Ensinando Sobre a Natureza da Ciência

 Contextualizar multidisciplinarmente a história do conteúdo a ser lecionado ajuda o aluno a entender a relevância do que ele precisa aprender, fazendo da História e Filosofia da Ciência um instrumento extremamente útil para a compreensão, por parte de alunos e professores, da própria natureza da ciência.
Apesar dos profundos avanços sociais, científicos e tecnológicos ocorridos nos últimos 100 anos, os currículos das disciplinas científicas e a forma como são seguidos pouco mudaram. É um grande desafio para os professores de Física, Química e Biologia tornar as aulas e o conteúdo mais atraentes para alunos que, muito frequentemente, se perguntam por que precisam aprender tudo aquilo. 
A importância da contextualização e interdisciplinaridade para a aprendizagem tem sido enfatizada como uma das formas de promover o envolvimento dos estudantes. Materiais baseados na História e Filosofia da Ciência podem funcionar como elementos de contexto possíveis ao revelar que a ciência está intrinsecamente ligados aos contextos social, filosófico e econômico, entre outros. Outro aspecto favorável é também mostrar como o conhecimento científico é construído, validado e aceito, ou seja ensinar sobre a natureza da ciência. Esta abordagem foi fortemente influenciada pelo movimento Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente a partir da década de 1990, afetando a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e das diretrizes curriculares de vários estados. 
A História e a Filosofia da Ciência podem facilitar o aprendizado do conteúdo científicos e permite acrescentar os métodos utilizados pelos cientistas para desenvolver novas teorias e também como as idéias são aceitas pela comunidade científica. A construção do conhecimento da Ciência é um processo complexo baseado na refutação e transformação de idéias aceitas previamente somadas ao desenvolvimento de novas. Sendo assim, a História da Ciência, esclarece que este processo é influenciado por fatores de natureza social, cultural, filosófica, econômica, tecnológica etc, mostrando que a ciência tem uma longa tradição de construção coletiva e que não está isenta de influências externas. 
Uma abordagem histórica também favorece a compreensão de conceitos científicos tidos como difíceis ou muito abstratos, já que os estudantes poderão entender suas dificuldades e como elas foram enfrentadas por cientistas do passado. Os estudantes possuem concepções a respeito da natureza que, muitas vezes, diferem do conhecimento científico atual. Em alguns casos,a s concepções dos estudantes estão muito próximas de explicações que foram aceitas no passado. Deste ponto de vista a História da Ciência é um instrumento importante para a promoção da tomada de consciência dessas concepções por parte dos alunos, além de introduzir um componente instigante nas aulas, que é o debate acerca da construção de conceitos e dos equívocos e contradições dos cientistas. 
Apesar de seus potenciais benefícios, no Brasil, bem como em outros países do mundo, a aproximação entre História da Ciência e ensino geralmente ocorre de forma superficial e equivocada, enfatizando os aspectos caricaturais dos cientistas, reforçando a idéia da existência de “gênios”, reduzindo a história a nomes e datas e, consequentemente, transmitindo uma visão errada sobre o método científico. 
Há uma tendência a se concentrar em “histórias anedóticas”, presentes em livros didáticos e no imaginário popular que não encontram o menor embasamento histórico, como por exemplo, Arquimedes e a banheira, Newton e a maçã, entre outras. A ciência é produto do contexto histórico e social em que está inserida. Ela é um empreendimento humano, e assim deve ser vista. Ao contrário disso, nossos alunos tendem a percebê-la como um empreendimento exclusivo de mentes geniais e pessoas muito diferentes e distantes deles. Portanto, contextualizar multidisciplinarmente a história do conteúdo a ser lecionado ajuda o aluno a entender a relevância do que ele precisa aprender, fazendo da História e Filosofia da Ciência um instrumento extremamente útil para a compreensão, por parte de alunos e professores, da própria natureza da ciência.

Adaptado de artigo publicado na revista Carta na Escola N º54 (março de 2011)

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