A Situação do Câncer no Brasil

Desde 1998, 27 de novembro é o Dia Nacional de Combate ao Câncer. Momento para conscientizar a população — e os próprios profissionais e instituições de saúde — da importância da prevenção da doença, que registra 472 mil novos casos e 134 mil mortes por ano no Brasil. O tema deste ano — Câncer: a informação pode salvar vidas — pretende ressaltar a relação entre conhecimento sobre prevenção e diagnóstico precoce redução das taxas de mortalidade e incidência da doença.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, lançou nesta data a publicação Situação do câncer no Brasil, que analisa e comenta os dados sobre incidência, mortalidade e ações de controle da doença no país à luz das evidências epidemiológicas mais atualizadas. A obra complementa e contextualiza os números das Estimativas, publicação que o Inca edita anualmente desde 1995 a partir das informações geradas pelos Registros de Câncer de Base Populacional, hoje coletados em 19 cidades brasileiras — dados vitais para que gestores, profissionais e pesquisadores da área de câncer abarquem toda a extensão do problema de saúde pública que se tornou esta doença, nos países ricos como nos pobres, responsável por 7 milhões de mortes anuais ou 12% das causas de óbito no mundo.
Organizado por Gulnar Azevedo e Silva Mendonça, Cláudio Pompeiano Noronha, Liz Maria de Almeida, o trabalho informa que para 2006 estima-se uma ocorrência de 472 mil casos novos de câncer no Brasil — ou 355 mil, se excluídos os casos de tumores de pele não-melanoma —, o que corresponde a quase dois casos novos por ano para cada 1.000 habitantes.
Em 2004, o câncer foi a segunda causa de morte feminina no Brasil (15,1%), atrás apenas das doenças do aparelho circulatório, e a terceira de morte masculina (12,8%), depois das circulatórias, das causas externas e das mal defi nidas. Há tipos predominantes de câncer dependendo do desenvolvimento dos países. Mas o Brasil convive tanto com os associados ao melhor nível socioeconômico — mama, próstata e cólon/reto — quanto com os associados à pobreza — colo do útero, pênis, estômago e cavidade oral.
Estima-se que 18% dos casos diagnosticados de câncer no mundo se devam a agentes infecciosos — ao lado do fumo, os mais importantes cancerígenos. Entre estes estão o papilomavírus humano (HPV), o Helicobacter pylori e os vírus das hepatites B e C. A Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC), sediada na França e ligada à Organização Mundial de Saúde, afirma que o HPV, no mundo, está associado a 100% dos casos de câncer do colo do útero e a 5,2% do total de cânceres diversos, em ambos os sexos. No Brasil, o vírus responde por 4,1% dos casos, sendo responsável por 8,1% das neoplasias malignas em mulheres, número inferior apenas aos casos de tumores da mama (20,6%). O HPV tem sido também associado a cânceres na área genital, além de boca e faringe.
Já a bactéria H. pylori, que provoca gastrite e úlcera péptica, está associada ao desenvolvimento do carcinoma e do linfoma gástrico. Nos países em desenvolvimento, é responsável por 78% do total de cânceres do estômago e, no Brasil, por 65%. De acordo com o Inca, o câncer do estômago representa 4,9% dos casos estimados para o país em 2006. Tanto o HBV (vírus da hepatite B) quanto o HCV (da hepatite C) causam câncer nas células do fígado — nos países em desenvolvimento, o HBV é responsável por 58,8% destes cânceres, e o HCV, por 33,4%. Nos casos de infecção associada (HBV mais HCV), essas frações se somam.
Há evidências ainda do potencial carcinogênico do vírus Epstein-Barr (EB), predominante na África Subsaariana: 85% dos linfomas de Burkitt são causados por ele. No carcinoma de nasofaringe, embora a dieta inadequada seja considerada importante fator de risco, quase todos os tumores ocorrem em conseqüência da infecção pelo EB. Nos países em desenvolvimento, a proporção de casos atribuíveis ao Epstein-Barr representa quase 50% dos casos. Dois tipos de câncer são associados à infecção pelo HIV: o sarcoma de Kaposi e o linfoma Não-Hodgkin que, com o câncer do colo do útero, estão entre as condições que definem a Aids. Todos os casos de sarcoma de Kaposi são atribuíveis ao vírus HHV8/HIV. Acredita-se que 26% dos casos de câncer seriam evitáveis nos países pobres com ações de prevenção destas infecções.
É importante que o profissional de saúde e cada vez mais pessoas tenham noção de como se desenvolvem os tumores e reconheçam sinais de alarme como nódulos, febre contínua, feridas que não cicatrizam, indigestão constante e rouquidão crônica. Quanto mais cedo o diagnóstico, maior o sucesso no tratamento.
Prevenção é essencial. Há fatores de risco que, em separado ou associados, podem desencadear o aparecimento da doença. O excesso de peso é a segunda principal causa evitável de câncer. A primeira é seguramente o tabagismo, que responde por 30% das mortes e 90% dos casos de câncer de pulmão. E a exposição passiva à fumaça do tabaco está, sim, associada ao câncer de pulmão e à insuficiência coronariana entre adultos, além de sintomas respiratórios em crianças e retardo no crescimento intra-uterino como conseqüência do fumo na gravidez.
Mas, acima de tudo, vale a pena a promoção da saúde, ao que a publicação do Inca dá grande ênfase. Vida saudável na infância e adolescência é essencial. Frutas, legumes e verduras na alimentação diária fornecem ao organismo substâncias nutricionais protetoras, algumas com ação específica contra o câncer. Para os que desejarem parar de fumar, há eficazes métodos já na rede pública de saúde e o estímulo de saber que a propensão à mortalidade pelo câncer de pulmão cai em três vezes (de 15 para 4 vezes mais que os que nunca fumaram na vida) entre os ex-fumantes.

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