Escritores Cientistas

Revelação de que Machado de Assis antecipou a descrição de uma doença mostra a literatura tão inserida na cultura que prevê as descobertas mais sugestivas da ciência

Daniel Martins de Barros e Geraldo Busatto Filho publicaram na revista médica British Journal of Psychiatry que o conto "O Anjo Rafael" de Machado de Assis (1839-1908) antecipou em dezoito anos a descrição de um distúrbio psíquico, a “folie à deux” (loucura a dois). Descoberta pelos psiquiatras franceses Jean Pierre Falret e Ernest-Charles Lasègue em 1887, a psicopatologia leva parentes (ou gente muito próxima) de pessoas com sintomas psicóticos a sofrerem, por convivência, “contágio” do mesmo problema mental.

"O sintoma básico é a transmissão de uma crença delirante para uma pessoa saudável (que, por isso, se torna delirante): isso aparece nos diálogos em que a personagem Celestina defende a ideia de o pai ser um anjo; o quadro é reversível, o que também Machado antecipou, já que ela se cura com o afastamento do pai" – diz Barros, que atua no Núcleo de Psiquiatria Forense, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da USP.
O caso de Machado não é isolado. Escritores das mais diferentes estirpes, gêneros e nacionalidades rivalizam com seus colegas de ficção científica e fazem antecipações dignas de Júlio Verne (1828-1905). Relatos realistas, fantasiosos ou alegóricos podem trazer surpresas aos cientistas de hoje. Ou o que dizer da primeira descrição de epilepsia do lobo temporal feita pelo romancista russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Em O idiota, de 1869, o escritor (ele mesmo vítima da doença) descreve com detalhes o estágio marcado pelo êxtase que antecede a crise epilética. Só em 1898 o inglês Hughlings Jackson associou ataques automáticos e amnésia com distúrbios na região temporal do cérebro humano.
Atribui-se a uma passagem de As viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (1667-1745), a primeira descrição da Doença de Alzheimer. Numa das ilhas que o protagonista visita há seres que não morrem. O que inicialmente o viajante toma por benção revela-se maldição: as pessoas seguem envelhecendo, perdendo funções, reduzindo a vitalidade, sem ter o alívio final da morte. A doença degenerativa seria descrita apenas em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer.
"A descrição do envelhecimento feita pelo livro é característica de um quadro demencial. A narrativa do início do processo, particularmente no que se refere às capacidades cognitivas, assemelha-se bastante à demência que anos mais tarde vitimaria o próprio Swift "– conta Barros.
"Os escritores conseguem olhar o mundo e refleti-lo nas suas obras, e muitas vezes nesse processo, sem saber, transcrevem para o livro elementos que os olhos técnicos ainda não haviam captado" – avalia Daniel Barros.
Charles Dickens (1812-1870) faz um dos personagens de As aventuras do sr. Pickwick ser marcado por sonolência diurna e obesidade. Na história, o comilão Joe Gorducho integra o grupo de quatro rapazes liderados pelo protagonista Samuel Pickwick, que se mete numa aventura por Londres em busca de descobertas científicas e humanas. Sua descrição é a definição integral do quadro clínico da apneia noturna (deixar de respirar durante o sono) por obesidade, associada à sonolência diurna, que só no início do século XX viria a ganhar o nome de “síndrome de obesidade e hipoventilação alveolar”. Para os íntimos, “síndrome de Pickwick”.
O paralelo da doença com o romance de Dickens foi feito pela primeira vez por sir William Osler, em The principles and practice of medicine (1905). Mas só em 1956 a equipe de C. S. Burwell classificou a descrição de Dickens como precisa o suficiente para reunir num só rótulo todos os sintomas da doença: não só os episódios de apneia durante o sono – o rubor facial de Joe Gorducho, por exemplo, “bate” com a politecmia provocada pela diminuição de oxigênio. Burwell foi quem popularizou o termo “pickwickiano” na medicina.
O nome mais conhecido de outra doença, também chamada de “síndrome de Todd”, rende tributo a Alice no país das maravilhas. A desordem neurológica afeta a percepção e é caracterizada por despersonalização e alucinações associadas a enxaquecas, tumores cerebrais ou uso de alucinógenos. A “síndrome de Alice” é doença rara e tributo aos relatos de Lewis Carroll (1832-1898). O psiquiatra inglês John Todd, que batizou a síndrome em 1955, defendeu a homenagem ao autor de sua infância usando como evidência passagens de Alice no país das maravilhas (1865) e Alice através dos espelhos (1872). Há quem acredite que Carroll tinha familiaridade com o problema, que, na sua época, ainda não estava descrito pela medicina.
Marcel Proust (1871-1922) anteviu descobertas científicas sobre a memória. A memória não é um reservatório, constatou o escritor de Em busca do tempo perdido, obra publicada entre 1913 e 1927 em sete volumes. A mordida num biscoito madeleine e o aroma do chá catapulta o autor à infância, mas à infância degustada (afetada) por aquele chá. As lembranças se tornam mais e mais suspeitas à medida que o tempo avança. Assim que terminamos uma ação, começamos a distorcer a memória para encaixá-la em nossa narrativa pessoal. Buscar o tempo perdido é, portanto, impossível, pois não há armazém de recordações intactas.
Um conjunto de experiências realizadas com ratos, em 2000, na Universidade de Nova York, por Karim Nades, Glenn Shafe e Joseph LeDoux confirmaram a ideia proustiana de que o ato de lembrar também altera a pessoa. As experiências de laboratório evidenciaram que a memória é um processo contínuo, que nunca para de alterar as recordações, tal qual o protagonista do romance proustiano.
A literatura evidencia que a ciência não é a maneira exclusiva de acesso e representação da experiência. A ciência confirma suspeitas e certezas imaginárias. Talvez a atividade humana mais pura tenha sempre algo de outro campo. Ao explorar a própria experiência, os escritores expressam o que nenhum experimento capta e mantêm em suas linhas as revelações que tendem a guiar os diferentes rumos da ciência.

Sobre matéria publicada na revista Metáfora (setembro de 2011)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Mariposa da Morte

Tecnologia Indígena

A Importância Ecológica das Baratas