Os Nove Trilhões de Nomes de Deus

Conto do escritor britânico Arthur Clarke utiliza metáfora para mostrar a importância da tecnologia na solução de problemas do cotidiano, até mesmo quando a questão é de cunho religioso

O conto Os Nove Trilhões de Nomes de Deus, do inglês Arthur Clarke (1917-2008), editado pela primeira vez em 1953, recebeu duas traduções brasileiras pela mesma editora (Nova Fronteira). Na história, uma confraria de lamas nos confins do Tibete dedica sua existência à recitação dos nomes de Deus. São numerosos: 9 trilhões. Quando tiverem sido pronunciados até o último, o mundo chegará ao fim. Mas como a tarefa consumiria séculos, resolvem "terceirizar" a missão, contratando os serviços de um poderoso computador da IBM. O computador Mark V seria instalado num mosteiro tibetano para calcular todos os anagramas de nomes de Deus. O que há de mais intrigante é que a tecnologia avançou o progresso que há milhares de anos os monges tentavam desvendar. Técnicos vão às montanhas do Tibete instalar a máquina. Em poucos meses, os 9 trilhões de nomes foram declinados.
Temendo que os monges ficassem aborrecidos porque o mundo continuaria seu curso mesmo após o último nome divino ser listado, os técnicos, antes que a operação eletrônica terminasse, fugiram. Para seu espanto, enquanto desciam de volta à civilização, viram no céu as estrelas se apagando uma a uma.
A relação com as ciencias naturais presente nesse texto é a evolução da tecnologia dos computadores que são máquinas programadas para fazer, nesse caso, calculos de todos os anagramas existentes dos nome de Deus, mostrando também que o processo da tecnologia é usado até mesmo para "cumprir metas religiosas" como no caso dos monges do Tibet. O que eles levariam 15 mil anos para fazer, foi feito com a "ajuda" da tecnologia em 3 meses.
Uma outra observação curiosa se refere ao título do conto. As edições brasileiras acertam ao traduzir a cifra do titulo (The nine billion names of God) por 9 "trilhões" e não "bilhões". Em outros idiomas nem sempre houve acerto. Na tradução francesa mais conhecida, lê-se Les neuf milliards de noms de Dieu, "nove bilhões", o que está errado. Vitória do falso cognato, como explica Gabriel Perissé, professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Nove de Julho (Uninove). De fato, no inglês britânico, que foi o usado por Clarke, billion significa "trilhão", ao passo que nos EUA é "bilhão". Para referir-se a "bilhão" no Reino Unido, embora a tendência atual seja adotar a solução americana, usa-se, e no momento em que Clarke escreveu o conto mais ainda, a expressão thousand million.
Acreditando que o inglês usado por Clarke era o americano, não só os franceses se enganaram. Na versão alemã, temos Die neun Milliarden Namen Gottes; na italiana, I nove miliardi di nomi di Dio; na espanhola, Los nueve mil millones de nombres de Dios. Trata-se de "nove bilhões" e não dos trilhões que Arthur Clarke tinha em mente.
Esta história foi escrita, na falta de algo melhor para fazer num final de semana chuvoso no Hotel Roosevelt. J. B. S. Haldane (famoso geneticista e biólogo britânico) disse sobre ela: "Você é uma das poucas pessoas vivas que escreveu algo original sobre Deus. Se você se propusesse a escrever uma hipótese teológica, você poderia ser um sério problema público."
"Estou satisfeito em permanecer um profeta, com 'p' minúsculo, disse Arthur Clarke. "Todavia, parece que criei um mito duradouro: não faz muito tempo, um programa de rádio da BBC, se referiu a primeira parte desta história como um fato atual. Computadores da IBM estariam entrando no campo dos estudos bíblicos, talvez este tema esteja se aproximado um pouquinho da realidade. "
Este conto aparece em duas coletâneas: respectivamente, Sobre o tempo e as estrelas, e O outro lado do céu. Leiam um trechinho do conto de Clarke abaixo:

"–- Este é um pedido um tanto estranho –- disse o doutor Wagner, com o que esperava poderia ser um comentário plausível. –- Que eu me lembre, é a primeira vez que alguém pede um computador de seqüência automática para um monastério tibetano. Eu não gostaria de me mostrar inquisitivo, mas me custa pensar que em seu... hum... estabelecimento, existam aplicações para semelhante máquina. Poderia me explicar o que tentam fazer com ela?
–- Com muito prazer –- respondeu o lama, arrumando a túnica de seda e deixando cuidadosamente a um lado a régua de cálculo que tinha usado para efetuar a equivalência entre as moedas. –- Seu ordenador Mark V pode efetuar qualquer operação matemática rotineira que inclua até dez cifras. Entretanto, para nosso trabalho estamos interessados em letras, não em números. Quando tiverem sido modificados os circuitos de produção, a máquina imprimirá palavras, não colunas de cifras.
–- Não compreendo...
–- É um projeto em que estivemos trabalhando durante os últimos três séculos; de fato, desde que se fundou o lamaísmo. É algo estranho para seu modo de pensar; assim espero que me escute com a mente aberta, enquanto explico.
–- Naturalmente.
–- Na realidade, é muito singelo. Estivemos recolhendo uma lista que conterá todos os possíveis nomes de Deus.
–- O que quer dizer?
–- Temos motivos para acreditar –- continuou o lama, imperturbável –- que todos esses nomes se podem escrever com não mais de nove letras em um alfabeto que idealizamos.
–- E estiveram fazendo isto durante três séculos?
–- Sim; achávamos que nos custaria ao redor de quinze mil anos completar o trabalho.
–- Oh! –- exclamou o doutor Wagner, com expressão um tanto aturdida. –- Agora compreendo por que quiseram alugar uma de nossas maquinas. Mas qual é exatamente a finalidade deste projeto?
O lama vacilou durante uma fração de segundo e Wagner se perguntou se o tinha ofendido.
Em todo caso, não houve rastro alguma de zanga na resposta.
–- Chame-o de ritual, se quiser, mas é uma parte fundamental de nossas crenças. Os numerosos nomes do Ser Supremo que existem: Deus, Jehová, Alá, etcétera, só são etiquetas feitas pelos homens. Isto encerra um problema filosófico de certa dificuldade, que não me proponho discutir, mas em algum lugar entre todas as possíveis combinações de letras que se podem fazer estão os que se poderiam chamar de verdadeiros nomes de Deus. Mediante uma permutação sistemática das letras, tentamos elaborar uma lista com todos esses possíveis nomes."

Sir Arthur Charles Clarke, mais conhecido como Arthur C. Clarke  foi um escritor e inventor britânico, autor de obras de divulgação científica e de ficção científica como o conto The Sentinel, que deu origem ao filme 2001: Uma Odisséia no Espaço e o premiado Encontro com Rama.

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