O Respeitável Mundo das Plantas

Assim como nós, humanos, e os demais animais, as plantas são seres vivos complexos que lutam pela sobrevivência. Mas por que é tão difícil incluí-las na esfera moral?



Segundo os botânicos norte-americanos Elisabeth Schussler e James Wandersee, sofremos de plant blindness, algo como "daltonismo de plantas". Trata-se da incapacidade de enxergá-las como parte importante e fundamental da biosfera, tornando-as inferiores aos animais e desmerecedoras da consideração humana. A principal hipótese para o fenômeno é que humanos tendem a prestar menos atenção nas plantas devido às diferenças em sua distribuição espacial, movimentação, coloração e percepção de perigo, além de pouca familiaridade com elas. "Os animais estão mais próximos dos humanos e podemos ver algumas das nossas características neles. Isso não ocorre com as plantas". argumenta o biólogo Matthew Hall, do Jardim Botânico Real de Edimburgo, no Reino Unido, autor do livro Plants As Persons: A Philosophical Botany (Plantas Como Pessoas: Uma Botânica Filosófica).
Sim, elas são muito diferentes de nós, a começar por suas prioridades na vida. O botânico Francis Hallé, que também estuda o comportamento humano em relação a plantas, argumenta que prestamos pouca atenção a elas por vivermos em sociedades zoocêntricas ou antropocêntricas. Identificamo-nos com os animais, uma vez que as plantas parecem viver alheias a nossa realidade. Pensando desse modo, o cientista francês acha que o caminho para reverter tal situação é aumentar o conhecimento acerca da fisiologia das plantas, enfatizando como elas são totalmente diferentes dos humanos e do resto dos animais e que, por isso, merecem admiração e respeito.
O argumento mais comum do porquê de as plantas não serem incluídas no pensamento moral é que elas não são sencientes, capazes de sentir. Tendo isso em vista, vários cientistas tentaram provar a senciência das plantas e até mesmo suas propriedades paranormais. O pioneiro foi o indiano Jagadish Chandra Bose (1858-1937), cujos experimentos mostraram que as plantas crescem mais rapidamente ao som de música calma e mais devagar quando expostas a ruídos. Ele também estudou como as estações do ano e estímulos químicos influenciavam as plantas. A partir da análise da variação da membrana celular das plantas em situações diferentes, advertiu que os vegetais podiam sentir dor e entender o afeto.
Cada vez mais, os estudos em botânica evidenciam comportamentos "inteligentes" em plantas, mostrando que elas estão longe da antiga concepção de serem seres com respostas simples a estímulos. Por sua complexidade de desenvolvimento, alguns autores, como Anthony Trewavas, do Instituto de Biologia Celular e Molecular da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, lhes atribuem o adjetivo "inteligente". "Elas são autônomas. Percebem seu ambiente e interagem inteligentemente com ele. Vivem de forma ativa e são fundamentais para a sobrevivência humana.
Richard Firn, do Departamento de Biologia da Universidade de York, no Reino Unido, critica a comparação entre as habilidades das plantas e as dos animais. Para ele, essa associação deveria ser feita entre espécies de vegetais e não entre organismos distintos. Além disso, a atribuição de características animalescas e humanas pode ter sentido distorcido quando dirigida às plantas. Uma de suas críticas é contra a afirmação de que as plantas são inteligentes. Em seu ponto de vista, o conceito de inteligência popularmente aceito se refere à mentalidade, à razão e ao poder de escolha. Ao usar essa nomenclatura, com outra definição implícita, causa-se um ruído na comunicação. Trewavas usa o conceito de inteligência proposto por David Stenhouse, que remete à capacidade de ser flexível e se adaptar ao meio durante a vida, uma denotação que pode se adequar às plantas.
Firn defende que faltam termos de linguagem que especifiquem corretamente o que as plantas fazem. Como estamos limitados à língua, fazemos associações indevidas. "Se novas palavras são necessárias para descrever como as plantas vivem, então, talvez devêssemos inventar novos termos em vez de tentar redefinir os já existentes", escreve em Plant Intelligence: an Alternative Point of View.
Independentemente da nomenclatura e do desenvolvimento das pesquisas biológicas no futuro, as plantas são seres mais complexos e mais flexíveis do que imaginamos. Elas têm mecanismos sábios para lidar com predadores e conseguir nutrientes. Uma vez que não podemos viver sem matá-las, já que nos são essenciais, Hall propõe que pensemos sobre nossa responsabilidade com elas.
O objetivo é diminuir os maus-tratos e a matança desnecessária, que destrói hábitats e põe em risco não só a flora, mas a fauna. "Para mim, é preciso haver respeito e responsabilidade sobre a vida das plantas. Evitar atitudes que possam causar mais desmatamento. Planejar melhor nossos sistemas de produção de alimento. Talvez não seja necessária tanta destruição. A agricultura gera grande impacto na vida das plantas e, consequentemente, na saúde dos hábitats que sustentam a nossa vida", reflete Hall.
Veja também no Biorritmo: Investigando a vida secreta das plantas (23/11/2010)
Fonte: Revista Planeta ed.469 (adaptado)

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