Centenas de Golfinhos Morreram e (Quase) Ninguém Ficou Sabendo

Autoridades do Peru investigam causa da morte de 877 golfinhos ocorrida no início de 2012. Na mesma região morreram 500 pelicanos. O fenômeno seria consequência da exploração de petróleo na costa do país.


Em sua coluna de junho na Ciência Hoje On-Line, Jean Remy Guimarães, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)  revela um fato que passou praticamente em branco pelo noticiário internacional: o súbito aparecimento de centenas de golfinhos mortos no litoral do Peru no verão passado 
O colunista precisou viajar ao Peru, em maio passado, para saber, pela imprensa local, que cerca de mil cadáveres de golfinhos apareceram no litoral daquele país nos primeiros meses de 2012. Os técnicos da ONG peruana Organización Científica para Conservación de Animales Acuáticos (Orca) estimam que ao longo do verão 2011-2012 o total de golfinhos mortos chegou a 3 mil.
"Talvez seja coincidência, mas todos esses registros de golfinhos mortos ocorreram no litoral norte do Peru, onde se concentram as atividades de prospecção e exploração petrolífera marinha naquele país.O aparecimento de algumas dezenas de golfinhos mortos seja lá onde for costuma ser notícia global, com especulações sobre as causas do fenômeno, que podem ser muitas: epidemia de vírus ou bactéria, intoxicação por metal pesado, óleo ou cianotoxina, inanição, desorientação devida a alterações eletromagnéticas, entre outras. O caso relatado, apesar da dimensão inédita, não foi mencionado em nossa grande imprensa e – que eu saiba – em nenhuma outra."diz  o biólogo e professor Jean Remy.
Como eu sou muito ligado em assuntos de ciência, fiquei sabendo desse caso através de portais renomados da internet. No dia 20 de abril de 2012, o portal de notícias do  Terra noticiou a morte dos golfinhos com a seguinte manchete: "Autoridades do Peru investigam a causa da morte de 877 golfinhos". No dia 30/04, o portal iG noticiou, via BBC Brasil , a morte de pelicanos na mesma localidade com a manchete: "Governo peruano investiga a morte de 500 pelicanos em sua  costa". Já no dia 08 de maio, o portal IG noticiou, via AFP: "Aquecimento da água pode ser a causa da morte de animais no Peru". Todas essa manchetes foram repercutidas através do meu twitter (@profjabiorritmo) nas datas mencionadas
O Instituto del Mar del Perú (Imarpe), órgão do governo peruano, declarou que a mortalidade em massa de golfinhos não se devia a qualquer das causas apontadas acima nem à asfixia em rede de pesca, colisão ou falta de alimento. Em relatório, o Imarpe menciona o total de 877 golfinhos mortos desde fevereiro. Devido ao estado de decomposição dos animais, 42 exemplares foram revisados de forma geral e apenas dois exemplares submetidos a autópsia, diz o documento analisado pelo colunista.
Em sua matéria na CH On-Line,  intitulada "Ruído e silêncio", Jean Remy procura esclarecer as causas da mortalidade em massa dos golfinhos. Diz o pesquisador: "As evidências mostram que as mortes ocorreram em um lapso de 2 a 3 dias, sugerindo um agente causal que atua de forma aguda, causando morte rápida. Apesar da magra amostragem, o Imarpe apressou-se em afirmar que não havia evidências científicas que permitissem associar a mortandade de animais aos testes acústicos realizados de forma rotineira pela indústria petrolífera no litoral norte do país.
A confusão aumentou com o aparecimento de centenas de pelicanos mortos nas mesmas áreas do litoral e também nos primeiros meses do ano. Dessa vez, a causa mortis era clara: fome. Não havia nenhum alimento no estômago ou intestino das infelizes aves marinhas, fato atribuído ao aumento da temperatura do mar e à consequente migração de peixes, que são o sustento dos pelicanos. Ninguém explicou por que os golfinhos conseguiam achar alguma comida e os pelicanos não.
O festival de versões oficiais desencontradas que se seguiu à divulgação do relatório do Imarpe incluía a seleção natural como causa da morte dos golfinhos, embora nenhum porta-voz tenha arriscado explicar por que esse poderoso agente agiria de forma tão aguda e seletiva.
Na tentativa de pôr fim às especulações, o diretor científico do Imarpe, Raúl Castillo Rojas, declarou que análises feitas em amostras dos golfinhos mortos no Centro de Mamíferos Marinhos dos Estados Unidos indicaram a presença de um vírus, Morbilivirus, que se pareceria com o distemper canino. Mas esse centro de pesquisa, procurado por duas redes de televisão peruanas, disse desconhecer qualquer pedido de análise feito pelo Imarpe. Apesar disso, o Dr. Rojas continua no posto de diretor científico da instituição
O veterinário Carlos Yaipén-Llanos, diretor da ONG Orca, tem uma versão bem diferente. Segundo ele, a morte por Morbilivirus produz líquidos nos tecidos e não gases; e os exames histopatológicos realizados pela ONG em cadáveres dos golfinhos revelaram a presença de bolhas de ar em órgãos como fígado, rim e vasos sanguíneos, hemorragia no ouvido médio, fraturas nos ossos perióticos e enfisema pulmonar disseminado, entre outras evidências da chamada síndrome de descompressão, causada por impacto sonoro, agudo e fatal.
Ainda segundo a ONG, o impacto acústico é causado pelo uso de sonares de profundidade, muitas vezes de ar comprimido, na prospecção de petróleo no mar. As frequências sonoras usadas variam segundo as características físicas (profundidade, relevo) e oceanográficas da zona em exploração.
O princípio – emissão de som e captação do seu eco – é o mesmo usado por golfinhos, morcegos e outros animais para comunicação e orientação. No caso dos golfinhos, as características do eco, como tempo de retorno e grau de atenuação, trazem informações para localizar cardumes de peixes, indicar a presença de obstáculos ou massa d’água com densidade diferente daquela em que o animal está etc.
Curiosamente, ninguém se lembrou de perguntar às empresas petrolíferas que atuam no país se elas realizaram testes acústicos na região no período em que ocorreu a mortandade em massa de golfinhos. Elas também não vieram a público espontaneamente para comentar o caso, e o governo local se encarregou de eximi-las.O princípio do sonar explicaria por que nem todos os organismos marinhos ao alcance da ‘bolsa acústica’ são prejudicados; só os que emitem ou recebem sons naquela faixa de frequência seriam afetados por problemas como desorientação, hemorragia interna, destruição do ouvido interno e das mandíbulas, descompressão respiratória, presença de bolhas de ar em órgãos internos, derrame cerebral e morte. Ainda bem que todo esse processo ocorre em um período de tempo relativamente curto, pois a dor deve ser intensa".
Jean Remy conclui dizendo: "O episódio sugere cumplicidade entre governo e empresas, numa circunstância em que a ciência oficial é amordaçada ou convocada a emitir laudos suspeitos e convenientes. Ficaremos sem saber se é possível fazer testes acústicos em frequências que não detonem o tímpano de mamíferos marinhos carismáticos como golfinhos e baleias".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Mariposa da Morte

Tecnologia Indígena

Sensibilidade e Especificidade