Quando os Ratos Valiam Dinheiro

Os ratos representam um grave problema para a saúde pública, pois participam de uma cadeia epidemiológica com capacidade para a transmissão de, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 200 doenças.

Quando Rodrigues Alves (1848-1919) assumiu a Presidência da República em 1902, sua meta era o saneamento da capital federal, na época o Rio de Janeiro. Naquele momento, o Brasil tinha como projeto político a sua modernização segundo os padrões europeus. As epidemias que atingiam o Rio de Janeiro, como a febre amarela, a varíola e a peste, eram vistas como indícios de atraso. Para mudar a situação, o presidente indicou para o prefeito do Distrito Federal o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913), que comandou uma ampla reforma na cidade. O sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) foi nomeado para a direção da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), órgão federal responsável pelo combate às grandes epidemias, assumindo o cargo em março de 1903 com total responsabilidade sobre o combate às doenças epidêmicas. Em 1900, o Rio tinha  uma população de 690 mil habitantes; em 1903, o pior ano de uma epidemia de peste bubônica, 360 morreram. Até 1907, foram duas mil mortes. Como era difícil estabelecer o diagnóstico naquele tempo e muitas famílias escondiam seus doentes, talvez este número tenha sido até maior.
Além das medidas que já vinham sendo adotadas como as desinfecções e os isolamentos, Oswaldo Cruz combateu de maneira enérgica os vetores, isto é, os organismos que hospedam os vírus e as bactérias que causam as doenças  Criou as brigadas de mata-mosquitos para combater a febre amarela e a figura do caçador-comprador de ratos. Ele usou como base as descobertas do cientista franco-suíço Alexandre Yersin (1843-1943), que havia identificado o bacilo da peste em 1894, provando que a sua transmissão ocorria pelas pulgas do rato. Mas a idéia de caçar roedores não era nova. Já havia sido testada e aprovada nas Filipinas.
Os "ratoeiros" foram criados por um decreto  de setembro de 1903. Eles tinham como obrigação recolher 150 ratos por mês, pelos quais recebiam 60 mil-réis, o que serviria para comprar uma cesta básica na época. O salário considerado baixo, era um estímulo para que capturassem mais ratos, já que recebiam 300 réis por animal excedente, quantia equivalente a três cafezinhos. Por isso, não paravam de sair às ruas - principalmente na zona portuária, onde a incidência da peste era maior - munidos de ratoeiras , venenos e potes com creolina, onde colocavam os ratos capturados. E ainda usavam uma pequena corneta para anunciar sua chegada. Esse funcionário pagava a quem recolhesse ratos na rua e revendia os animais para o governo. Alguns cariocas aproveitavam para levar vantagem nesse comércio. Criavam os roedores em em currais  e até os "importavam" de cidades vizinhas, como Niterói. Entre os animais incinerados no Desinfectório Central estavam alguns feitos de papelão e cera.
.No entanto, os números comprovam que a campanha foi um sucesso. Nos primeiros meses em que esteve em vigor, de setembro a dezembro de 1993, de acordo com relatórios de Oswaldo Cruz, foram capturados e incinerados mais de 24 mil ratos. Já no ano seguinte, esse total chegou a quase 296 mil. Em 1907, quando a operação começou a diminuir , foi divulgado o número oficial de 1,6 milhões de ratos incinerados nos quatro anos anteriores. toda essa caça teve resultados positivos: à medida que o número de ratos diminuía na cidade, a quantidade de óbitos por causa da peste bubônica declinava progressivamente, passando de 360 em 1903, quando a operação começou, para 73 em 1907.
A proposta de convencer a população a caçar ratos para erradicar a peste bubônica foi usada em outros países além do Brasil. Nas Filipinas, os americanos adotaram a estratégia, em fins do século XIX, que acabou servindo de inspiração para o sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz. Em 1903, ano em que surgiram os ratoeiros no Rio de janeiro, o governo do Peru também decidiu comprar ratos da população. Mas, assim como os cariocas , os peruanos souberam lucrar com a medida:  começaram a criar ratos em currais.  Com isso,  a compra foi suspensa , e funcionários públicos  passaram a caçar os roedores. 
Até hoje ainda ocorrem casos esporádicos de peste na América do Sul, principalmente no Equador e no Peru. A prática da caça aos ratos, que já parecia extinta, chegou a ser ressuscitada em abril do ano passado, durante uma epidemia na região de Chicama, no litoral norte peruano. Mas a forma de combate foi diferente da usada no início do século XX. Desta vez, o governo peruano só capturou ratos num raio de 300 metros das casas dos doentes, e não na cidade toda. Além disso, resolveu não dar chance à malandragem e preferiu não pagar pelos roedores capturados.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a peste bubônica ainda persiste em alguns países, como China, Índia e Moçambique - mas de forma controlada. As descobertas científicas sobre a doença feitas no final do século XIX e no início do século XX, combinadas  com a difusão dos antibióticos, permitiram que ela desaparecesse da maior parte do planeta.

Adaptado de matéria da Revista de História da Biblioteca Nacional (ano 6, nº 67, abril de 2011)

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