Voo Ameaçado


O maçarico-acanelado (Ryngites subruficollis), que habita a região do Acre, é uma das espécies ameaçadas de extinção (foto: Joaquim Aldabe).

Uma área equivalente a 11% do território nacional precisa ser preservada para que mais de cem espécies de aves ameaçadas continuem existindo. A conclusão é de um mapeamento inédito realizado por mais de 60 pesquisadores em todo o Brasil.
O mapeamento apontou as áreas do país que devem ser protegidas para evitar a extinção das aves. “O trabalho ajudou na criação de reservas e na implantação de políticas públicas para a conservação de várias espécies”, diz o biólogo Pedro Develey, diretor de conservação da Sociedade para a Conservação das Aves no Brasil (Save Brasil), entidade responsável pelo estudo.
Realizado em parceria com a BirdLife, o mapeamento foi dividido em duas partes e contou com o trabalho de ornitólogos e biólogos. Eles analisaram 450 áreas e cerca de 700 espécies. “A primeira parte ficou pronta em 2006 e contemplou os 15 estados do domínio da mata atlântica. No total, 163 áreas foram mapeadas”, revela Develey. 
“Trata-se do primeiro mapeamento de todas as espécies de aves ameaçadas e endêmicas”
A segunda parte acaba de ser lançada pela Save Brasil, com o registro das Áreas Importantes para a Conservação das Aves (IBAs, na sigla em inglês) no Brasil, contemplando a Amazônia, o cerrado e o Pantanal. Foram delimitadas 237 IBAs em todo o país. “Trata-se do primeiro mapeamento de todas as espécies de aves ameaçadas e endêmicas”, diz o biólogo.
Entre os requisitos necessários para que uma área seja reconhecida como IBA estão a presença de espécies ameaçadas; de espécies de distribuição restrita (que vivem em áreas com menos de 50 mil km²); endêmicas (que vivem exclusivamente em um único bioma); e das chamadas espécies congregantes, que formam grandes bandos que equivalem a mais de 1% da população mundial de aves.
Nessa última categoria incluem-se as aves migratórias. As áreas mais importantes com vistas à sua preservação estão na costa do Brasil, especialmente no Maranhão, no Pará e no Rio Grande do Sul. O mapa indica a distribuição das IBAs pelo território, concentrados em áreas da Amazônia, Cerrado e Pantanal 
A IBA que abriga o maior número de espécies em risco, embora esteja oficialmente protegida, fica no Parque Nacional das Emas, em Goiás. “São ao todo 11 espécies ameaçadas”, diz Develey. Entretanto, a Amazônia não foi totalmente mapeada e ainda pode conter IBAs relevantes.
Segundo o biólogo, a maior dificuldade encontrada durante o desenvolvimento do estudo foi a falta de informações e de inventários biológicos na região: “Existem áreas enormes com floresta bem conservada que não puderam ser classificadas por falta de informações. A necessidade de mais pesquisas é urgente na Amazônia”, diz ele.
Do total de IBAs do país, 40% estão desprotegidas
De acordo com o estudo, 82 milhões de hectares devem ser conservados no Norte e no Centro-oeste do país para a preservação das aves ameaçadas. Das 74 IBAs dessas regiões, 32 não contam com nenhum tipo de programa de conservação. Do total de IBAs do país, 40% estão igualmente desprotegidas.
“Além das políticas públicas, educação ambiental e conscientização fazem parte do processo de preservação. Autoridades, ONGs locais e a população são atores-chave para esses resultados”, conclui Develey.


Bruna Ventura
Ciência Hoje/RJ
Matéria publicada na CH 270 (maio/2010
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