Ortorexia: Obsessão por Comida Saudável e Exercícios

A ortorexia tem nome, mas não tem definição. Palavra criada em 1997 pelo médico norte-americano Steven Bratman para descrever um comportamento em que a preocupação com alimentos saudáveis deixa de ser uma opção para se tornar opressora, ela não é oficialmente uma doença, nem está entre os transtornos alimentares atualmente catalogados pela psiquiatria. O que não significa que não possa ser um problema ou, pelo menos, a manifestação de algum.
A descrição da ortorexia não se aplica a pessoas que optam por uma alimentação natural, que comem orgânicos ou produtos integrais. Ela fala de pessoas que fazem uso apenas desses alimentos, sob pena de não comerem nada. De pessoas que perdem a vida social pela impossibilidade de controlarem o que é servido em restaurantes ou na casa de amigos. E de pessoas que hiperselecionam os alimentos até não sobrar nada que possam comer.
Os casos de pessoas com esses comportamentos são raros, mas suficientes para que alguns psiquiatras se dediquem a estudos que proponham um diagnóstico e avaliem o tamanho do fenômeno. O mais famoso deles é da Università degli Studi di Roma, que em seus números preliminares encontrou uma “preocupação obsessiva” com alimentação saudável em quase 7% dos 404 voluntários estudados.
Independentemente da definição, o comportamento ortoréxico pode mascarar problemas já bem conhecidos dos médicos. “As pessoas com esses sintomas podem sofrer de anorexia ou transtorno obsessivo-compulsivo”, diz Arthur Kaufman, psiquiatra e coordenador do Projeto de Atendimento ao Obeso da Universidade de São Paulo.
Para Rafael Soares, nutricionista do Grupo de Estudo e Assistência em Transtornos Alimentares de Porto Alegre (Geata), mesmo que não exista a preocupação final com o emagrecimento, a descrição de um ortoréxico define um paciente com anorexia que faz opção por alimentos crus ou integrais. “Fora isso, o resto é invenção. Vai restringir a alimentação como qualquer pessoa com anorexia e vai comer só integral, por exemplo. É a mesma doença. Um escolheu viver só de alface e tomate e o outro, Coca Light e café”.
O fato de em tese buscarem uma alimentação saudável dificulta o diagnóstico e tratamento do problema. O “orgulho” de comer direito está entre as principais características da ortorexia. “Acredito que é uma coisa mais messiânica do que orgulho”, diz Kaufman. “A pessoa faz campanha, tenta convencer os outros de que quando ouvirem o que tem a dizer vão saber o que é melhor”. A certeza de estarem fazendo um bem a si mesmos mantém os pacientes longe dos consultórios. “Em nenhum momento eles se consideram doentes, mesmo que estejam”, afirma Rafael Soares.
Perceber a diferença entre o zelo excessivo com a própria alimentação e a manifestação de um comportamento obsessivo pode ser muito difícil, especialmente para o próprio paciente. “Nem sempre você percebe. O critério acaba sendo quanto esse comportamento perturba a própria pessoa”, explica o psiquiatra Arthur Kaufman. Mas ele admite que é bem mais fácil que o problema seja percebido primeiro pelos outros: “Um bom critério é quando dizem ‘não te agüento mais’”.
O Centro Nacional para Distúrbios Alimentares britânico (NCFED na sigla inglesa) recebe mais de seis mil ligações e e-mails por ano de pessoas que sofrem de ortorexia. Seus especialistas se dizem preocupados que muitos jovens possam ser vítimas de dietas falsamente saudáveis recomendadas em revistas e internet. "Nos meus 30 anos de experiência, calculo que uma em cada dez mulheres e um em cada 20 homens sofra de ortorexia", diz a especialista do NCFED Deanne Jade. "Não é apenas um desejo de comer de forma saudável, é algo que passa a dominar cada vez sua vida. Eu chamo a ortorexia a prima da anorexia. Pessoas com sinais de ortorexia podem desenvolver outras doenças e apresentar problemas de saúde graves no futuro", diz ela.
Fonte: Portal iG

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