Adolescência: Hormônios À Flor Da Pele

GERAÇÃO TOTAL FLEX Fazer experiências com meninos e meninas faz parte do processo de formação da identidade dos adolescentes de hoje.
Ilustração: Daniella Domingues

No trabalho Três Ensaios sobre uma Teoria da Sexualidade, o fundador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), mostrou a importância do tema para a formação do psiquismo humano. Ele escreveu que é por meio do prazer que sente nas várias partes do corpo que a criança organiza a própria existência. Na adolescência, com a explosão hormonal, o prazer deixa de existir apenas em relação a si mesmo e passa a se dirigir ao outro e a depender de seu olhar. "É uma transição delicada, já que o jovem experimenta a sensação de luto por perder o corpo de criança, sobre o qual tinha controle e com o qual sabia se comportar. Quando isso ocorre, ele precisa aprender a lidar com o desejo e uma nova sexualidade que desponta, o que acaba provocando um turbilhão de sensações desconhecidas", explica Roberto Graña, psicanalista e autor de livros sobre o tema.
A médica e psicanalista francesa Françoise Dolto (1908-1988) comparou a adolescência à transição que um caranguejo faz quando perde a casca para poder crescer e formar uma nova, maior. É uma metáfora que remete à vulnerabilidade a que o jovem fica exposto até finalmente "formar" seu corpo de adulto. Além disso, é importante compreender que essa fragilidade se manifesta do ponto de vista psíquico por um motivo bastante simples: enquanto as mudanças corporais avançam, as representações mentais sobre elas ainda estão em formação. Para aplacar a angústia que isso pode causar, é importante o professor, independentemente da disciplina, estar aberto ao diálogo para poder explicar as transformações provocadas pela puberdade. Esse é o melhor caminho para ajudar os adolescentes a encarar com mais naturalidade todas essas situações que fogem ao seu controle - do surgimento de pelos faciais ao crescimento de genitais e seios, passando por ereções involuntárias e outras manifestações da sexualidade nascente.
Outro comportamento comum nessa fase é dissociar o próprio desejo da reflexão sobre ele. Como ainda não têm experiência para moderar as vontades que sentem, muitas vezes os jovens agem sem pensar ou só refletem sobre o que fizeram depois do ocorrido. "Há ainda o agravante de que, nessa fase, existe o resgate da fantasia da onipotência, ou seja, achar que nada vai acontecer a si. Esses fatores somados contribuem, por exemplo, para o aumento dos casos de gravidez e o contágio por doenças sexualmente transmissíveis", diz David Léo Levisky, psiquiatra da infância e adolescência. Por isso, na hora de debater, vale ressaltar que nossas ações têm consequências - o caso das relações sexuais é emblemático para reforçar a ideia de que o prazer implica ser responsável com o próprio corpo e com o do(a) parceiro(a).
Assumir uma preferência sexual, na maioria dos casos, exige abrir mão de outra e, nesse processo, é comum os adolescentes testarem possibilidades. Essas experiências, é claro, não se dão apenas na fantasia mas também de forma bem concreta - com beijos, manipulação sexual mútua ou relações sexuais. E muitas vezes isso se manifesta ainda na forma de ciúme ou agressividade em relação aos amigos e amigas. "Tudo isso faz parte do desenvolvimento da sexualidade e deve ser encarado com normalidade. O que não podemos fazer é repassar preconceitos e tabus para os jovens, pois é sabido que isso prejudica seu desenvolvimento emocional", afirma o psicanalista Tiago Corbisier Matheus.
Além do desafio de encarar as mudanças corporais e a avalanche de desejos e novas experiências, construir-se e posicionar-se sexualmente como homem e mulher é um desafio e tanto na adolescência. Principalmente porque a sexualidade não é constituída apenas de determinantes biológicos, mas por um complexo de marcas culturais, sociais e econômicas. O adolescente aprende com o meio o que é esperado dele na relação com o outro.
Como meninos e meninas estão formando a própria identidade, é essencial eles confrontarem as ideias que têm sobre o comportamento de homem e de mulher (o que inclui, em muitos casos, contestar até o modelo dos pais, geralmente considerado perfeito durante a infância). Freud escreveu que é essa nova significação de papéis, com a adoção de outros modelos de identificação fora da família, que consolida a sexualidade de cada um. Na vida real, isso pode provocar grande ansiedade, pois novas referências podem se chocar com os antigos e criar contradições difíceis. É a luta entre o que o adolescente quer ser (como homem e mulher), a autoridade que ele efetivamente dispõe para se tornar isso (já que ainda não é totalmente independente) e o que se espera que ele seja (na família ou na comunidade).
Daí a importância de a escola ensinar a questionar os estereótipos atribuídos ao comportamento sexual masculino e feminino. Por isso, de nada adianta apenas defender que é essencial usar camisinha - mas deixar que os alunos falem mal das meninas que andam com preservativos. Da mesma forma, não vale só mencionar a ejaculação precoce - e se esquecer de abordar a cobrança que pesa sobre os homens, que precisam "provar" sua virilidade. "Despejar informações sobre sexo seguro é pouco para conscientizar os jovens e garantir que terão uma vida sexual saudável. Pesquisas mostram que eles sabem que têm de usar camisinha, mas não a usam. Daí a necessidade de conversar, de fazê-los pensar", diz Mônica Maia, especialista em Educação Sexual.
Enfim, falar sobre sexualidade exige exercitar a tolerância, o acolhimento ao outro e o olhar para si mesmo. Como disse o educador Paulo Freire (1921-1997): "A sexualidade, enquanto possibilidade e caminho de alongamento de nós mesmos, de produção de vida e existência, de gozo e boniteza, exige busca de saber de nosso corpo. Não podemos viver autenticamente, no mundo e com o mundo, se nos fechamos medrosos e hipócritas aos mistérios de nosso corpo ou se os tratamos cínica e irresponsavelmente".
Ele faz um alerta, porém, para uma "moda" atual: meninos e meninas que gostam de beijar meninos e meninas nas escolas, nos shoppings, em festas etc. "Nesse caso, é importante perceber se o jovem está experimentando por necessidade própria ou se o faz apenas para satisfazer às expectativas do grupo", ressalta. Outra situação comum e que também merece cuidado é a de adolescentes que adotam a promiscuidade como uma forma de evitar o envolvimento emocional. "É o caso da jovem que beija vários meninos ou meninas, mas nunca se permite uma relação de intimidade com um deles. Se isso persiste, o desenvolvimento da sexualidade também pode ser prejudicado", afirma Matheus.

Por Ana Rita Martins ( Edição Nº233 da Revista Nova Escola -Junho/julho 2010)

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