A Saúde Pública no Brasil Colonial

A vida e a saúde nas cidades coloniais estavam muito distantes do paraíso tropical imaginado pelos europeus. A gravura de Giulio Bonasone, "Apóstolo São Paulo Afugentando Demônios", reflete como era vista a exótica colônia.

Cristina Brandt Friedrich Martin Gurgel professora de Clínica Médica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autora do livro "Doenças e Curas. O Brasil dos Primeiros Séculos" (Contexto, 2010) escreveu um artigo na Revista de História do Museu Nacional (edição nº83) o qual retrata muito bem as condições de saúde pública nas cidades brasileiras durante o Período Colonial. Sob o título de "Quentes, doentias e sujas", a autora resume o cenário encontrado pelos colonizadores lusitanos que para cá vieram, uma visão muito diferente do paraíso tropical imaginado pelos europeus.Veja o que diz a professora Cristina Gurgel sobre a vida e a saúde das nossas cidades coloniais.
"A paradisíaca visão inicial dos europeus sobre os trópicos, explicitada por Sérgio Buarque de Holanda em Visão do Paraíso, logo sucumbiu à dura realidade do dia-a-dia, e os colonizadores não demoraram a perceber isso. Havia o calor e a distância dos grandes centros comerciais. Isso dificultava, por exemplo,a aquisição de bens de consumo, já que o transporte marítimo era irregular e descontínuo. Produtos simples, que facilitassem a vida ou proporcionassem pequenos prazeres, como roupas, sapatos, farinha de trigo e vinhos, estavam praticamente fora de alcance. Além disso, mal as aglomerações urbanas começaram a surgir,tiveram que enfrentar os primeiros surtos de doenças contagiosas.
Diante do desconforto, da difícil adaptação ao clima e do aparecimento de epidemias que arrasavam a população, a salubridade das paragens brasileiras começou a ser duramente questionada. Os viajantes e jesuítas que propagavam a ideia dos “bons ares”da nova terra e recomendavam aos doentes de além-mar que atravessassem o Atlântico para aqui se tratarem foram desacreditados. Com o passar dos anos, poucos concordavam com as recomendações do padre Anchieta, que afirmava ter sido curado de uma séria enfermidade pelos bons ares e pelo clima ameno da nova terra. O dia a dia mostrava-se diferente. Não sabiam os colonizadores e seus descendentes que eram eles próprios os responsáveis por muitas das doenças que os assolavam, como tuberculose, sarampo e varíola.
A pequena população urbana brasileira vivia em vilas e cidades acanhadas. As moradias serviam apenas como abrigo contra as intempéries, em local defensável contra uma possível invasão inimiga – índios, piratas, franceses, ingleses ou holandeses. No início, os espaços urbanos localizavam-se perto da costa e possivelmente não abrigavam mais de 40 colonos – o número de famílias era contabilizado pelos “fogos” que ardiam na cozinha de suas casas.
Braços escravos levantaram as casas, igrejas, edifícios públicos e muros das povoações coloniais. Diante de uma natureza desconhecida e hostil, os nomes de santos dos nascentes núcleos urbanos serviam para afastar seus demônios e cristianizar a paisagem. São Paulo era descrita no século XVII como uma vila de duas centenas de fogos, formada por prédios acanhados e alcovas restritas, com pouco asseio nas ruas e quintais e nenhum sistema de esgoto ou água encanada.
Em termos de salubridade, São Paulo, naquele século, não era diferente de outros núcleos urbanos brasileiros e sequer de Lisboa, onde por muito tempo persistiu um modo peculiar de livrar-se das fezes e da urina: lançavam-nas pelas portas e janelas.Para evitar que transeuntes fossem atingidos por tão desagradável carga, foi elaborado um decreto que obrigava o cidadão a gritar “água vai!” ao atirar os excrementos às ruas. No Brasil, os dejetos humanos eram carregados e jogados diretamente nas águas do mar ou nos rios por cativos – os “tigres”, escravos com pele listrada pela acidez dos detritos que lhes escorriam pelas costas através da palha dos cestos. Até hoje, em São Luís do Maranhão, o povo perpetuou o nome de “Beco da Bosta”, um antigo trajeto usado pelos escravos para jogar as fezes e a urina de seus senhores no mar.
Uma maneira mais engenhosa de higienização urbana foi posta em prática em Paraty, no atual estado do Rio de Janeiro. Elevada à categoria de vila em 1667, suas ruas, mais baixas em relação às casas, foram traçadas obedecendo às normas coloniais. Todas as vias são côncavas, formando uma canaleta central que se direciona para o mar, o que permite a invasão das águas nas marés altas. Com o baixar das águas, todos os detritos eram levados para o mar. Mas, em geral, os núcleos urbanos aguardavam as chuvas para sua limpeza, e diante da imundície que se acumulava, as doenças infectocontagiosas tinham um lugar ideal para sua disseminação.
A expectativa de vida destas populações era baixa, condenada tanto pelas condições adversas do meio quanto por uma medicina ausente ou ineficaz. Johan Nieuhof (1618-1672), um funcionário da Companhia das Índias Ocidentais holandesa que viveu no Nordeste entre 1640 e 1649, ali testemunhou índices de sobrevida alarmantes entre filhos de estrangeiros: apenas uma de três crianças nascidas vivas conseguia sobreviver.
Cidades como Salvador, de construção planejada, tinham espaços limitados, murados, o que fazia com que a população, apesar de pequena, vivesse aglomerada. Os poucos cuidados com as edificações limitavam-se àexposição aos ventos e à umidade, que poderiam tornar a saúde mais frágil.Apesar desses cuidados, frequentementeapareciam nos espaços urbanos casos de “icterícias” – leptospirose? hepatite? malária? –, uma praga que se espalhava nos meses chuvosos, de tal maneira que suas vítimas assumiam um assustador aspecto macilento e cadavérico. Muitos morriam, alguns tão rapidamente que sequer havia tempo para receberem os últimos sacramentos.
Distúrbios gastrointestinais eram comuns, como as “câmaras de sangue” (disenterias sanguinolentas), doenças oculares como uma “meia-cegueira” (conjuntivites comuns ou específicas) –que acometia principalmente soldados e pobres de origem europeia– e afecções de pele. Sobre a hanseníase, até meados do século XVII há poucas referências nas crônicas e documentos. Uma delas está nas notícias sobre a primeira área de isolamento de doentes conhecida no Brasil – o Campo de Lázaros, em Salvador (1640) – e sobre o projeto de um hospital próprio no Rio de Janeiro. Em contrapartida, alusões à doença tornam-se cada vez mais frequentes no século seguinte.
Mas o que de fato abalava a população era a ocorrência de uma grande epidemia. Gripe, sarampo, febre amarela e, em especial, a varíola periodicamente assolavam também os espaços rurais. A fragilidade da vida na Colônia tornava-se mais evidente: houve períodos de fome, pela falta de braços na agricultura; desestruturação social, principalmente indígena; falta de assistência médica e hospitalar e, sobretudo, a perda de vidas em um país com um já enorme vazio demográfico. No final do século XVI, o Rio de Janeiro tinha aproximadamente 1.000 moradores e nenhum médico formado.
Os Senados das Câmaras continuamente solicitavam ao poder central o envio de médicos, então denominados físicos. Mas, escassos em Portugal e diante das dificuldades impostas pela vida colonial, poucos se aventuraram no Brasil. Uma solução encontrada foi a contratação e o pagamento de profissionais pelo governo de Lisboa. Os salários não eram tentadores: durante o governo de Tomé de Souza (1549-1553), o físico Jorge Valadares tinha ordenado anual pago pela Coroa de 60 mil réis– um bispo recebia 200mil réis anuais. Para conseguirem se manter, os médicos exerciam mais de uma profissão, e suas atividades, devido à falta de moeda corrente, podiam ser pagas com panos, açúcar, galinhas, milho ou algodão.
Os físicos que vieram para o Brasil nos primeiros séculos da colonização não se destacaram em seus feitos. É raríssimo encontrar alguma obra escrita de valor, como a de Ferreira Rosa, que, como testemunha da primeira epidemia de febre amarela no país, foi imortalizado por seu Tratado Único de Constituição Pestilencial de Pernambuco, publicado em Lisboa em 1694. Na maioria das vezes, a qualidade do trabalho dos físicos era vista com desconfiança porque havia poucos resultados favoráveis da medicina oficial. Um dos exemplos está num pronunciamento do bispo do Grão Pará e Maranhão, frei Caetano Brandão, já no século XVIII: “É melhor tratar-se a gente com um tapuia do sertão, que observa com mais desembaraçado instinto, do que com um médico de Lisboa”.
Veja também no Biorritmo: O (Mau) Costume da Falta de Higiene (12/03/2011)
Fonte: Revista de História do Museu Nacional

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