Revisitando a Biblioteca de Babel de Borges


Até o início dos anos 70, o modelo que tínhamos do genoma humano era de um lugar bem organizado, mais ou menos estático, onde cada gene tinha um local correto e preordenado pela sua função. Atualmente, a imagem que mais se aproxima do genoma humano é a da biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges


Jorge Luis Borges (1899-1986), escritor argentino de vanguarda, foi um dos maiores representantes do realismo fantástico no mundo. Seu conto A Biblioteca de Babel, publicado no livro Ficções, de 1944, lançado no Brasil pela Editora Globo, pode servir de representação premonitória da sociedade da informação da atualidade. Nesse conto, Borges pede que imaginemos uma biblioteca gigantesca que contivesse todos os livros possíveis, ou seja, um repositório de todas as combinações possíveis de letras, sinais e pontuação e espaços da língua inglesa. Espalhados  por toda essa vasta biblioteca de possibilidades colossais haveriam livros que fariam sentido - todos os livros escritos e todos os que ainda seriam escritos. Ao redor desses livros interessantes, e estendendo-se em todas as direções  em estantes com o formato de colméias, haveria milhares de "quase-livros", livros que seriam quase iguais entre si, a não ser pela transposição de uma palavra, pela falta de uma vírgula. Os livros  mias próximos do original seriam apenas ligeiramente diferentes mas, à medida que você fosse se afastando, o conteúdo do livro degeneraria em mero palavreado.

O geneticista Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas gerais (UFMG) em seu livro "À flor da pele- reflexões de um geneticista" ( Editora Vieira & Lente, 2007) utiliza a alegoria da biblioteca de Babel de Borges para tentar descrever como está estruturado o genoma humano depois das descobertas do Projeto Genoma Humano (PGH). No livro, ele faz um espécie de joguinho de palavras com o texto do escritor argentino com os conhecimentos adquiridos sobre a molécula de DNA e o nosso genoma após o sequenciamento do genoma humano. Veja o resultado: 
“Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito. No vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências.”

- “... há letras no dorso de cada livro; essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas.”
- “... para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências.”
- “... quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por dialetal ou rudimentar que seja.”
- “... cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que apenas diferem por uma letra ou por uma vírgula.”
- “Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa exceção.”
- “A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.”
Segundo o artigo de Johnny Virgil, intitulado "A Biblioteca de Babel: uma metáfora para a sociedade de informação", podemos fazer as seguintes considerações a respeito desse conto de Borges. "A Biblioteca de Babel apresenta um retrato da sociedade da informação (e não apenas do ciberespaço) sob vários aspectos. Primeiro aspecto (os hexágonos): A sociedade da informação se estrutura em rede, com ligações que apontam infinitamente para outros conectores, numa forma de comunicação de todos para todos. A possibilidade de se efetuarem conexões com todos os pontos da rede, contudo, não permite que se tenha uma visão geral do contexto que a rede assume.", diz o artigo.
E acrescenta: "Segundo aspecto (a biblioteca): A sociedade da informação é a cultura do virtual. A virtualidade desempenha um papel importantíssimo, uma vez que é responsável pela criação de uma supra-realidade que quebra duas limitações existentes no passado: o espaço e o tempo. Obviamente, a superação dessas duas barreiras cria a mobilidade, uma forma ágil de preservar-se contra o que se constitui uma ameaça. No entanto, a mobilidade só tem valor quando se tem poder sobre os estoques de informação.
Terceiro aspecto (os livros): A sociedade da informação é um grande estoque de informações. Essas informações funcionam como uma extensão da memória, levando poder a quem sabe encontrá-las e a quem mantém uma maior proximidade das que possuem real importância.
Quarto aspecto (o conteúdo dos livros): A sociedade da informação é alienante. Existe uma tendência natural à utilização de metalinguagens para configurar metainformações. Toda forma de criptografia ou de regras não claras e definidas se revela uma maneira perversa de dominação. A tecnologia também atua como meio condicionante.
Quinto aspecto (a desordem): A sociedade da informação é cíclica: um ciclo vicioso, perverso. Por meio do endeusamento da virtualidade, talvez já não exista o livre-arbítrio: o jogo seduz. A ordem dominante não se apresenta claramente, pois o objetivo é manter-se indiretamente imiscuída em tudo, vigiando e controlando sem que execute uma interferência dirigida.
Por fim, a sociedade da informação busca uma outra sociedade da informação. Aquela que vemos já não é motivo de esperança, e é a esperança que dá sentido à seqüência das vidas, dos muitos séculos: a Ordem da salvação. Será esta uma outra metáfora? ", indaga o autor.

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