Reviravolta no Estudo da Obesidade

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Tradicionalmente associado a estilo de vida, alterações hormonais ou predisposição genética, o excesso de peso tem sido relacionado nos últimos anos a um novo fator: a composição da flora intestinal. Foto: Torso de Mujer mais conhecida como "La Gorda", de Fernando Botero (1987) em Medellín, Colombia.


A obesidade tornou-se uma tragédia planetária moderna que consome a saúde de centenas de milhões de pessoas devido a sua associação com problemas circulatórios, diabetes do tipo 2, osteoartrite etc. Por isso, há um enorme interesse da ciência em compreender os fatores associados à obesidade.
Não há dúvidas de que a obesidade se deve ao descontrole entre a quantidade do que é ingerido pelo indivíduo e do que é gasto em seu metabolismo. Mas ainda há controvérsias sobre quais fatores predispõem alguns indivíduos à obesidade enquanto poupam outros.
Historicamente, a maior parte dos estudiosos sobre esse tema tem se dedicado a associar a obesidade com o estilo de vida, com alterações hormonais ou com uma predisposição genética. Contudo, evidências epidemiológicas sugerem que o constante aumento na obesidade mundial não está associado somente a esses fatores tradicionalmente estudados.
Uma reviravolta sobre as causas e eventos associados ao excesso de peso iniciou-se há cerca de seis anos, quando pesquisadores liderados por Jeffrey Gordon, da Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, começaram a associar o problema à composição da flora intestinal dos indivíduos. Em 2006, o grupo publicou um estudo em que observava que ratos obesos apresentavam uma flora intestinal diferenciada em comparação com animais de peso normal.

A invasão e a disseminação dos microrganismos em nosso trato intestinal ocorrem somente após o nascimento, pois, durante o desenvolvimento embrionário, o feto habita um ambiente isento de germes.
Como os nossos primeiros contatos com o mundo se dão através do parto e, posteriormente, via amamentação, há uma grande semelhança entre a flora intestinal infantil e a materna. Talvez venha daí a observação comumente feita de que mães gordas têm filhos obesos.
Estimativas indicam que há um número praticamente inimaginável de microrganismos, principalmente bactérias e leveduras, habitando nossos intestinos. Embora o trato intestinal superior seja pouco ocupado por germes, devido às suas condições inóspitas (acidez, forças propulsivas elevadas), o intestino grosso apresenta uma densidade microbiana muito elevada, abrigando cerca de 100 trilhões de microrganismos de até mil espécies diferentes.
Temos que compreender que nem sempre – e nem todos – os microrganismos são maléficos para o nosso organismo. Apesar de nossa constante luta contra esses seres diminutos, eles são parte integrante e indissociável de nossas vidas.
Grande parte desses microrganismos são comensais, ou seja, consomem parte do alimento ingerido pelo organismo humano sem prejudicá-lo. Mas há também espécies patogênicas, cuja proliferação é normalmente mantida sob controle pela ação de microrganismos benéficos. Contudo, se houver alguma alteração fisiológica ou ambiental, os microrganismos patogênicos podem se multiplicar rapidamente e causar enfermidades.
Com base nas descobertas da equipe de Gordon, os indivíduos propensos à obesidade teriam uma flora intestinal que lhes permite extrair de forma mais eficiente os nutrientes e as calorias presentes nos alimentos em comparação com pessoas mais magras.Apesar de ser frequentemente associada a doenças, a microbiota intestinal nos beneficia produzindo vitaminas K e do complexo B e auxiliando na captação de nutrientes e de calorias em polissacarídeos não digeríveis pelo organismo humano. Estimativas indicam que diariamente essa captação energética microbiana pode ser superior a 100 quilocalorias, o equivalente a cerca de 5% a 10% das calorias diárias necessárias para manutenção de um indivíduo de 70 quilos.
Se essa hipótese for verdadeira, o problema da obesidade não estaria em uma menor capacidade metabólica dos indivíduos para consumir os nutrientes e calorias ingeridos, e sim em uma maior habilidade de captação e estocagem desses recursos alimentares do que os indivíduos não obesos.
Apesar da enorme diversidade de microrganismos que habita a nossa flora intestinal, a relação entre as várias espécies e a obesidade segue uma lógica simples: há indícios de que a presença ou ausência de apenas seis espécies de bactérias na microbiota podem explicar cerca de 80% dos casos de obesidade humana.Todas essas descobertas, se forem efetivamente comprovadas, poderão ter implicações enormes, que irão além do controle da epidemia mundial de obesidade. Os resultados poderão, por exemplo, ter efeitos sobre o uso – muitas vezes desregrado – de antibióticos.Do ponto de vista genético, análises também indicam que um número reduzido de genes pode estar associado à obesidade. Se essas pesquisas estiverem corretas, abre-se a possibilidade no futuro de um diagnóstico relativamente fácil e seguro dos fatores predisponentes à obesidade, bem como do tratamento de indivíduos com excesso de peso.
Nos últimos anos, têm se acumulado evidências que sugerem que os antibióticos orais podem empobrecer e afetar o desenvolvimento e o delicado equilíbrio da flora intestinal, ao atingir uma série de grupos de microrganismos importantes para a fisiologia digestiva. Por exemplo, o aumento da diversidade intestinal de bactérias pertencentes aos grupos Bacteroides e Ruminococcus, eficientes na digestão de carboidratos, poderia facilitar o ganho de peso de indivíduos que utilizam antibióticos.
Outras linhas de pesquisa têm se dedicado a analisar o papel dos probióticos, alimentos que têm em sua composição microrganismos vivos (principalmente Lactobacillus, Enterococcus e Bifidobacterium) capazes de beneficiar a saúde. Há indícios de que os probióticos, amplamente utilizados na dieta humana e de animais, podem contribuir para um melhor balanço na composição da microbiota intestinal, facilitando a absorção de nutrientes e vitaminas e, assim, proporcionando ganho de peso.
Se comprovados, esses indícios podem talvez nos fornecer uma explicação alternativa para o fato de produtores rurais e piscicultores administrarem grandes quantidades de antibióticos e probióticos aos animais em desenvolvimento. Essa prática, inicialmente associada à redução de infecções microbianas, pode ser efetiva por causar alterações na microbiota animal e, assim, contribuir para o ganho de peso das criações – e, consequentemente, o lucro dos criadores.

Adaptado do artigo "Um novo olhar sobre a obesidade" publicado em 05/08/2011 na revista Ciência Hoje On-Line

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