A Pesquisadora Que Revolucionou a Agricultura no Brasil


Ao insistir na fixação de nitrogênio por bactérias, Johanna Döbereiner abriu os campos para a produção de soja, a grande estrela do agronegócio brasileiro.  Para defender seus pontos de vista, Johanna enfrentou embates e ceticismo. Convicta de que trilhava rota segura, manteve o rumo das pesquisas.


A agrônoma Johanna Döbereiner, nascida na antiga Tchecoslováquia, em 1924, e naturalizada brasileira em 1956, se tornou reconhecida mundialmente como autoridade em fixação de nitrogênio por bactérias - o que lhe valeu indicações para o Prêmio Nobel de Química. Johanna - a cientista brasileira de maior projeção internacional até hoje - nunca acreditou que viria a ser premiada pela Academia Sueca.  Também não se importava com dinheiro: "Nunca trabalhei para ficar famosa ou milionária", dizia.
Ela, que ainda é uma desconhecida para a quase totalidade dos brasileiros, viveu do salário de pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ocupando a mesma casa despojada durante 48 anos, até sua morte, em 2000. No entanto, como resultado prático de sua atuação, o Brasil economizou uma fortuna que pode somar dezenas de bilhões de dólares, ao deixar de consumir milhões de toneladas de adubos nitrogenados nas últimas décadas, principalmente no cultivo da soja. A pesquisadora se orgulhava dessa façanha espetacular, embora valorizasse muito mais o fato de ter ampliado, com muitos colaboradores, um campo de pesquisas fundamental para colocar a agricultura na harmonia possível com a Natureza.
Johanna (foto) bateu às portas da História no começo de 1951, quando procurou emprego no antigo Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas (SNPA) - o antecessor da Embrapa. O agrônomo Álvaro Barcelos Fagundes, diretor da instituição, estava autorizado a contratar um especialista estrangeiro, e dar início a investigações que pretendia realizar em microbiologia do solo. A candidata à vaga era estrangeira, mas o diploma de agrônoma que trazia na bagagem não continha muita substância. Fora obtido em universidade alemã, em meio ao caos do pós-guerra. Fagundes despachou a moça com a recomendação de que estudasse mais um pouco e retornasse em 15 dias. O segundo encontro foi uma repetição do primeiro. No terceiro, a candidata desabafou: "Quero trabalhar, mesmo sem ganhar nada". O apelo comoveu o diretor: "Muito bem, pode começar amanhã". Naquele dia o Brasil teve sorte.
Anos mais tarde, Johanna diria, com notável franqueza: "Eu não sabia nada, nunca tinha trabalhado em laboratório, e ele (Fagundes), com uma paciência incrível, me ajudou. Mas foi preciso mais de um ano para eu aprender o bê-á-bá em microbiologia". Além disso, "o dr. Fagundes me ensinou agronomia, de que eu, então, não tinha a menor idéia. Minha tese em microbiologia do solo tinha sido uma revisão da bibliografia, já que na Alemanha daquela época não havia laboratórios". É possível que Johanna tenha sido modesta nessas declarações, pois a monografia de conclusão do curso de agronomia, que apresentou em 1950, intitulava-se "Bactérias na fixação assimbiótica de nitrogênio e a possibilidade de seu aproveitamento na agricultura". Fagundes, com certeza, logo descobriu em Johanna uma pessoa de qualidades excepcionais, e isso deve tê-lo estimulado a ajudá-la. Em 1951, ambos assinaram "Influência da cobertura do solo sobre a flora microbiana" - o primeiro trabalho científico de Johanna, apresentado em reunião da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, no Recife.
Em 1952, Fagundes deixou o posto de diretor do SNPA. Àquela altura, Johanna - que se tornaria praticamente autodidata até 1960 - já fizera a si mesma duas perguntas fundamentais: "Por que as pastagens nativas, abundantes em várias regiões do país, permaneciam sempre verdes, sem que ninguém nunca as adubasse com fertilizantes nitrogenados? Como foi possível, da mesma forma, cultivar a cana-de-açúcar no Brasil sem adubação no decorrer de vários séculos?" Esses fenômenos só poderiam ser explicados pela fixação biológica do nitrogênio. Em 1953 ela publicaria "Azotobacter em solos ácidos". Na abertura do texto, uma recomendação: "O nitrogênio é uma das substâncias nutritivas mais importantes para as plantas. O N pode ser fixado por processos químicos e adicionado ao solo como adubo mineral. Seria mais econômico aproveitar os processos biológicos no solo para cobrir ao menos parcialmente a necessidade de nitrogênio". Na conclusão: "A capacidade de fixação de nitrogênio das tribos de Azotobacter isoladas no presente trabalho, pode ser comparada às das zonas temperadas".
Para publicar o estudo, Johanna teve de discutir antes com Waldemar Mendes, seu chefe imediato, que discordava do conteúdo, em alguns aspectos. Esse foi o primeiro dos vários embates que Johanna enfrentou ao longo da vida para defender seus pontos de vista. Como estava convicta de que trilhava rota segura, manteve o rumo das pesquisas. Novos resultados promissores apareceram. Em 1955, ela relatou a descoberta no Brasil de bactérias da espécie Beijerinckia, capazes de fixar nitrogênio assimbioticamente, em solos ácidos. Esses microrganismos já haviam sido descritos no exterior. A fixação do nitrogênio por bactérias que vivem em simbiose com as leguminosas - em nódulos localizados nas raízes dessas plantas - também era conhecida havia muito tempo. Mas Johanna estava prestes a dar sua maior contribuição à ciência: a descoberta das bactérias fixadoras de nitrogênio em vegetais de outras espécies, principalmente em gramíneas, como o milho e a cana-de-açúcar. Essas bactérias podem ser encontradas em diversos tecidos dessas plantas - nas raízes, nos colmos, nas folhas e nas sementes.
Em 1958, em parceria com Roberto Alvahydo e Alaídes P. Ruschel, ela publicou na Revista Brasileira de Biologia um trabalho pioneiro sobre a fixação do nitrogênio em cana-de-açúcar, realizado por uma nova espécie de bactéria que isolou, a Beijerinckia fluminensis. Em 1959, os dados da pesquisa foram apresentados num congresso sobre solos, sendo recebidos com ceticismo. Ela comentou o episódio asssim: "Contrariando o saber estabelecido, acharam estranho que no Brasil, uma região de clima tropical, houvesse bactérias fixadoras de nitrogênio habitando as raízes das gramíneas. Mas havia uma razão lógica para o fenômeno. Uma bactéria só cresce, em meio de cultura, a uma temperatura mínima de 25oC. Melhor sempre é uma temperatura de 30-35oC. Temperaturas dessa ordem não ocorrem nos solos de regiões temperadas, como Estados Unidos e Europa. Nas regiões tropicais isso seria muito mais provável. (...) Naquela época o pessoal me gozava, acho que realmente ninguém me levava a sério, porque não existia na literatura qualquer descrição da associação entre bactérias fixadoras de nitrogênio e plantas superiores".
Havia mais que isso por trás da rejeição às suas idéias. No contexto da época, a chamada "revolução verde" triunfava em vários continentes, pregando um modelo de agricultura baseado no emprego intensivo de sementes selecionadas, adubos químicos, inseticidas, herbicidas e máquinas, em sistemas de monocultura, explorados em grandes extensões de terra. Ao mesmo tempo, o mundo estava mergulhado na Guerra Fria. Com o objetivo de lucrar e também de mostrar a superioridade econômica do Ocidente sobre a URSS e seus aliados, as corporações norte-americanas participavam da batalha ideológica, afinadas com a política da Casa Branca. As do setor agroindustrial se empenharam na promoção da "revolução verde". No Brasil a economia vinha crescendo e o país se urbanizava com rapidez desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A produção agrícola aumentava, mas estava aquém das necessidades do mercado interno.Entre junho de 61 e janeiro de 63, Johanna desenvolveu um estudo sobre a fixação do nitrogênio em leguminosas, também em nível de mestrado. Sobre essa etapa ela diria: "Não foi possível continuar o trabalho com gramíneas nos Estados Unidos. Meu orientador (O. N. Allen) não queria saber de nada disso. Apesar de ter grande renome, ele não me ensinou muita coisa. Sempre digo que com ele só aprendi a fazer rolhas de algodão, muito usadas no laboratório. Eu tinha, naquela época, uma mentalidade bastante forte, e fui realizando o trabalho apesar de tudo. Meu orientador viajava muito. Um dia, após uma ausência de quatro meses, ele voltou e a tese estava pronta. Ele ficou possesso, mas se fechou em seu escritório durante dois dias para lê-la. A tese já estava inclusive datilografada... Vi-o na defesa da tese, onde apenas corrigiu três vírgulas, e mais nada".
Na verdade, Johanna foi apoiada pelo co-orientador. Mas isso não diminui o valor de seu esforço: houve comentários na época de que o trabalho que apresentou valeria por uma tese de doutorado. Ao retornar ao Brasil, Johanna estava mais que preparada para enfrentar o debate sobre os caminhos da soja no país. Desde então seu prestígio só cresceu, atraindo grande número de estudantes para o laboratório, que, em 1992, seria transformado numa unidade independente da Embrapa: o Centro Nacional de Pesquisa de Agrobiologia. Por meio dos orientandos, estudantes de pós-graduação, a produção científica de Johanna se multiplicou. Ela fazia questão de dizer: "Não faço nada sozinha - tudo é fruto de muita troca entre nossa equipe".
De fato, sua assinatura aparece em mais de 500 trabalhos científicos. É digna de nota a maneira como se relacionava com os estudantes, que oscilava entre extremos de severidade e atitudes maternais. Preconceitos, nunca. Caso contrário, uma quase-menina, vestida à moda hippie, não teria sido admitida em seu laboratório, nos anos 1970.
Ao falecer, em 5 de outubro de 2000, vítima de enfermidade neurológica, Johanna acumulava grande número de distinções, prêmios e homenagens. Uma delas, informal, foi prestada por Norman Borlaug, prêmio Nobel da Paz, chamado de "pai da \\`revolução verde\\`", que, em visita a Johanna, lhe disse: "O que você faz aqui é muito melhor que aquilo que fiz".
Johanna recebeu, ainda, o título de doutora Honoris Causa concedido pela Universidade da Flórida (1975) e pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982); em 1978 tornou-se membro da Academia de Ciências do Vaticano, nomeada pelo Papa Paulo VI, e foi condecorada várias vezes pelo governo brasileiro. Em 2001, cientistas mexicanos e alemães deram seu nome a duas novas espécies de bactérias fixadoras de nitrogênio, a Cluconacetobacter johannae sp. e Azospirillum doebereinerae sp. Finalmente, para preservar-lhe a memória e também dar apoio à continuidade de seu trabalho, Jürgen Döbereiner e um grupo de pesquisadores fundaram a Sociedade de Pesquisa Johanna Döbereiner, em 2002.
Fonte: Revista Scientific American Brasil (adaptado)

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