Presença Internacional da Ciência Brasileira

“A ciência no Brasil já atingiu um patamar que facilita as parcerias internacionais, e há muita gente de outros países interessada em parcerias em áreas como bioenergia e agricultura, entre outras”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) . Não por coincidência, essas são duas das áreas em que a pesquisa brasileira tem se destacado mundialmente, a partir do momento em que foi capaz de alavancar as vantagens naturais que o país sempre teve − terra, sol, água e biodiversidade abundantes − com um esforço educacional e intelectual sustentado e bem dirigido.
Exemplo do aumento do interesse internacional pelo Brasil como parceiro de pesquisas é a criação, no início do ano passado, de um escritório local do Centre National de La Recherche Scientifique (CNRS) da França, principal instituição estatal francesa de fomento à pesquisa, com orçamento anual de 3,4 bilhões de euros. É um esforço de mão dupla, avalia Jean Pierre Briot, diretor do escritório sediado no Rio de Janeiro. Além de identificar oportunidades de conjugação de esforços, ele também exibirá mais claramente a realidade brasileira para os franceses: “Mostrará que aqui também há pesquisadores, instituições e estruturas de pesquisa de primeira linha”, diz o cientista francês. Entre os projetos desenvolvidos conjuntamente pelo Brasil e pela França com participação do CNRS, Briot cita laboratórios conjuntos para o estudo de magnetismo, imunologia e matemática. Os dois países também estruturam o Centro Franco-Brasileiro de Estudos da Biodiversidade Amazônica (o território da Guiana Francesa, na fronteira norte do Brasil, abriga um pedaço da floresta amazônica). Se a parceria com a França se encaixa no modelo habitual das associações geralmente capitaneadas por nações mais desenvolvidas, o consórcio espacial com a China é um exemplo, infelizmente ainda pouco comum, de parceria entre duas nações emergentes. O que levou o Brasil e a China a buscarem essa parceria lá atrás? Para Thelma Krug, chefe da assessoria de relações internacionais do Instituto Nacional de Pesquisas Espacial (Inpe), de São José dos Campos (SP), instituição coordenadora da participação brasileira no programa, a parceria decorreu de uma confluência de fatores. A China tem necessidades similares às brasileiras − ambos são países com territórios enormes, nos quais os satélites podem ser relevantes ferramentas de observação. Além disso, já mantinha um programa espacial bem estruturado e dispôs-se a transferir tecnologia e a compartilhar custos.
Denominado CBERS − sigla em inglês para Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres −, o programa conjunto construiu satélites responsáveis pela captação de informações relevantes para o país, como dados relativos ao desmatamento na Amazônia. E do lado da absorção de tecnologia, parece já conferir ao Brasil capacidade para desenvolver um satélite próprio: denominado Amazônia 1, ele deve ser lançado em 2013 ou 2014. Permitiu, também, aos brasileiros estabelecer uma parceria com a Argentina para a construção conjunta de um satélite de monitoramento de oceanos, previsto para ser lançado em 2016. “Além disso, a indústria aeroespacial privada desenvolveu-se muito no Brasil a partir do acordo com a China, e suas empresas já são procuradas para projetos em outros países”, afirma Thelma, do Inpe.
Uma das razões para a expansão da atividade científica no país – destacada em edições recentes de revistas internacionais, como a inglesa The Economist e a norte-americana Science − é o aumento dos investimentos em pesquisa. Nos últimos dez anos, o orçamento do Ministério da Ciência e da Tecnologia subiu seis vezes: passou de R$ 1,1 bilhão, no ano 2000, para R$ 6,6 bilhões no ano passado (esse valor não inclui as despesas com pessoal). O Brasil é hoje referência internacional em áreas como energias renováveis, medicina tropical, biotecnologia e agropecuária. Nesta última, a estatal Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é reconhecida no mundo todo pela excelência de sua pesquisa na agropecuária tropical.
A Embrapa, já há algum tempo, mantém parcerias internacionais de pesquisa, mas fincou pé mais decididamente nas redes internacionais de conhecimento por meio de “laboratórios virtuais”, assim chamados por permitirem que cientistas brasileiros trabalhem nas instalações de instituições semelhantes em países estrangeiros. Nos Laboratórios Virtuais da Embrapa no Exterior − os Labex, como são chamados − os pesquisadores da empresa compartilham hoje experiência e recursos com colegas dos Estados Unidos, da Europa e da Coreia do Sul . “E já há demanda para a criação de Labex no Japão e na China”, revela Luciano Nass, coordenador de intercâmbio de conhecimento da Embrapa. No Labex EUA, por exemplo, o portfólio de pesquisas recentes inclui estudos que deram um atestado de sanidade ao rebanho suíno brasileiro, ao descartar que ele pudesse ser fonte de transmissão do vírus H1N1, o agente da gripe suína. Também estão sendo feitos estudos de apoio às ações de agricultura de baixo carbono, utilizadas no manejo sustentável dos solos agrícolas.
Ao escolher onde instalar um laboratório virtual, a Embrapa prioriza os países que dominam conhecimentos de importância estratégica, segundo Nass: isso inclui temas como a biologia avançada, as mudanças climáticas, a sanidade animal e a segurança alimentar, entre outros. Mas, mesmo numa especialidade na qual o país mantém posição hegemônica, como a dos biocombustíveis, os pesquisadores brasileiros sentem a necessidade de estabelecer parcerias internacionais. Tal preocupação se explica: enquanto os estudos de ponta em diversos países privilegiam hoje o desenvolvimento do etanol de segunda geração − ou celulósico −, capaz de aproveitar também o bagaço e a palha da cana-de-açúcar (ou de outras plantas) para produzir o biocombustível, o Brasil ainda trabalha basicamente com o etanol de primeira geração, obtido apenas do beneficiamento do caldo da cana.
O CTBE − Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, em funcionamento há menos de um ano na cidade de Campinas, em São Paulo − pesquisa o etanol celulósico em parceria com centros similares dos Estados Unidos, do Reino Unido, do Chile e da Suécia. Marco Aurélio Pinheiro Lima, diretor do CTBE, lembra que o Brasil tem condições de assegurar posição privilegiada em termos de eficiência energética também nessa nova geração de biocombustíveis: a cana brasileira gera cerca de 10 toneladas de palha para cada hectare plantado, enquanto no caso do milho, origem do etanol norte-americano, esse índice cai para 4 toneladas. “Temos aqui um professor-visitante dos Estados Unidos”, conta Lima. “Queremos ser, nessa área, centro de referência para pesquisadores do mundo todo.” A equipe do CTBE, mantido pelo governo federal, reúne hoje cerca de 50 pesquisadores e técnicos, e deve chegar a 90 até o fim deste ano.
Mas não basta se tornar mais internacional: para render os efeitos econômicos e sociais esperados das economias do conhecimento, a pesquisa e a ciência brasileiras precisam enfrentar ainda o desafio de integrar-se mais decididamente à atividade econômica privada, criando raízes nas empresas de forma a gerar inovação em produtos e serviços oferecidos no mercado. Nessa área, parece haver ainda longo caminho a ser percorrido. Afinal, lembra Brito Cruz, da Fapesp, em 2009 foram concedidas, nos Estados Unidos, exatas 103 patentes a inventores brasileiros − apenas cinco a mais do que em 2000 (inventores indianos, por comparação, registraram 679 patentes em 2009, ante 131 em 2000).
De acordo com o estudo da Unesco, em 2008 o setor público ainda respondia por 55% do investimento bruto em pesquisa no Brasil, cabendo às empresas os 45% restantes – na União Europeia, o índice Correspondente ao setor privado atinge 65% do total. Na opinião de Brito Cruz, o menor desenvolvimento da pesquisa empresarial não decorre de falta de recursos ou estímulos, pois há aqui ações de fomento competitivas com as de outros países: ele se deve, principalmente, a questões macroeconômicas, como a carga tributária e o custo do capital muito elevados. “Também é preciso mais estímulo à exportação, pois o mercado internacional exige competitividade, o que demanda mais pesquisa”, ele acrescenta.


Adaptado da matéria intitulada "Nas redes do conhecimento" , Revista PIB  número 13, março/abril 2011

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