A Terceira Onda de Extinção


Sapo-dourado (Bufo periglenes) O último exemplar na natureza deste belíssimo anfíbio considerado extinto foi visto e fotografado em 1989, numa região de bosques na Costa Rica. O desaparecimento da espécie é citado como exemplo do grande declínio da população de anfíbios em todo o mundo.

Iniciada em 1970, a terceira onda de extinção está em andamento e, dependendo da perspectiva de cada cientista, deve, nos próximos 30 anos, responder pelo desaparecimento de cerca de 20% a 50% das espécies vivas. Entre elas há grandes predadores, como o tigre; primatas, como o chimpanzé, o orangotango e o gorila-da- montanha; pássaros, como o albatroz; anfíbios, como o sapo-dourado; os recifes de coral e todas as formas de vida que eles sustentam. A interferência humana é fator substantivo nesse quadro desastroso, particularmente por conta das alterações climáticas que seu modus operandi vem deflagrando.

Em texto publicado no site do jornal russo Pravda, o engenheiro florestal e doutor em agronomia brasileiro Fabio Rossano Dario aponta três ondas de extinção de porte considerável desde que o homem surgiu na face da Terra. A primeira, que abrange o período entre 40 mil anos atrás e o fim do século 15, foi marcada pelo desaparecimento de toda a megafauna da Europa e do norte da Ásia (Neandertais inclusos), além dos grandes mamíferos das Américas, de dezenas de espécies de marsupiais australianos e da fauna de Madagascar e de 15% das espécies de pássaros do mundo.
Entre as perdas dessa onda estão o mamute, o mastodonte, o urso-de-cara-achatada, o rinoceronte-lanudo, o leão-das-cavernas, cerca de dez espécies de moa (pássaro enorme que habitava a Nova Zelândia) e 12 espécies de lêmures gigantes (um dos quais atingia dois metros de altura). O auge da extinção nesse período foi há cerca de 10 mil anos - a chamada "matança do Pleistoceno" -, fase de grandes alterações climáticas e de intensificação das atividades de caça dos humanos.
A era das grandes navegações, iniciada pouco antes do fim do século 15, e o ano de 1970 delimitam a segunda onda de extinção, que conviveu com o colonialismo europeu, a revolução industrial e o surgimento do capitalismo. Uma das regiões mais afetadas foi o Caribe, cuja flora e fauna perderam centenas de espécies. Duas delas, vítimas da caça indiscriminada, foram a foca-monge (Monachus tropicalis), chamada por Cristóvão Colombo de lobo-marinho, e a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis stelleri), um tipo de peixe-boi gigante encontrado no Pacífico Norte e que chegava a atingir 7 metros de comprimento e 10 toneladas de peso.
Na lista de mamíferos desaparecidos nesse período figura a quaga (Equus quagga), tipo de zebra da África do Sul que possuía listras apenas na parte posterior do corpo, exterminada por caçadores na segunda metade do século 19. Outro espécime é o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), marsupial semelhante a um cachorro com listras verticais na parte de trás do corpo, à maneira do tigre. Acusado pelos fazendeiros locais de matar ovelhas, ele foi exterminado impiedosamente.
A caça indiscriminada também fez muitas aves darem adeus à superfície do planeta nessa época. A mais conhecida entre delas é o dodô (Raphus cucullatus), das Ilhas Maurício, mas merecem destaque ainda a huia (Heteralocha acutirostris), da Nova Zelândia, e a alca-gigante (Pinguinus impennis), que vivia na Islândia.
O poder do homem pode não se mostrar tão devastador, mas, segundo alguns pesquisadores, é sem dúvida respeitável: em seu livro The future of life (O futuro da vida), publicado pela Vintage Books em 2003, o professor de biologia Edward Wilson, da Universidade Harvard (Estados Unidos), prevê que, no ritmo atual de destruição humana da biosfera, 50% de todas as espécies de seres vivos desaparecerão da face do planeta em 100 anos. Cálculo semelhante já havia sido apresentado oito anos antes pelo paleontólogo inglês Richard Leakey em The sixth extinction (A sexta extinção), escrito em parceria com o jornalista Roger Lewin e publicado pela Doubleday.
O desaparecimento de espécies não chega a ser algo a se estranhar sob o prisma estatístico: os cientistas afirmam que 99,9% de todas as formas de vida que existiram sobre a face do planeta já se foram. (A probabilidade de que nós, humanos, sigamos o mesmo caminho é, portanto, bem alta.) O que pode não surgir tão claramente aos olhos dos observadores é o real papel do Homo sapiens em todo esse processo. Certamente não é o do meteoro que formou a cratera de Chicxulub, na região do Yucatán, e precipitou o desaparecimento súbito dos dinossauros.
O homem parece mais ser um dos protagonistas de uma erosão contínua da biodiversidade associada a outros fatores, em especial mudanças climáticas, e que se amplia exponencialmente conforme os ecossistemas vão sendo destruídos. "Se você soma os números de espécies que foram extintas nas últimas centenas de anos, descobre que os números ficam bastante aquém de uma extinção em massa", assinala o professor Norman MacLeod, administrador da área de paleontologia do Museu de História Natural de Londres. "É apenas quando você olha para os números de criaturas que estão na iminência de serem erradicadas que o quadro se torna alarmante."
Ainda é possível reverter esse quadro geral? A resposta fica no âmbito da profecia, dada a dificuldade de fazer a crescente consciência ambiental da sociedade se transformar em ações internacionais amplas. A maioria dos especialistas antevê tempos sombrios, nos quais o homem descobrirá por si mesmo as consequências de viver em meio a uma biodiversidade muito mais pobre.

Adaptado de artigo publicado na Revista Planeta nº 448

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