos políticos quando o assunto é educação e toda uma gama histórica de justificativas para não se levar a sério o desenvolvimento do país a partir das melhorias no ensino, nada mais conveniente do que recordar algumas lições importantes neste sentido. Primeiro, vou reproduzir  um trecho da obra de Martin Heidegger (Qu'apelle-t-on penser?) intitulado aqui como "Entre o Ensinar e o Aprender". Vejamos.

"É bem sabido que ensinar é ainda mais difícil que aprender. Mas raramente se pensa nisso. Por que será que ensinar é mais difícil que aprender?
Não porque o mestre precisa possuir um maior acervo de conhecimento e tê-los, sempre, à disposição do aluno.
Ensinar é mais difícil do que aprender, porque ensinar significa 'deixar aprender'. Aquele que verdadeiramente ensina, não faz aprender nenhuma outra coisa que não seja o aprender. É por esta razão que o seu fazer causa muitas vezes a impressaõ de que junto dele nada se aprende. Isso acontece porque irrefletidamente entendemos por 'aprender' tão somente a aquisição de conhecimentos úteis e utilizáveis.
O mestre que ensina, ultrapassa os alunos que aprendem somente pelo fato de que deve aprender ainda muito mais do que eles, porque precisa aprender a 'deixar aprender'.
O mestre precisa ser mais ensinável que os seus alunos.
O mestre é muito menos seguro do seu ofício que os alunos do deles. Por isso, no relacionamento do mestre que ensina e dos alunos que aprendem, quando o relacionamento é verdadeiro, jamais entram em jogo a autoridade de quem sabe muito nem a influência autoritária do representante magisterial.
Por causa disso, é ainda uma grandeza ser mestre, que é bem outra coisa que ser 'professor célebre'. Se, hoje, onde tudo é medido sobre o que é baixo, nivelado por baixo e conforme o que é baixo (por exemplo, sobre o lucro), ninguém mais deseja ser mestre, isto é devido sem dúvida ao que esta grande 'coisa' implica e à grandeza de si própria."
Sobre os resultados das estratégias de aprendizagem nos reportamos à William Glasser (Seven Ways of Knowing):

"Aprendemos...
10% do que lemos
20% do que ouvimos
30% do que vemos
50% do que vemos e ouvimos
70% do que discutimos com outras pessoas
80% do que experimentamos
95% do que ensinamos a outras pessoas"

E, para terminar, reproduzo o poema de João Cabral de Melo Neto, "A Educação pela Pedra" que dá título a esta postagem:

"Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela dicção ela começa as aulas).
a lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e ao fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar, 
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma."

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