O Ensino Médio do Século XXI

Ensino médio brasileiro precisa entrar no século XXI. Especialistas pregam expansão e reforma do ensino técnico e flexibilização da grade curricular para contornar fracasso do ciclo

Segundo o  julgamento da professora Maria Inês Fini, doutora em educação e idealizadora do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), "o ensino médio brasileiro é muito chato, uma colcha de retalhos que não leva conhecimento a quem deveria. O professor se sente impotente para ensinar e o aluno, para aprender." De acordo com os resultados do último Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)   o ensino médio brasileiro obteve em 2011 média de 3,7 em uma escala de 0 a 10, somado ao fato de que em cada cem estudantes que ingressaram no ciclo em 2008, 35 não chegaram a seu fim três anos: repetiram ou deixaram a escola. A revista Veja ouviu especialistas da educação e relatou a proposta deles para introduzir de vez o ensino médio no século XXI. Acompanhe alguns trechos da reportagem: 
"Na visão dos especialistas, o ensino médio brasileiro é, em suma, uma invenção do século XX que ainda teima em sobreviver nos nossos dias. Falta 'identidade' ao ciclo, dizem os estudiosos. Por lei, o estudante deveria sair dessa etapa do ensino preparado para o ingresso tanto no mercado de trabalho como na universidade. Mas, a exemplo do ciclo fundamental (em especial, o de escolas públicas), que não ensina a ler nem a fazer contas elementares, o médio não fornece ferramentas profissionais e intelectuais a contento a jovens expostos a um mundo cada vez mais competitivo e exigente. O cientista político Simon Schwartzman, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e autoridade em educação, afirma que o conteúdo apresentado hoje aos estudantes do ensino médio é calcado essencialmente naquilo que é cobrado pelo Enem e pelos vestibulares. 'Isso, é claro, é prejudicial para aqueles que não pretendem seguir para o ensino superior', diz Schwartzman.
Uma grade curricular 'engessada, rígida e antiquada' é outra receita infalível de fracasso. O formato desmotiva os estudantes, que, por volta dos 15 anos, já sentem florescer competências, preferências e sonhos – além, é claro, de incompatibilidades, aversões e pesadelos. Assim, apesar de cultivarem interesse por áreas específicas do conhecimento, ainda são obrigados a enfrentar um curso sem variações, cujo currículo é igualmente aplicado a todos. "São muitas áreas, e todas abordadas superficialmente. O aluno, então, aprende à base de memorização, repetindo o que o professor fala", diz Schwartzman. "Não surpreende que tantos desistam. É preciso oferecer algo que pareça e de fato seja útil a esse jovem.'
A amplitude da grade curricular citada por Schwartzman parece intimamente ligada à má qualidade de sua aplicação. Nas palavras de Ricardo Henriques, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a "quantidade de matérias obrigatórias culminou, ironicamente, na limitação do aprendizado". "Ao impedir que o aluno se aprofunde em uma área de seu interesse, restringe-se o horizonte dele", diz. "Vê-se que o ensino ainda está no século XIX."
O ensino técnico é uma estrada a ser alargada e estendida por todo o Brasil. É o consenso entre os especialistas. Mas a modalidade também precisa de mudanças, ou melhor, de atualização. Hoje, caso opte por essa modalidade, o estudante tem de cumprir toda a carga horária do ensino médio regular, além da mínima obrigatória da carreira escolhida. Na prática, significa que ele ficará ao menos um ano a mais na escola. É um desestímulo para os jovens, em particular, e para a economia, em geral. 'As duas modalidades, regular e técnica, deveriam ter a mesma duração. Se o jovem que opta pelo técnico tem um curso mais longo, essa deixa de ser uma alternativa', diz o colunista de VEJA Cláudio de Moura Castro, Ph.D em economia e referência no estudo do cenário educacional brasileiro. O resultado disso muitas vezes é que o jovem se lança ao mercado de trabalho sem a desejada qualificação técnica, com perdas evidentes para ele próprio e para o país.
O Brasil não vai reinventar a roda se promover as mudanças sugeridas no ensino médio. Na Grã-Bretanha, os estudantes do ciclo equivalente ao ensino médio brasileiro devem escolher no máximo cinco disciplinas, que já podem ser voltadas à área para a qual ele pretende se dedicar na universidades. Na Alemanha já a partir do sexto ano do ensino fundamental, os alunos devem optar por um de três modelos de escola. A decisão é tomada em conjunto por pais e professores, levando-se em conta também a trajetória escolar e as notas do aluno. Há instituições que oferecem formação profissionalizante e outras voltadas à progressão acadêmica.
A proposta do governo de agrupar as disciplinas em quatro grandes áreas (linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e matemática) não é considerado de toda ruim pelos especialisas. Tampouco é nova. Uma resolução de 26 de junho de 1998 já previa tal organização, mas a reforma nunca saiu do papel. E isso não ocorre à toa. 'Teoricamente, é uma boa ideia, mas cuja aplicação é difícil', diz Maria Helena de Castro, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e membro da Academia Brasileira de Educação. 'O professor polivalente pode ser uma solução, mas antes é preciso discutir como prepará-lo adequadamente.' Lapidar mestres, portanto, é fundamental. Mas ainda não apareceu nos planos do governo para colocar o ensino médio no século XXI.", diz a Veja.
Fonte: Revista Veja

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