Conhecendo as Psicodermatoses

Ninguém está imune às psicodermatoses, os distúrbios cutâneos associados a transtornos psíquicos. No mundo todo, essas doenças afetam 200 milhões de homens e mulheres de todas as raças e idades.

Vitiligo e psoríase embora tenham sintomas e tratamentos diferentes, são duas doenças que ainda não têm cura e fazem parte das psicodermatoses, afecções na pele, nas unhas e no couro cabeludo desencadeadas por fatores emocionais e psicológicos. "Na realidade, o termo psicodermatose é apenas a maneira de expressar as relações entre a pele e os mecanismos psíquicos", diz a dermatologista Luciana Conrado, mestre em dermatologia pela Faculdade de Medicina da USP. Dentro desse conceito, psicodermatoses são todas as doenças dermatológicas conhecidas que pioram com o estresse emocional. "Além do emocional, também o meio ambiente e a herança genética são fatores que contribuem para o surgimento das doenças", acrescenta a médica e psicanalista Soraya Hissa de Carvalho, de Belo Horizonte.

Embora não existam estatísticas mais precisas, os dermatologistas estimam que 3% da população mundial, mais de 200 milhões de pessoas, é portadora de psicodermatoses. No Brasil, dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia indicam que a cada três pacientes que apresentam um problema de pele, um deles possui problemas emocionais, como depressão, ansiedade e estresse, que explicam o distúrbio.
"As preocupações, os pensamentos e tudo aquilo que se passa na mente se reflete na pele, já que as terminações nervosas informam a ela o que acontece na mente", explica Luciana. Essa relação ficou mais evidente a partir do desenvolvimento da psiconeuroimunologia, na década de 1970, e da descoberta dos neuropeptídeos, as proteínas responsáveis pela comunicação entre o sistema nervoso central (cérebro) e a periferia (pele). "A pele e o sistema nervoso derivam do ectoderma, a camada mais externa das células embrionárias. Por isso, se a pessoa tiver predisposição genética, qualquer situação de estresse pode desencadear reações como acne, psoríase e vitiligo", completa Soraya.
Na prática, a teoria é simples: como a pele é o maior órgão do corpo humano, a sua primeira barreira de defesa, e está conectada aos pensamentos, as situações de constante estresse, pressão, tensão ou ansiedade podem causar problemas mais graves, cujos sintomas psicocutâneos incluem coceira (prurido), manchas, ressecamento e descamação. "A coceira, por exemplo, é uma sensação subjetiva e também está relacionada a múltiplos fatores emocionais, psicológicos e neurológicos", ensina a dermatologista.
As consequências dos sintomas psicocutâneos, porém, vão além da superfície da pele, afetando a vida social da pessoa. Como são visíveis e todos podem vê-los, causam reações imediatas no ambiente e no cotidiano do paciente. Em seu dia a dia, são frequentes as perguntas incômodas das pessoas de seu convívio sobre a sua doença, assim como os constrangimentos por ter de respondê-las - na maioria das vezes, as psicodermatoses são confundidas com falta de higiene, sujeira e com algo contagioso. Tudo isso acaba interferindo na comunicação tátil e na interação corporal e sexual do paciente.
"É comum que essa pessoa tenha a sua autoestima abalada e sinta-se ainda mais insegura, retraindo-se e isolando-se socialmente", afirma Luciana. Para piorar a situação, essas novas emoções negativas tendem a agravar mais o problema porque criam um círculo vicioso: os pensamentos borbulham na mente e fazem surgir novas lesões na pele. O paciente interage com as lesões, complicando o seu quadro. "Como o curso das psicodermatoses está diretamente relacionado aos fatores emocionais vivenciados por ele, podem ocorrer períodos de melhorias e pioras em seu quadro clínico, dependendo de seu estado emocional", comenta a dermatologista.
Os remédios por via oral ou para uso tópico (loções, cremes e pomadas) são uma medida paliativa para combater as psicodermatoses. Em um primeiro momento, dão alívio imediato e ajudam o paciente a sair do círculo vicioso no qual o isolamento causa tristeza, que gera estresse, que debilita o sistema imunológico e torna o doente ainda mais suscetível às crises. Em longo prazo, porém, as doenças de pele requerem tratamentos mais prolongados e que não se restringem somente a consultas a dermatologistas e ao uso de fármacos, mas incluem também a mudança de hábitos e comportamentos.
O primeiro passo para prevenir e tratar as psicodermatoses passa necessariamente pela mente. Nela, a pessoa tem de desenvolver um processo de defesa contra as emoções prejudiciais à saúde da pele. "É importante que o paciente tenha consciência dos fatores que desencadeiam ou pioram a sua doença, como o estresse, o sol, a depressão e as bebidas alcoólicas, mas que não se sinta culpado por ter a doença, porque às vezes não é possível saber e identificar esses fatores", esclarece Luciana.
Embora as duas especialistas sejam unânimes quanto à importância de o tratamento das psicodermatoses não ser feito só à base de medicamentos, muitas pessoas são refratárias às terapias, recusando-se a participar de sessões individuais ou de grupos. Para essas, as alternativas de tratamento são o relaxamento, a massagem, os exercícios físicos e a acupuntura. "Se o paciente se sente confortável para se submeter a um atendimento psicológico, ótimo. Caso contrário, poderá lançar mão de outras técnicas para melhorar ou controlar o estresse, como praticar ioga, meditação e fazer exercícios físicos", aconselha Luciana.
Adotar hábitos mais saudáveis e encarar de modo positivo a vida e a s dificuldades do dia a dia são, de fato, fórmulas bastante eficazes para se tornar imune a essas doenças e também para espaçar as crises daqueles que já são vítimas delas. Soraya, porém, considera essas iniciativas insuficientes. Quando a saúde mental está debilitada, ocorrem manifestações no corpo, portanto o tratamento das psicodermatoses somente será eficiente se houver acompanhamento psicológico, que trata a causa e não apenas alivia os sintomas. "As sessões vão ajudar a pessoa a compreender as suas emoções e a se conhecer melhor, aprendendo a conviver e a aceitar as suas limitações. Mas o tratamento sempre será em conjunto com o dermatologista", ressalta a especialista.

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